As manhãs de inverno em Alegrete costumam revelar uma cena que se repete ano após ano e desperta a curiosidade de muita gente. Em uma mesma rua, sob a mesma temperatura, é comum encontrar pessoas caminhando apenas com um moletom leve, enquanto outras enfrentam o frio usando casacos pesados, cachecol, touca e luvas. A diferença é tão evidente que frequentemente surge a brincadeira de que alguns “não sentem frio”, enquanto outros “congelam” antes mesmo de sair de casa.

Mas essa percepção não é fruto de exagero ou simples preferência por roupas mais quentes. A medicina e a fisiologia humana demonstram que a sensação térmica varia significativamente de uma pessoa para outra, mesmo quando todas estão submetidas às mesmas condições climáticas. O organismo humano possui mecanismos sofisticados para manter sua temperatura interna estável, porém esses mecanismos não funcionam com a mesma eficiência em todos os indivíduos.
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A explicação começa no cérebro. Existe uma pequena estrutura conhecida como hipotálamo, responsável por atuar como um verdadeiro termostato do corpo humano. Sempre que a temperatura ambiente diminui, essa região identifica a perda de calor e imediatamente coloca em funcionamento uma série de respostas automáticas destinadas a preservar a temperatura corporal, que gira em torno dos 37 graus. Entre essas reações estão a contração dos vasos sanguíneos próximos à pele, a aceleração do metabolismo e, em situações mais extremas, os tremores musculares, que nada mais são do que contrações involuntárias destinadas a produzir calor.
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Entretanto, a eficiência desse sistema varia conforme as características de cada organismo. Pessoas com maior quantidade de massa muscular, por exemplo, tendem a produzir mais calor naturalmente, uma vez que os músculos funcionam como verdadeiras usinas de energia térmica. Já indivíduos muito magros costumam perder calor com maior facilidade, pois possuem menor quantidade de tecido adiposo, que atua como uma espécie de isolamento natural contra o frio.
Durante muito tempo acreditou-se que apenas a gordura corporal determinava quem sentiria mais frio, mas estudos mais recentes mostram que essa é apenas uma das peças de um quebra-cabeça muito mais complexo. O metabolismo exerce papel igualmente importante. Pessoas cujo organismo consome energia de forma mais acelerada produzem maior quantidade de calor ao longo do dia. Em contrapartida, quem apresenta metabolismo mais lento pode perceber temperaturas baixas com maior intensidade, mesmo estando vestido adequadamente.
Outro aspecto frequentemente observado pela ciência diz respeito às diferenças entre homens e mulheres. Diversas pesquisas internacionais apontam que, em média, as mulheres tendem a relatar maior sensibilidade ao frio. Essa característica está relacionada a fatores hormonais, à menor quantidade de massa muscular e também à forma como ocorre a circulação sanguínea. O organismo feminino costuma priorizar o aquecimento dos órgãos internos, reduzindo o fluxo de sangue para mãos e pés quando as temperaturas caem. É justamente por isso que muitas mulheres reclamam de extremidades geladas, mesmo em ambientes onde outras pessoas se sentem confortáveis.
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A idade também influencia diretamente essa percepção. À medida que os anos passam, o organismo sofre mudanças naturais que reduzem sua capacidade de produzir calor. A perda gradual de massa muscular, a diminuição da atividade metabólica e alterações na circulação fazem com que idosos sintam mais frio do que pessoas jovens. Não por acaso, especialistas consideram a população idosa um dos grupos mais vulneráveis durante as ondas de frio intenso registradas no Rio Grande do Sul.
Mas nem sempre sentir muito frio é apenas uma característica individual. Em algumas situações, essa sensibilidade pode servir como um importante sinal de alerta para problemas de saúde. Médicos explicam que doenças como hipotireoidismo, anemia, deficiência de ferro, deficiência de vitamina B12, diabetes e distúrbios circulatórios podem reduzir a capacidade do organismo de produzir e conservar calor. Quando uma pessoa passa a sentir frio de maneira muito mais intensa do que o habitual, especialmente se essa mudança vier acompanhada de fadiga, sonolência, perda de peso ou fraqueza, a recomendação é procurar avaliação médica para investigar possíveis alterações clínicas.
Os hábitos de vida também exercem influência sobre essa percepção. Dormir pouco, alimentar-se inadequadamente ou permanecer muitas horas em jejum reduz a disponibilidade de energia para o organismo e interfere na regulação da temperatura corporal. Além disso, fatores emocionais como estresse e ansiedade modificam a maneira como o cérebro interpreta os estímulos do ambiente, fazendo com que algumas pessoas tenham uma percepção mais intensa do frio.
No caso dos moradores de Alegrete, existe ainda um componente bastante conhecido: o vento. Durante o inverno, a chegada de massas de ar polar costuma ser acompanhada pelo minuano, que aumenta significativamente a sensação térmica. Isso acontece porque o vento remove rapidamente a fina camada de ar aquecido que permanece ao redor da pele, acelerando a perda de calor para o ambiente. Assim, mesmo quando os termômetros registram temperaturas relativamente moderadas, a sensação percebida pelo corpo pode ser vários graus inferior.
Esse fenômeno ajuda a explicar por que duas pessoas expostas às mesmas condições climáticas podem reagir de maneiras completamente diferentes. Embora a temperatura ambiente seja exatamente a mesma, fatores como genética, composição corporal, metabolismo, circulação sanguínea, idade, hormônios, alimentação e estilo de vida determinam como cada organismo produz, conserva e perde calor.
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No fim das contas, a ciência desmonta um dos mitos mais comuns do inverno: sentir mais frio não significa fraqueza, exagero ou “frescura”. Trata-se de uma resposta fisiológica individual, construída pela interação de diversos fatores que tornam cada organismo único. Em uma cidade como Alegrete, onde o inverno faz parte da identidade local e as ondas de frio frequentemente transformam a paisagem da Fronteira Oeste, essa diversidade pode ser observada diariamente. Afinal, embora o termômetro marque a mesma temperatura para todos, cada pessoa possui um “termômetro interno” próprio, capaz de transformar um simples dia frio em uma experiência completamente diferente.

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