À frente da limpeza urbana, Gilmar Massary destaca desafios, resultados e histórias de superação

Quem percorre diariamente as ruas de Alegrete dificilmente imagina a complexa engrenagem que funciona todas as manhãs para manter a cidade limpa, organizada e acolhedora.

Praças bem cuidadas, canteiros conservados, ruas varridas, cemitério limpo, equipes distribuídas estrategicamente pelos bairros e uma rotina que precisa ser reorganizada a cada novo dia são resultados de um trabalho que exige planejamento, capacidade de liderança, conhecimento do município e-sobretudo- dedicação ao serviço público.

À frente dessa estrutura está Gilmar Massary, alegretense de 61 anos que, ao longo de mais de quatro décadas de vida profissional, construiu uma trajetória marcada pela disciplina, pela versatilidade e pelo compromisso com as funções que lhe foram confiadas. Depois de atuar na iniciativa privada, servir ao Exército Brasileiro, ocupar cargos estratégicos em governos municipais e estaduais, dirigir a Guarda Municipal em diferentes administrações e desempenhar funções na área da saúde pública, encontrou na direção da limpeza das vias públicas uma atividade que, segundo ele próprio, vai muito além da remoção de lixo e da conservação dos espaços urbanos.

A rotina começa cedo. Enquanto grande parte da população ainda inicia o dia, Gilmar já acompanha a movimentação das equipes espalhadas por diferentes pontos do município. O planejamento elaborado no dia anterior pode sofrer alterações antes mesmo das sete horas da manhã, caso algum fato novo exija intervenção imediata. Um descarte irregular de móveis, uma área tomada por galhos após um temporal, um pedido encaminhado por lideranças comunitárias ou até mesmo uma situação observada por ele durante o trajeto entre casa e o trabalho passam a integrar automaticamente o cronograma. Essa forma de conduzir o serviço reflete uma característica construída ao longo de toda a sua carreira: nunca limitar o trabalho ao básico.

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“Quando saio de casa e vejo algum lugar precisando de limpeza, já anoto para colocar na programação. Procuro estar sempre atento ao que acontece na cidade”, afirma. Essa atenção permanente se tornou uma das marcas de sua atuação.

Sob sua coordenação funciona uma estrutura composta por dezenas de trabalhadores que diariamente percorrem Alegrete. São 15 zeladores responsáveis pela conservação de diversos espaços públicos; seis garis dedicados exclusivamente à limpeza das ruas; quatro garis que atuam na Praça General Osório; uma equipe fixa na Praça Getúlio Vargas formada por quatro homens e duas mulheres; dez trabalhadores vinculados ao Programa de Assistência ao Apenado (PAC) distribuídos em diferentes regiões da cidade; além de outros 16 integrantes do mesmo programa — 14 homens e duas mulheres — que desenvolvem atividades específicas em outros setores da limpeza urbana. Todo esse trabalho é acompanhado diretamente por Gilmar e pelo supervisor Vagner Zacarias Lopes, que diariamente organizam as equipes conforme as necessidades do município.

A responsabilidade também se estende ao Parque de Máquinas, ao Cemitério Municipal, às praças General Osório e Getúlio Vargas, além das ações de limpeza realizadas em todos os bairros de Alegrete. A rotina exige planejamento constante, capacidade para redefinir prioridades e conhecimento detalhado da realidade de cada região da cidade.

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Segundo Gilmar, a liberdade recebida do secretário municipal de Infraestrutura, Antônio Carlos – o Caco, representa um dos fatores que contribuem para a eficiência do serviço. A autonomia para organizar o cronograma permite concluir cada etapa antes de deslocar as equipes para novos locais, evitando retrabalhos e proporcionando maior produtividade.

“O secretário me deu liberdade para montar o cronograma. Isso facilita muito porque conseguimos concluir os serviços antes de seguir para outro ponto. Além disso, qualquer solicitação que chega até nós é atendida. Não importa se vem de um vereador, de um presidente de bairro ou de qualquer morador. Sempre procuramos resolver.”

A programação diária normalmente contempla entre quinze e vinte frentes de trabalho espalhadas pelo município. Entretanto, esse número raramente permanece inalterado até o final do expediente, já que novas demandas surgem continuamente.

A função exige presença constante nas ruas e contato direto com a realidade da cidade. Gilmar conhece de perto cada praça, cada bairro e praticamente todos os pontos que historicamente exigem maior atenção das equipes de limpeza. Esse conhecimento foi sendo construído ao longo de décadas de atuação no serviço público. Sua história profissional começou muito antes dos cargos de direção.

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Ainda jovem, antes mesmo de completar dezoito anos, trabalhou durante dois anos em uma oficina mecânica. O ambiente ensinou disciplina, responsabilidade e respeito pelos horários. Pouco tempo depois ingressou no Exército Brasileiro, instituição onde permaneceu durante oito anos e que considera decisiva para sua formação pessoal e profissional. A disciplina militar, segundo ele, moldou a forma de liderar pessoas, administrar equipes e enfrentar situações de pressão.

A opção pela política determinou uma mudança importante em sua trajetória. Para ingressar na vida pública precisou deixar a carreira militar, iniciando então uma longa caminhada na administração pública.

