Por amor à tradição, capataz contrariou prognósticos médicos e voltou a montar

“No lombo do cavalo eu sustentei minha família durante 30 anos. Destes, 23 foram em duas estâncias, sendo a última por 14 anos. Tenho orgulho em dizer que formei minha filha, hoje advogada” – falou o capataz Aridiné Macedo de 53 anos.

O alegretense é mais um lindo exemplo de superação, persistência e coragem. O cadeirante que elaborou uma ferramenta para conduzi-lo da cadeira de rodas ao lombo do cavalo. Uma história incrível, que revelamos neste período do ano que o Rio Grande do Sul vive a tradição de forma muito mais intensa com os Festejos Farroupilhas. Principalmente Alegrete, considerada a cidade com o maior Desfile de cavalarianos do estado.

Sem poder caminhar desde que sofreu uma lesão na medula, há cinco anos, devido a Síndrome de Guillain Barré, este vai ser o primeiro ano que ele vai acompanhar a Chama. No dia 13, o tradicionalista vai se unir ao grupo que conduzirá a Chama Crioula ao CTG Oswaldo Aranha.

Devido a limitação que ainda tem, Aridiné precisa da cadeira de rodas para se locomover e criou um guindaste para conseguir chegar até o lombo do cavalo. A criatividade foi pelo amor que tem à Tradição e o desejo de voltar a montar.

O alegretense disse à reportagem que ao saber do diagnóstico, ele teria sido um dos primeiros casos de Alegrete, jamais desanimou. Durante os primeiros nove meses só tinha movimento na cabeça, e foi muito comemorado o dia em que mexeu um dedo na mão direita. Os resultados de muita dedicação e fisioterapia passou a ser percebido depois de um ano.

No ano passado, Aridiné ficou viúvo depois de 29 anos de união. Elci Macedo foi acometida de um câncer e faleceu aos 56 anos. Entretanto, ele ressalta a importância que a esposa e a filha tiveram para que ele pudesse chegar no estágio atual, em que é totalmente independente. Apesar da cadeira de rodas, faz tudo, sem sentir qualquer dificuldade.

” Assim como minha família, minha fisioterapeuta e meus amigos foram incansáveis. Eu nunca desanimei, nem no período em que não tinha movimento algum da cintura pra baixo. Pois, sabia que não poderia decepcionar àqueles que estavam ao meu lado” – citou.

O capataz, sempre foi apaixonado pelo cultura gaúcha, lide campeira, gaita e Festejos Farroupilhas. Aridiné disse que sempre se destacou na gaita, instrumento que está aos poucos voltando a tocar, mas ainda com algumas dificuldades pois os dedos das mãos ainda não têm a mesma destreza de antes. Durante 20 anos desfilou no dia 20, sem falhas, e em 10 conduziu a Chama Crioula que chega ao Marco das Três Divisas.

Este ano, será o primeiro Desfile Gaúcho desde a Síndrome. Para que isso seja possível, mais uma adaptação foi feita para que a talha fosse colocada em um caminhão boiadeiro, de um amigo, e com isso ele possa realizar o percurso de dois dias até o CTG Oswaldo Aranha para entrega da Chama e depois terá outra no dia do Desfile. “Penso em todas as necessidades e conto sempre com a ajuda dos amigos. Em outubro do ano passado, foi a primeira vez que montei no lombo do cavalo depois de quatro anos, uma emoção indescritível. Depois dali, sabia que tudo mais seria possível. Quando houve o diagnóstico, eu pesava 115kg, minha esposa usava o cesto pra conseguir me movimentar, com ele e o “guindaste” sair da cadeira de rodas para o lombo do cavalo não é mais um desafio e, sim uma realização” – comentou.

No final da entrevista, ele disse que se alguém perguntar se ele é feliz, a resposta é, sim, sem nenhuma dúvida. Pois, a Síndrome o deixou com sequelas e limitações, que ele acredita que vai superar todas até voltar a andar, mas acima de tudo mostrou uma outra perspectiva de vida como o Esporte para Todos. Jogar basquete, é algo que jamais pensou em fazer, pois o único esporte que conhecia era tiro de laço. “Cada dia, sempre foi uma superação, nunca desanimei, entrei em depressão ou desisti. Sempre tive muita fé e aposto na minha completa recuperação. Tudo que é possível eu faço, natação, basquete, fisioterapia. Tudo pra fortalecer meus músculos e voltar a ter minha rotina no lombo do cavalo entre outros afazeres. Mesmo assim, hoje, não tem o que eu não faça. Tenho orgulho e agradeço pelos reconhecimento, ano passado na Câmara de Vereadores fui agraciado com Mérito de Reconhecimento expressivo talento tradicionalista da nossa terra e este ano com Mérito Desportivo através do Oswaldo Aranha.

Nunca perdi a esperança, nunca desisti, sei que um dia vou voltar a caminhar. ” – profetizou.

Flaviane Antolini Favero

Compartilhe
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *