Coordenador de laboratório nos EUA, alegretense fala da expectativa de imunização em massa
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O alegretense Dinler Amaral Antunes, reside em Houston nos Estados Unidos, Bacharel em Biomedicina pela UFRGS, Mestrado e Doutorado pelo PPGBM/UFRGS e pós-doutorado pela Rice University (Texas/EUA), foi tema de um post do PAT em julho de 2020.

Na época, cumprindo um rigoroso isolamento social na região metropolitana de Houston (Texas) que tem mais de 7 milhões de habitantes, a quarta mais populosa dos EUA, ele conversou com reportagem.

Hoje, passado quase um ano dessa situação dramática, tentamos contato com ele e através de um aplicativo de sua rede social e batemos mais um papo sobre o atual estágio da pandemia está na cidade onde o alegretense vive com a família.

A pandemia da covid-19 parou o planeta inteiro, e exacerbou desigualdades e problemas políticos, econômicos e sociais em todos os países.

 

Para o alegretense, talvez a única mensagem positiva desta tragédia seja a demonstração da competência e da importância da ciência. “Produzir uma nova vacina era algo que levava décadas. Não porque não sabíamos como fazê-las, mas porque é sempre difícil conseguir o investimento necessário para pesquisa científica”, explica Dinler.

Ele conta que a base para se desenvolver uma vacina são estudos de geração de conhecimento, para se entender o funcionamento do sistema imunológico, para saber como um determinado vírus infecta e se multiplica nas células.

Este tipo de pesquisa básica é algo que não tem aplicação comercial imediata. Não gera imediatamente um produto que pode ser vendido, e por isso não é do interesse imediato da indústria, conta.

Para o Doutor alegretense, este tipo de pesquisa é sempre financiada pelos governos, atraindo interesse do setor privado apenas nas etapas finais de desenvolvimento e comercialização. Mas é justamente este tipo de investimento governamental de longo prazo que desenvolve a infraestrutura e os recursos humanos (ou seja, pessoas capacitadas), as quais podem ser rapidamente mobilizados em um momento de crise.

A Alemanha e os EUA são citados como exemplos de países que investem bastante neste tipo de pesquisa básica. Não por acaso, justamente uma empresa da Alemanha (Pfizer) e uma empresa dos EUA (Moderna) foram algumas das primeiras a desenvolver e validar vacinas para a covid-19.

Com o investimento governamental e a dedicação de cientistas capacitados, este grande feito foi obtido em menos de 1 ano. Neste mês de Março de 2021, o alegretense de 35 anos, completou um ano trabalhando sem sair de casa, e conseguiu receber a primeira dose da vacina da Pfizer nos EUA.

Outro fato marcante destacado pelo alegretense é que as vacinas da Pfizer e da Moderna não são as únicas. Empresas dos EUA , do Reino Unido,  da China e da Rússia, todas com financiamento governamental, também produziram e validaram suas próprias vacinas. “Muitas delas já sendo aplicadas em diversos países, inclusive no Brasil. Nesta semana, inclusive, o Butantan anunciou uma vacina 100% brasileira, a qual avança agora para testes em humanos”, menciona.

Dinler sustenta que o fato de o Brasil conseguir produzir sua própria vacina não é surpresa. Durante as últimas décadas o Brasil foi gradativamente aumentando o investimento em pesquisa, construindo infraestrutura e formando pesquisadores capacitados.

“Quando defendi meu Doutorado em 2014, o futuro da pesquisa no Brasil era promissor, e meu objetivo profissional era me tornar um Professor e Pesquisador em uma Universidade Pública Federal. Mas eu tive a oportunidade de complementar minha formação nos EUA, fazendo um pós-doutorado na Rice University em Houston, no Texas”, revela.

