João Fontanari foi um visionário na construção de carros made in Alegrete
Compartilhe
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Já imaginou uma fábrica de carros em Alegrete. Independente da sua resposta, a reportagem a seguir conta a história de um alegretense de coração que tinha uma fábrica de carros no município.

Isso mesmo, João Luiz Fontanari marcou história e na 3ª Capital Farroupilha, criava carros que hoje são considerados relíquias. Natural de Caçapava do Sul, ele chegou em Alegrete aos 6 anos.

Um carro feitio do Alegrete, foi fabricado, em 1982, por ele, com chassi e suspensão em longarinas de aço. A mecânica de Chevete, motor 1400 cilindradas, e faróis de caminhão militar, conseguido em sucata e feito inteiramente à mão.

O automóvel de construção artesanal inspirado nos carros esportivos clássicos de dois lugares, construído por João Luiz Fontanari, entre 1979 e 1981, ganhou fama.

E esta não foi sua primeira experiência como construtor. Anos antes, em 1963, criou um pequeno carro anfíbio a partir de componentes de diversos veículos antigos, todos com mais de um quarto de século de idade – um chassi Ford T 1925, ao qual agregou um motor Ford V8 1938, uma caixa de câmbio Lincoln do mesmo ano e um diferencial Chevrolet 1929. A simpática carroceria de chapa de aço foi moldada em torno de uma estrutura tubular.

Seu Fontanari disse que na época havia limitações no setor automobilístico, mas em sua nova tentativa mostrou evidente avanço na qualidade da criação, montando um veículo bem projetado, com estilo próprio (não se tratava de réplica) e bom acabamento. A arquitetura era pouco usual em carros fora-de-série: chassi com longarinas, carroceria em chapa de aço e mecânica Chevrolet (Chevette), fugindo assim à quase regra geral da plataforma VW com motor traseiro refrigerado a ar e carroceria de fibra de vidro.

O conversível, esportivo de dois lugares, tinha sua grade que lembra a Rolls Royce, faróis grandes nas laterais destacam-se por quatro tubulações de descarga e o pneu de estepe que fica à mostra. O tanque armazena 45 litros de combustível junto ao porta-malas. Fontanari conseguiu construir um modelo que lembra os esportivos europeus principalmente aqueles em moda na Década de 30.

Seu Fontanari lembra com nostalgia o registro da primeira multifeira, em outubro de 1980, no Parque Assis Brasil em Esteio.

Ele foi convidado pela empresa Caldas Júnior que patrocinou stand para expor o modelo Fontanari 03, carro visitado pelo então Governador Amaral de Souza, os Ministros da Agricultura Amauri Stábili e da Previdência Jair Soares.

“Para mim foi muito gratificante esta oportunidade de mostrar um carro construído no Alegrete”, recorda o alegretense.

Mas Fontanari não parou por aí. Construiu um carro guincho em 1975, com a finalidade de levantar estruturas. Ele utilizou a plataforma de uma Pickup Willis 4×4, colocando um terceiro eixo para aumentar a capacidade de carga, com lança adicional para alcançar até 11 mts de altura, capacidade até  1000 kg com a lança elevada e na parte de traseira dois macacos hidráulicos, para ancorar no momento da operação. O comando do sistema todo dentro da cabine.

Proprietário de uma empresa, ele dedicava suas horas de folga à construção do carro, detalhe feito inteiramente à mão, exclusivo por ele. “Foi tudo sem estudo e sem qualquer planejamento”, afirmou Seu Fontanari, que revelou não ter completado o colégio ginasial, em virtude da empresa de esquadrias metálicas Incofon, que ocupava boa parte do seu tempo.

Um detalhe que chama atenção nos carros em cima da grade é o F de Fontanari com uma asa delta, que destaca o outro lado do alegretense, a paixão pela aviação.

Foto atual do modelo, em excelente estado de conservação, em Sinop, no Mato Grosso, com o seu terceiro proprietário.

