A liberdade tem duas rodas, um capacete e milhares de quilômetros pela frente

Alegretense inicia viagem solo de Torres a Brasília para participar do Capital Moto Week, o maior encontro de motociclistas da América Latina, reafirmando uma paixão que há décadas transforma quilômetros em histórias e estradas em memórias.

Existe um momento que todo motociclista conhece bem. Ele acontece segundos antes da partida, quando o capacete é fechado, o motor desperta e o mundo parece diminuir até caber diante de uma única faixa de asfalto. É nesse instante que a rotina fica para trás, as preocupações perdem importância e a estrada assume o papel de protagonista. Não importa se serão cem ou três mil quilômetros. O sentimento é sempre o mesmo: a liberdade finalmente encontrou um caminho.

Na próxima segunda-feira, 27 de julho, data em que o Brasil celebra o Dia do Motociclista, o alegretense João Batista Padula voltará a viver esse instante. O destino será Brasília, onde participará do Capital Moto Week, considerado o maior encontro de motociclistas da América Latina e um dos maiores do mundo, mas quem conhece sua história sabe que, para ele, o destino nunca foi o aspecto mais importante da viagem. O que realmente importa é tudo aquilo que acontece entre a partida e a chegada.

A saída acontecerá em Torres, no litoral norte gaúcho. A partir dali, Padula seguirá sozinho por milhares de quilômetros, atravessando diferentes paisagens brasileiras, enfrentando mudanças de clima, cruzando estados e colecionando experiências que dificilmente poderiam ser vividas por qualquer outro meio de transporte. Será uma viagem solo, mas nunca uma viagem solitária. Quem percorre o Brasil sobre duas rodas sabe que a estrada cria uma irmandade silenciosa entre desconhecidos, unida por um simples aceno, uma parada para abastecer ou uma conversa improvisada em um posto de combustível.

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Para João Batista Padula, viajar de motocicleta nunca significou apenas deslocar-se de um ponto a outro. Ao longo dos anos, ele construiu uma trajetória que fez dele uma referência entre os apaixonados pelo motociclismo em Alegrete. Suas aventuras passaram a ser acompanhadas pelos leitores do Alegrete Tudo justamente porque cada viagem ultrapassa a dimensão do turismo e se transforma em uma experiência humana, marcada pela descoberta de culturas, paisagens e pessoas.

Em 2014, ao lado da esposa Liliane Padula e de amigos, percorreu aproximadamente oito mil quilômetros por cinco países da América do Sul. Argentina, Bolívia, Peru e Chile entraram no roteiro de uma expedição que exigiu planejamento, resistência e espírito aventureiro. Ao retornar, descreveu a experiência de forma simples, mas profundamente reveladora: havia lugares que simplesmente não podiam ser explicados, apenas vividos. A travessia incluiu o Lago Titicaca, o Vale Sagrado dos Incas e alguns dos cenários mais impressionantes do continente, consolidando uma paixão que jamais deixaria de crescer.

Mais de uma década depois, a essência permanece exatamente a mesma.

No ano passado, novamente acompanhado da esposa e de amigos, Padula encarou outra expedição memorável, desta vez rumo ao coração da Amazônia. Foram quase nove mil quilômetros, cruzando o país até Alter do Chão, no Pará, passando inclusive por trechos da lendária Transamazônica. Em um dos momentos mais marcantes da viagem, enfrentou quilômetros de estrada de chão atrás de caminhões, coberto pela poeira vermelha da floresta. Ao retornar, resumiu a experiência em uma frase que traduz perfeitamente o espírito de quem faz da estrada um modo de viver: algumas viagens terminam quando se chega em casa; outras continuam percorrendo a alma por muito tempo.

Agora, a aventura ganha um significado ainda mais especial por coincidir exatamente com o Dia do Motociclista.

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A data homenageia homens e mulheres que encontraram nas duas rodas muito mais do que um veículo. Para milhões de brasileiros, a motocicleta representa trabalho e sustento. Para outros, simboliza lazer, amizade e pertencimento. Para pessoas como João Batista Padula, ela representa a possibilidade de conhecer o mundo sem abrir mão da simplicidade, da contemplação e da liberdade que apenas uma longa viagem é capaz de proporcionar.

O destino desta nova jornada também carrega um simbolismo próprio.

Realizado em Brasília, o Capital Moto Week transformou-se em uma referência mundial do motociclismo. Durante dez dias, o Parque Granja do Torto converte-se em uma verdadeira cidade dedicada às duas rodas, reunindo centenas de milhares de visitantes, milhares de motociclistas e motoclubes de praticamente todos os estados brasileiros, além de participantes vindos de diversos países. A programação combina grandes shows de rock, exposições, lançamentos de motocicletas, experiências gastronômicas e atrações culturais, consolidando um ambiente onde o motociclismo deixa de ser apenas um hobby para tornar-se expressão cultural e estilo de vida. Na edição anterior, o festival registrou números históricos, com 856 mil visitantes, 370 mil motocicletas e cerca de 1,8 mil motoclubes, confirmando sua posição entre os maiores eventos do gênero no planeta.

Entretanto, quem viaja pilotando sabe que o maior espetáculo acontece antes mesmo da chegada aos portões do evento.

Ele está no nascer do sol observado do acostamento. No café compartilhado com desconhecidos que rapidamente se tornam companheiros de conversa. Está na chuva inesperada que obriga uma parada improvisada e no silêncio de uma rodovia quase vazia, onde o ronco do motor parece ser o único som capaz de romper a imensidão da paisagem.

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É justamente essa capacidade de transformar o ordinário em extraordinário que diferencia pessoas como João Batista Padula. Enquanto muitos acumulam destinos em fotografias, ele acumula histórias. Enquanto alguns registram quilometragem, ele registra encontros, culturas, amizades e experiências que dificilmente caberiam em qualquer roteiro turístico.

Há muito tempo suas viagens deixaram de pertencer apenas a ele. Elas passaram a representar também um pouco de Alegrete. Em cada cidade visitada, em cada fotografia compartilhada e em cada relato publicado, segue junto o nome de uma terra acostumada aos horizontes amplos e à cultura da liberdade. É como se a motocicleta carregasse não apenas um piloto, mas também a identidade de um município que sempre encontrou nas grandes distâncias uma parte importante de sua própria história.

Na segunda-feira, quando o motor for ligado em Torres e a roda dianteira apontar para Brasília, começará muito mais do que uma viagem até o Capital Moto Week.

Começará, mais uma vez, uma travessia construída sobre aquilo que nunca aparece no velocímetro: a coragem de partir, a disposição para descobrir o desconhecido e a certeza de que algumas das melhores histórias da vida jamais acontecem quando estamos parados.

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Porque, para quem escolheu viver sobre duas rodas, o destino é apenas uma referência no mapa. A verdadeira viagem sempre acontece no caminho.

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