Por muitos anos, o pequeno menino que caminhava pelas ruas de Alegrete carregando recicláveis nas mãos jamais imaginou que, um dia, teria a própria empresa, uma família construída com amor e uma nova vida no litoral gaúcho. A infância foi marcada pela dificuldade. Pela ausência. Pela necessidade de amadurecer cedo demais. Mas também pela fé.
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A trajetória de Josué Soares Britz, alegretense criado no bairro Olhos D’Água, é uma dessas histórias que atravessam a dor, a humildade e a esperança até encontrar um novo começo.
Hoje, morando no município de Imbé, no litoral norte gaúcho, Josué olha para trás com gratidão e emoção. Entre lembranças difíceis e conquistas construídas com muito esforço, ele carrega consigo a certeza de que a vida pode mudar quando alguém decide não desistir de si mesmo.
Filho de Adriana dos Santos Soares e Rodrigo de Souza Britz Neto, Josué praticamente foi criado pela avó, dona Sônia Terezinha Santos Soares, mulher que se tornou sua principal referência de luta e dignidade. Desde os primeiros meses de vida, encontrou nela o acolhimento necessário para enfrentar uma infância marcada por dificuldades financeiras e inúmeras privações.
As memórias da infância ainda permanecem vivas. A rotina era simples, dura e distante da realidade de muitas crianças da mesma idade. Enquanto alguns brincavam pelas ruas, ele aprendia desde cedo o peso da responsabilidade. Aos quatro anos já acompanhava a avó e a mãe na coleta de recicláveis, ajudando como podia para garantir alimento dentro de casa.
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“Minha vó fazia faxina por 30, 50 reais para conseguir levar comida pra nós. Eu cresci vendo ela lutar todos os dias sem reclamar da vida”, relembra.
Com o passar dos anos, a necessidade transformou o menino em trabalhador antes mesmo da adolescência chegar. Ainda muito jovem começou a descarregar tijolos, carregar cimento, fazer pequenos serviços pesados e procurar qualquer oportunidade que ajudasse no sustento da família. Em muitos momentos, o trabalho acabou ocupando o espaço que deveria pertencer aos estudos e à infância.
Mesmo assim, Josué jamais perdeu completamente a esperança de construir uma realidade diferente.
Na Escola Salgado Filho encontrou professores que marcaram sua caminhada, especialmente a professora Tânia Vila Verde, pessoa que, segundo ele, teve papel importante ao incentivá-lo a acreditar na própria história e enxergar valor na trajetória que viveu.
“Ela sempre dizia que eu precisava contar tudo o que passei, porque muitas pessoas vivem dificuldades parecidas e precisam acreditar que é possível vencer.”
Além do trabalho, o esporte também ocupou um espaço importante em sua juventude. Josué participou de campeonatos interbairros, jogou futsal pelo CPC e guarda até hoje lembranças afetivas das competições realizadas em Alegrete, especialmente dos torneios estudantis e comunitários que movimentavam os bairros da cidade.
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Mas foi durante a passagem pelo Exército Brasileiro, no 12º Batalhão de Engenharia de Combate Blindado, que ele afirma ter vivido uma das primeiras grandes transformações pessoais. O ambiente militar trouxe disciplina, responsabilidade e, principalmente, a sensação de independência ao receber o próprio salário.
“Ali comecei a enxergar que talvez eu pudesse ter uma vida diferente. Foi uma época que abriu minha cabeça.”
Depois de trabalhar também em supermercados e oficinas mecânicas da cidade, Josué tomou uma decisão que mudaria definitivamente sua trajetória. Em 10 de agosto de 2016, deixou Alegrete rumo ao litoral norte gaúcho em busca de novas oportunidades e de uma chance concreta de reconstruir a própria vida.
Primeiro viveu em Tramandaí. Mais tarde, estabeleceu-se em Imbé, cidade onde permanece até hoje. O começo, segundo ele, não foi fácil. Chegou praticamente sem estrutura, precisando recomeçar do zero em uma realidade completamente diferente daquela que conhecia na Fronteira Oeste.
Ainda assim, havia dentro dele algo maior do que o medo: a vontade de vencer.
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Foi no litoral que Josué também reencontrou a fé e voltou a frequentar a igreja evangélica, algo que considera fundamental em sua transformação pessoal. Segundo ele, a espiritualidade foi uma das bases que o ajudaram a suportar momentos difíceis, reorganizar pensamentos e acreditar novamente no futuro.
Em 2019 veio uma das maiores conquistas da vida: a abertura do próprio negócio. Nascia ali a lavagem automotiva que leva o sobrenome da família, um sonho antigo que parecia impossível nos tempos em que lutava apenas para sobreviver nas ruas de Alegrete.
“Era um sonho que eu carregava há muito tempo. Em Alegrete eu nunca tive condições de começar, mas Deus abriu as portas aqui no litoral.”
No mesmo período, a vida lhe reservava outra grande bênção: a construção da família e o nascimento dos filhos, um menino e uma menina, que hoje são apontados por ele como sua maior motivação para continuar lutando diariamente.





Embora esteja separado há pouco mais de um ano, Josué faz questão de destacar que os filhos seguem sendo prioridade absoluta em sua vida e que todo o esforço realizado ao longo dos anos sempre teve como objetivo oferecer a eles oportunidades diferentes das que teve na infância.
Ao falar sobre Alegrete, a emoção surge naturalmente. Mesmo distante fisicamente, ele mantém viva a ligação com a cidade onde nasceu, cresceu e viveu momentos que moldaram sua personalidade.
“Sinto muita saudade da minha terra, das pessoas, do tradicionalismo, das lembranças da infância. Alegrete me marcou de várias maneiras. Algumas feridas ficaram, mas também ficaram ensinamentos e histórias que levo comigo para sempre.”
Hoje, olhando para a própria caminhada, Josué entende que sua trajetória representa mais do que uma simples mudança financeira ou profissional. Representa a vitória silenciosa de alguém que precisou enfrentar a pobreza, o abandono, as limitações e os julgamentos para conseguir construir uma nova realidade.
A história do menino que reciclava pelas ruas, descarregava caminhões e muitas vezes abriu mão da infância para ajudar dentro de casa se transformou na história de um homem que encontrou na fé, no trabalho e na persistência a oportunidade de recomeçar.
E talvez seja justamente essa a maior mensagem de sua caminhada: a de que nenhuma origem humilde é capaz de impedir alguém de sonhar quando existe coragem suficiente para continuar seguindo em frente.

O Portal Alegrete Tudo abre espaço para alegretenses que vivem longe da cidade e desejam compartilhar suas histórias, lembranças, conquistas e saudades da terra natal.
Quem quiser participar pode entrar em contato pelo WhatsApp: (55) 99928-7002 — Flaviane

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