O plano inicial dele era de permanecer por um ano e acabou mudando, pois o pós-doutorado acabou durando 5 anos. “Tudo isso, foi consequência das oportunidades que tive nos EUA, para fazer pesquisa básica com financiamento tanto do governo do Texas, quanto do governo dos EUA. Mas o outro fator que pesou na minha decisão de permanecer nos EUA foi que o ambiente de pesquisa no Brasil mudou completamente nos últimos 6 anos. E não foi apenas uma consequência da crise econômica. Foi uma decisão política. O Brasil decidiu que investir em educação e pesquisa era supérfluo. Com isso está deixando sucatear a infraestrutura que havia sido construída, e não está permitindo que os pesquisadores Brasileiros exerçam todo o seu potencial”, resigna-se o brasileiro.

 

Ele espera que uma das lições da pandemia da covid-19 seja a de que é preciso escutar os cientistas, e é preciso investir em pesquisa nacional, sobretudo nos momentos de crise. Graças a um investimento público sem precedentes, os EUA estão agora dando apoio financeiro para a maior parte da sua população. Mais do que isso, eles compraram e estão distribuindo milhões de doses de diversas vacinas aprovadas. Enquanto eu fui vacinado com a da Pfizer, minha esposa foi vacinada com a da Moderna, alguns amigos foram vacinados com a da AstraZeneca, e outros deverão receber a da Johnson & Johnson”, comemora.

Dinler conta que o impacto da vacinação em massa tem efeitos rápidos e claros. Os EUA começaram a vacinar grupos prioritários ainda em Dezembro de 2019, e no começo de Janeiro os índices mostravam mais de 300 mil novos casos da doença por semana.

A partir de Janeiro a campanha de vacinação acelerou, e em Março os índices caíram para 54 mil novos casos por semana. Agora todos os adultos a partir de 18 anos podem se vacinar, e a expectativa é que todos estejam vacinados até o final de Maio.

O clima já é de otimismo e de esperança no retorno de uma certa “normalidade”. “O comércio já abriu completamente aqui no Texas, mas o uso de máscara e o distanciamento social ainda são fortemente recomendados até que todos estejam vacinados” conta.

Outra notícia boa mencionada pelo alegretense é que os EUA já se comprometeram a auxiliar a OMS, através da iniciativa COVAX, a distribuir vacinas para países que ainda não conseguiram vacinar a maior parte de sua população, e o Brasil será um dos beneficiados, já tendo recebido mais de um milhão de doses de vacina pela COVAX.

Com a finalização dos projetos e dos financiamentos que eu havia conseguido nos EUA, chegou a hora de Dinler conseguir a tão sonhada vaga de Professor e Pesquisador. “Considerando as minhas opções e a situação da pesquisa no Brasil, eu decidi aplicar para vagas nos EUA. Eu comecei as aplicações em Outubro de 2019, com o intuito de conseguir uma posição até Abril de 2021. Infelizmente a pandemia cancelou grande parte dos processos seletivos  que eu estava participando, e atrasou tantos outros. Felizmente eu consegui permanecer na mesma posição durante o resto de 2020, enquanto continuava com as entrevistas e as negociações em algumas Universidades. Finalmente eu recebi e aceitei uma propost para ser Professor de Biologia Computacional no Departamento de Biologia e Bioquímica da Universidade de Houston”, comemora o alegretense.

Ele vai permanecer nesta posição por pelo menos 6 anos, com a possibilidade de promoção para uma posição permanente depois deste período. Enquanto isso, continua encontrando formas de contribuir com a pesquisa Brasileira, mesmo que a distância.

Um exemplo, é oferecendo vagas com bolsa no seu laboratório para treinar brasileiros que queiram fazer Doutorado e Pós-Doutorado. Também apresenta frequentemente palestras e cursos gratuitos para Instituições Brasileiras. As últimas palestras foram para a Universidade Federal do Ceará (UFC) e para a UFRGS, e as próximas serão para a Universidade Estácio de Sá, e para a Univates.

“Eu colaboro com pesquisadores brasileiros, da UFC, da PUCRS e da USP. E também tento contribuir com iniciativas de divulgação científica, escrevendo para o Blog da Sociedade Brasileira de Imunologia, e ajudando na organização de eventos como os encontros de Pesquisadores e Universitários Brasileiros (PUBs)”, finaliza o alegretense.

Júlio Cesar Santos                                 Fotos: acervo pessoal

 


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