Durante o governo do então prefeito Nilo Gonçalvez assumiu a direção da Guarda Municipal, cargo que ocupou durante quatro anos. Na sequência passou sete anos trabalhando na Cooperativa Agroindustrial Alegrete Ltda. (CAAL), experiência que ampliou sua vivência na iniciativa privada antes de retornar novamente ao setor público.

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Participou da campanha eleitoral que levou Germano Rigotto ao Governo do Rio Grande do Sul e, após a eleição, foi convidado para integrar a estrutura estadual, passando pela 10ª Coordenadoria Regional de Saúde e pela direção do Prosan, com sede em Santana do Livramento.

A trajetória profissional também registra experiências pouco conhecidas por grande parte da população. Durante aproximadamente seis meses trabalhou como cozinheiro para cerca de sessenta funcionários de uma lavoura localizada entre Manoel Viana e Santiago. A função, completamente diferente das anteriores, representa para ele mais uma demonstração de que nunca escolheu trabalho em função da visibilidade, mas da oportunidade de produzir resultados.

Com o governo José Ivo Sartori retornou novamente à 10ª Coordenadoria Regional de Saúde. Posteriormente voltou à administração municipal durante a gestão de Erasmo Gutierrez, tendo Pretta Mulazzani como vice-prefeita, reassumindo a direção da Guarda Municipal por oito anos. Nos últimos meses daquele governo exerceu a função de chefe de gabinete.

Na administração seguinte, comandada por Márcio Amaral, com Jesse Trindade na vice-prefeitura, passou a atuar na Secretaria de Infraestrutura, assumindo a direção da limpeza urbana, atividade que permaneceu desempenhando também na gestão atual, liderada por Jesse Trindade e Luciano Belmonte.

Entre uma administração e outra, também acumulou passagem pela Câmara de Vereadores de Alegrete. Ao olhar para trás, Gilmar evita destacar cargos ou funções específicas. Prefere ressaltar uma postura que considera responsável por todas as oportunidades recebidas ao longo da carreira. “Nunca fiz apenas o básico.” Essa filosofia acompanha igualmente a forma como administra as equipes sob sua responsabilidade.

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Entre todos os trabalhadores coordenados diariamente, um grupo recebe atenção especial: os participantes do Programa de Assistência ao Apenado (PAC). Para Gilmar, o trabalho oferecido pelo município representa uma oportunidade concreta de reconstrução da vida de pessoas que buscam recomeçar. Ele conta que vários homens e mulheres passaram pelo programa, conquistaram espaço no mercado de trabalho e conseguiram mudar completamente suas histórias.

Em muitos casos, cartas de recomendação assinadas pelo próprio diretor da limpeza abriram portas para novas oportunidades profissionais. O vandalismo continua sendo um dos maiores obstáculos enfrentados diariamente pela Secretaria de Infraestrutura. O banheiro da Praça do Bebedouro simboliza essa realidade. Gilmar relata que o espaço já recebeu diversas pinturas, novos vasos sanitários, pias e outras melhorias executadas pela própria equipe. Pouco tempo depois, o patrimônio voltava a ser destruído. Outro problema recorrente está relacionado ao descarte irregular de lixo, móveis velhos, restos de construção e podas de árvores.

Segundo ele, algumas situações chegam a causar indignação. “Já aconteceu de terminarmos completamente a limpeza de um local e, pouco tempo depois, recebermos uma ligação informando que alguém havia descartado móveis ou entulho ali. Parece que quando o espaço está limpo algumas pessoas entendem que podem jogar lixo.”

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Em determinadas ocasiões a equipe conseguiu identificar os responsáveis, obrigando-os a retirar o material descartado irregularmente. Gilmar também chama atenção para outro aspecto que considera preocupante: muitos moradores deixam de realizar a limpeza da frente de suas próprias residências, transferindo integralmente essa responsabilidade para o poder público.

Mesmo assim, as equipes executam o serviço para preservar a organização da cidade. As críticas fazem parte da rotina, admite. Os elogios também. Nenhum dos dois extremos altera sua forma de trabalhar. O objetivo permanece o mesmo desde o primeiro dia em que assumiu a função: entregar uma cidade melhor para quem vive nela.

Depois de tantos anos dedicados ao serviço público, Gilmar Massary acredita que cuidar da limpeza urbana significa cuidar diretamente da qualidade de vida das pessoas. Uma praça bem conservada convida famílias ao convívio. Uma rua limpa transmite sensação de organização. Um espaço público preservado fortalece o sentimento de pertencimento da comunidade.

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Por trás de cada equipe distribuída pelos bairros, de cada cronograma elaborado antes do amanhecer e de cada decisão tomada ao longo do expediente está um profissional que construiu sua carreira sem escolher atalhos, acumulando experiências nas mais diferentes áreas e compreendendo que servir à população exige muito mais do que cumprir horários ou executar tarefas administrativas.

A história de Gilmar Massary também revela outra dimensão do serviço público: a capacidade de transformar vidas, seja oferecendo uma segunda oportunidade a quem busca recomeçar, seja mantendo diariamente uma cidade preparada para receber seus moradores. Em tempos em que o resultado costuma ser observado sem que se conheça o trabalho realizado nos bastidores, sua trajetória demonstra que a limpeza urbana não depende apenas de máquinas, caminhões ou equipamentos. Depende, sobretudo, de pessoas que acreditam que dedicação, planejamento e compromisso continuam sendo os principais instrumentos para construir uma cidade melhor.

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