Mas a história do Seu Fontanari não para por aí. Bom de memória, relembra com nostalgia a época vivida no Aero Clube de Alegrete (ACA). Ele conta que começou a frequentar o ACA na década de 50, mais precisamente a partir de 1952, quando tinha 10 anos. Seu pai foi diretor de material do Aeroclube até 1959. Até hoje ele lembra dos aviões que o ACA possuía: 03 KP..4 Paulistinha, PP-HCS, PP-RCS, PP-ROD, PIPER PA 18 PP-GTO.

Ele conta que o aeroclube ganhou Cesna -170 de prefixo PT-ACM, que tinha escrito na fuselagem abaixo da janela do passageiro – “Neste avião voava para sua fazenda o Senador Salgado Filho” – que foi ministro da aeronáutica de 1941 a 1945, e que veio a falecer em um acidente aéreo em 1950 com 62 anos de idade, acidente que ocorreu no município de São Francisco de Assis, o avião era um Lockhed 14 Super Electra.

João Fontanari lembra o nome dos pilotos que integravam o quadro da ACA, da década de 50: Gaudêncio Ramos -instrutor, Emílio Delamea, Bolivar Ferreira, Nei Ferreira, Sr. Garcia, Antônio Torcelli, Sr. Alcides, Sérgio Dornelles e Mário Pierry. Seu João menciona o também piloto Sr Duterlivio Silva, pai do inesquecível e querido amigo Chiquinho Estrela, companheiros de aeromodelismo na juventude. Juntos foram pioneiros ao lado do também amigo Eurípedes Torcelli, (O Pidi).

Fontanari relembra do amigo Adão Faraco, a quem teve o prazer de assistir o banho do seu primeiro voo solo. “Foi num lago próximo ao hangar”, conta um sorridente apaixonado pela aviação. Do FLAI, festival de acrobacias, conta com orgulho da participação.

“Hoje só ficou a lembrança do passado, foi muito gratificante. No inicio da década de 80, fui procurado pelo diretor do ACA, na ocasião para ver a minha possibilidade em fabricar um sistema de gancho para rebocar planadores, para ser instalado no avião Cesna 170. Aceitei o convite e fiz o equipamento. instalei no avião que foi levado até a aeroporto Salgado Filho”, explicou.

O sistema passou por diversos testes supervisionados por dois engenheiros do CTA – Centro Tecnológico da Aeronáutica e foi homologado, e em consequência o aeroclube de Alegrete ganhou dois planadores quero- quero. “Missão cumprida, sem custo nenhum de minha parte”, descreveu.

Passado algum tempo, ele foi novamente solicitado para mais uma empreitada. Preparar a parte estrutural do avião Globe Swift, modelo, fabricado em 1947, com a finalidade de prepará-lo para se tornar um avião acrobático.

Fontanari levou aproximadamente 3 anos de trabalho no Globe Swift, como colaborador do ACA, o trabalho foi concluído e inspecionado por dois engenheiros do CTA, que posteriormente foi homologado com inspeção feita no próprio aeroclube de Alegrete.

Este foi o legado que João Fontanari deixou para o aeroclube de Alegrete, embora não seja alegretense, nasceu em Caçapava do Sul, em 1942. Se considera alegretense de coração, aqui morou de 8 de março de 1948 até o dia 23 de março de 2003, foram 55 anos e 15 dias na 3ª Capital Farroupilha.

Aos 78 anos, completa 79 no dia 7 de abril, mora em Balneário Pinhal. “Cansei de fazer carros. Agora resolvi fazer pudim”, devolve um sorridente Fontanari, ao ser indagado sobre construção de carros.

Fontanari não tem carros, como meio de transporte usa apenas uma bicicleta, estilo praeira para seus afazeres. Entre uma caminhada e outra, é presença ativa nas redes sociais, onde cultiva uma legião de amigos e admiradores.

Júlio Cesar Santos                                       Fotos: acervo pessoal


Compartilhe
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •