Historiador reúne descendentes de personagens centrais da história negra de Alegrete

O historiador alegretense Márcio Jesus Ferreira Sônego promoveu recentemente um encontro marcado pela valorização da memória, da ancestralidade e da história da população negra de Alegrete.

A atividade reuniu Fernando Quiroga Fonseca, bisneto de Onofre Nunes Quiroga; Jesus dos Santos Rodrigues, bisneto de Efigênia Nunes dos Santos; e Ênio Santos, bisneto de Sofia de Brum, personagens cujas trajetórias vêm sendo objeto de pesquisas desenvolvidas pelo historiador nos últimos anos.

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O encontro representou um importante momento de diálogo entre a pesquisa histórica e a memória familiar, aproximando documentos, relatos e experiências preservadas por gerações. Para Sônego, os descendentes desempenham um papel fundamental na preservação de histórias que ajudam a compreender a formação da comunidade negra local e as experiências vividas por homens e mulheres negros após a abolição da escravidão.

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Histórias de resistência e construção da liberdade

As pesquisas realizadas pelo historiador destacam as trajetórias de Onofre Nunes Quiroga, Efigênia Nunes dos Santos e Sofia de Brum, que viveram a experiência da escravização e enfrentaram as dificuldades impostas por esse sistema. Contudo, segundo o pesquisador, suas histórias vão muito além dessa condição.

Após conquistarem a liberdade, construíram famílias, desenvolveram atividades de trabalho, estabeleceram laços de solidariedade e participaram ativamente da construção da comunidade negra em Alegrete. Seus percursos revelam experiências de resistência, autonomia e protagonismo em um contexto marcado pelas desigualdades e pelo racismo herdados do período escravista.

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A documentação histórica analisada por Sônego demonstra que os vínculos entre essas famílias permaneceram fortes mesmo após a abolição. Relações de amizade, compadrio e apoio mútuo ajudaram a consolidar redes de proteção e pertencimento que foram fundamentais para enfrentar os desafios da vida em liberdade.

Memória preservada pelas famílias

Ao longo dos anos, a pesquisa permitiu reconstruir aspectos importantes dessas trajetórias por meio de documentos históricos, registros cartoriais e processos judiciais. No entanto, para o historiador, o contato com os descendentes acrescenta uma dimensão humana que os documentos, por si só, não conseguem revelar.

Fernando Quiroga Fonseca, Jesus dos Santos Rodrigues e Ênio Santos são considerados por Sônego verdadeiros guardiões da memória familiar. Por meio da oralidade, das lembranças compartilhadas e da preservação das histórias transmitidas entre gerações, eles mantêm vivo um patrimônio imaterial de grande valor para a compreensão do passado.

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“Os conhecimentos preservados pelas famílias ampliam e humanizam a pesquisa histórica, permitindo compreender não apenas os fatos registrados nos documentos, mas também os sentimentos, as relações e os significados atribuídos às experiências vividas”, destaca o pesquisador.

O legado de Sofia de Brum

Entre as personagens estudadas, Sofia de Brum ocupa lugar de destaque na memória da cidade. Sua relevância foi reconhecida publicamente ainda na década de 1950, quando uma rua do Bairro Vila Nova recebeu seu nome.

A homenagem representa um importante gesto de reconhecimento à contribuição de uma mulher negra cuja trajetória integra a história de Alegrete e simboliza a participação de tantos outros homens e mulheres negros na construção do município.

História Pública e reconhecimento

Para Sônego, o encontro reafirma a importância da chamada História Pública, área que busca aproximar a produção do conhecimento histórico da sociedade e das comunidades diretamente relacionadas aos temas pesquisados.

Segundo ele, quando as famílias têm acesso às pesquisas sobre seus antepassados, fortalecem-se os vínculos de pertencimento, identidade e reconhecimento histórico. Além disso, a pesquisa cumpre uma função social ao contribuir para combater o apagamento de trajetórias que, durante muito tempo, permaneceram invisibilizadas nos registros oficiais.

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O historiador ressalta que a história da população negra não se limita à escravidão, mas inclui experiências de luta, resistência, trabalho, formação de famílias e construção de comunidades. Nesse sentido, o encontro com os descendentes de Onofre Nunes Quiroga, Efigênia Nunes dos Santos e Sofia de Brum representa também uma homenagem a milhares de homens e mulheres negros que ajudaram a construir o Brasil.

Ao final, ele destacou que a pesquisa histórica alcança seu significado mais profundo quando retorna às pessoas cujas histórias estão sendo narradas. “É no diálogo entre documentos, memórias e ancestralidades que a História Pública se fortalece, promovendo reconhecimento, pertencimento e cidadania”, afirmou.

O encontro evidenciou que a memória permanece viva através das famílias e reforçou a importância de preservar e valorizar as histórias que constituem o patrimônio cultural e humano de Alegrete.

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