Saudade do Alegrete: Lisie, a doutora que realizou o sonho de infância, ser professora
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Sempre com lindas histórias de superação e narrativas ricas que inspiram, o PAT traz mais uma belíssima trajetória de uma alegretense que está residindo em Uruguaiana. O quadro Saudade do Alegrete tem oportunizado que muitos, desgarrados, possam dividir suas conquistas fora da terra natal.

Nesta edição, a participação é de  Lisie Alende Prates que, com 32 anos, completa três anos como professora do curso de Enfermagem da Universidade Federal do Pampa/campus Uruguaiana. Nesses anos, ela teve o prazer de caminhar ao lado de colegas e alunos singulares. Ao lado deles, compartilhou o seu conhecimento como pesquisadora, desenvolveu o cuidado como enfermeira e dividiu as suas experiências e história como pessoa.

Foto Lisie – arquivo

 

Para começar, Lisie acrescenta que cresceu em um ambiente familiar que sempre a incentivou e apoiou na concretização dos seus projetos de vida. A alegretense considera que a estrutura familiar concebeu um grande alicerce para sua vida. O carinho dos pais, Carmen Alende e Fausto Prates, e irmãos, Lucas e Laís, a conduziram ao que é e acredita.

Na infância, Lisie tinha o hábito diário de ler o dicionário, o que representava piada entre os primos, que não entendiam como ela passava horas fazendo aquilo ou estudando no quarto, enquanto todas as crianças brincavam pela casa.

 

A alegretense conta que cresceu entre livros, anotações em papeis dispostos pelas paredes do quarto e, inclusive, nas portas do guarda-roupa. Gostava de fazer de conta que era professora e a irmã mais nova era aluna. Foi em uma dessas brincadeiras que a mãe a flagrou posicionando as letras do alfabeto na parede com cola branca, da mesma forma que via na escola. Foi assim que, ainda no ensino fundamental, constatei o desejo em atuar na docência.

“Estudei na Escola Emílio Zuñeda das séries iniciais até o ensino médio. Ao longo desse período, fiz amizades que conservo até hoje, com 32 anos. Foi a partir da facilidade em fazer e manter grandes amizades, que, em 2002, recebi o Diploma de Honra ao Mérito “Companheiro Mario Taddeu”, Título de “O Melhor Companheiro” da Turma pelo Rotary Club de Alegrete. Esta foi uma premiação muito simbólica na minha adolescência” – lembra.

Durante o ensino médio, Lisie cita que identificou a afinidade pela área da saúde. Aos poucos, passou a vislumbrar a enfermagem como profissão composta por um campo de conhecimentos que a propiciaria competência para cuidar das pessoas em todo o seu processo de vida e, com isso, passou a sonhar com o ingresso em uma universidade gratuita e de qualidade.

Antes de conquistar seu sonho, cursou dois semestres do curso de Ciências Biológicas na Universidade da Região da Campanha/campus Alegrete, tendo bolsa de estudos integral e, durante a passagem por essa instituição de ensino, se descobriu pesquisadora e constatou que além da docência, gostaria de trilhar sua trajetória profissional na pesquisa.

“Entre os corredores da URCAMP, em 2007, eu também conheci meu companheiro e um dos maiores incentivadores, Fernando Ceccon. Percorremos dois anos desde a primeira vez que nos vimos até o início do nosso relacionamento, quando eu já não residia mais em Alegrete. Em 2008, ingressei no curso de Enfermagem da Universidade Federal do Pampa/campus Uruguaiana, que, na época, ainda realizava processo seletivo por meio de vestibular anual. Ao longo dos anos de graduação, tive a oportunidade de atuar em diversas atividades de ensino, pesquisa e extensão, as quais me levaram à participação em eventos dentro e fora do Estado do RS, assim como fora do Brasil.”- destaca.

Foto Lisie – arquivo

Meses antes de concluir a graduação, a alegretense foi aprovada nas seleções do mestrado acadêmico na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi então, que optou por Santa Maria e durante dois meses, conciliou as atividades do mestrado com o estágio final da graduação, até que realizou a mudança em definitivo.

Nos os anos de 2013 e 2018, residiu em Santa Maria. Nesse período, além do mestrado, fez duas especializações e o curso de doutorado. Foi a primeira doutora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFSM.

Foto Lisie – arquivo

No primeiro ano de doutorado, foi nomeada no concurso da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) no Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), onde atuou durante dois anos e sete meses. “Por uma fase, eu conciliei as aulas do doutorado e da especialização com o trabalho no hospital, até que no final de maio de 2018, pude vivenciar a concretização do meu maior sonho profissional: fui aprovada em um concurso na área da docência, na mesma instituição que me formou e me inseriu no mundo do trabalho como enfermeira. Junto com a realização dessa conquista, também consegui concretizar o meu maior sonho como mulher. Descobri que estava grávida dois meses depois que tomei posse na UNIPAMPA. Não parecia ser real, depois de muitos anos tentando engravidar. Enfim, eu podia dizer que estava vivendo a melhor fase da minha vida. Doutora em enfermagem, especialista na área que eu mais amo (obstetrícia), professora e agora mãe do Felipe” – fala com muita alegria.

Foto Lisie – arquivo

Lisie acrescenta que pode parecer que o caminho até esse dia tenha sido fácil, mas não foi. Ao longo desses anos de dedicação ao meio escolar e acadêmico, ela abdicou de muita coisa. Esteve com a família sempre que podia e não deixou de aproveitar a adolescência/juventude, mas ao mesmo tempo, precisou deixar o sono de lado para estudar durante à noite e madrugada. Ou mesmo depois de empregada, após os plantões noturnos, precisava encontrar forças para concluir a tese, a monografia da especialização e continuar estudando para os concursos ligados à docência.

“Precisei economizar dinheiro que, muitas vezes, eu nem tinha para participar dos eventos científicos ou solicitar auxílio da universidade para o pagamento da inscrição. Comi muito “miojo” e pão. Viajei para os eventos sem saber se o auxílio da universidade havia sido depositado. Enfrentei o medo para falar na frente de pequenos e grandes públicos, até mesmo quando eu nem sabia ao certo o idioma do país em que acontecia o evento. Nos concursos, presenciei pessoas que acreditavam no meu esforço e dedicação, e que “apostavam” em mim. Contudo, também ouvi que tinha uma “trajetória meteórica” e que não poderia ter conseguido chegar até ali sozinha. E, de fato, nunca estive sozinha. Sempre tive apoio da minha família e de amigos, que acreditaram no meu sonho. Foi com eles e por eles que eu nunca desisti”- ressalta a alegretense.

Foto Lisie – arquivo

Em junho de 2021, ela completa três anos como professora do curso de Enfermagem da Universidade Federal do Pampa/campus Uruguaiana.

Lisie diz que já teve vários alunos, que também são naturais de Alegrete e percebe que eles se inspiram na sua história e reconhecem que o fato de ter nascido e crescido no interior, não representa obstáculo para quem tem vontade de vencer.

Foto Lisie – arquivo

Para concluir, ela cita que, desde que chegou na instituição, foi homenageada por três turmas de formandos do curso de Enfermagem. “Hoje eles são meus colegas de profissão e são pessoas por quem tenho profunda admiração devido à coragem, sabedoria e empatia com quem eles vêm atuando nesse período de pandemia. Eles me motivam todos os dias a ser uma professora e uma enfermeira melhor, e me fazem acreditar que todo o esforço valeu a pena”- finalizou.

Foto Lisie – arquivo

 


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