Por trás do sorriso acolhedor, da voz que há décadas embala celebrações religiosas e do olhar sereno de quem aprendeu a transformar a dor em esperança, está a história de Carmen Beatriz Thomas da Silveira, ou simplesmente “Carminha”, como é conhecida por familiares, amigos e pela comunidade alegretense.

Nascida em 27 de novembro de 1965, na então Vila de Piratini, interior de São Luiz Gonzaga, Carmen é a caçula dos quatro filhos de Lauro e Leda Thomas. A infância foi marcada por uma forte vivência familiar e religiosa, valores que moldariam toda a sua trajetória.rior exigida para a profissão. O que parecia apenas uma mudança necessária transformou-se em uma história de amor com a cidade que viria a acolher Carmen por toda a vida.
“Aprendi a amar Alegrete. Sou uma filha de coração desta terra”, costuma dizer.
Em Alegrete, concluiu o Ensino Fundamental na Escola Estadual Farroupilha, formou-se no Curso Normal pelo Instituto de Educação Oswaldo Aranha (IIEOA) e graduou-se em Pedagogia, com especialização em Orientação Educacional.
Mas a ligação com a fé começou muito antes.
O pai, que estudou em seminário na juventude, mantinha uma relação próxima com a Igreja Católica. Em São Pedro do Butiá, era responsável por abrir e fechar a igreja, tocar os sinos e auxiliar nas atividades religiosas da comunidade. Os padres frequentemente hospedavam-se na residência da família.
Foi também com ele que nasceu outra paixão que acompanharia Carmen por toda a vida: a música.
“Meu pai sempre tocou violão. Cresci ouvindo música e foi ele quem me ensinou os primeiros acordes. Depois fui aprendendo com a vida”, relembra.
A música e a fé caminham juntas
Aos 14 anos, Carmen participou do EJC – Encontro de Jovens com Cristo. A experiência marcou profundamente sua vida e fortaleceu sua participação na Igreja.
Desde então, nunca mais se afastou da música religiosa. Há mais de quatro décadas toca e canta nas missas da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, tornando-se uma presença conhecida e querida pela comunidade católica local.
Foi justamente nos movimentos de juventude da Igreja que conheceu aquele que se tornaria seu companheiro de vida: Claudio Renato Walter da Silveira, instrutor autônomo de trânsito, músico e apaixonado por violão e gaita.

O casamento aconteceu em 1988. Uma união construída de amor, amizade, fé e companheirismo, que já soma quase quatro décadas. Dessa história nasceram três filhos: Cássio, Caian e Laura. “São nossos maiores presentes”, resume.
A maior prova de fé
Ao longo da vida, Carmen sempre encontrou na espiritualidade sua principal fonte de força. Mas foi em 2009 que enfrentou o maior desafio de sua caminhada. O filho Caian foi diagnosticado com leucemia.
Começava então uma batalha que mobilizou familiares, amigos, comunidades religiosas e toda a população de Alegrete.
Durante três anos e oito meses, a família enfrentou consultas, tratamentos, viagens e momentos de profunda incerteza. Mas também experimentou algo que jamais esquecerá: a solidariedade.
“Alegrete me mostrou o tamanho do seu coração. Recebemos muito amor, carinho, ajuda e apoio.”
As campanhas em prol do tratamento do jovem mobilizaram não apenas Alegrete, mas também cidades vizinhas, especialmente Santa Maria.
Entre as ações realizadas, uma das mais marcantes foi a mobilização para o cadastro de doadores de medula óssea. As filas formadas para o cadastramento impressionaram quem acompanhou a iniciativa.
“Só quem viu aquelas filas consegue entender o quanto esta cidade é solidária.”
Apesar de toda a luta, Caian faleceu em 2013. Uma dor que permanece.
“A perda de um filho é uma dor que não tem nome. Não se explica. Apenas se sente.”
Mesmo diante do sofrimento, Carmen encontrou forças para seguir. A fé, mais uma vez, se transformou em abrigo.
Educação: uma missão de vida
Paralelamente à vida familiar e religiosa, Carmen construiu uma sólida trajetória na educação. Foram 29 anos dedicados ao Colégio Divino Coração, atuando em diversas áreas, entre elas música, Ensino Religioso e Orientação Educacional. Também ingressou na rede estadual por concurso público.
Passou pela Escola Gaspar Martins, pelo Instituto de Educação Oswaldo Aranha e encerrou sua carreira na Escola Estadual Demétrio Ribeiro, onde se aposentou. Ao olhar para trás, não fala apenas de trabalho. Fala de encontros.
“Poder conviver com tantas pessoas foi a maior riqueza da minha vida profissional.”

A catequista que continua servindo
Aposentada da sala de aula, Carmen segue ativa na comunidade. Há vários anos atua na catequese da Igreja Católica. Mas faz questão de destacar:
“Não somos catequistas. Estamos catequistas. Passamos por algumas missões na vida.”
Além da atuação religiosa, um lazer é o crochê, ministra aulas de violão e auxilia uma amiga em uma loja de joias durante as tardes. Enquanto isso, acompanha com orgulho a trajetória dos filhos.
Cássio, formado em Engenharia Florestal pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa), trabalha atualmente em Bauru, São Paulo, na área florestal. Laura está concluindo a graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Uma mensagem de esperança
Depois de tantas experiências, alegrias e perdas, Carmen mantém uma certeza. A fé não elimina os problemas da vida. Mas ajuda a enfrentá-los.
“Sempre digo que não é porque participamos da Igreja que as coisas difíceis deixam de acontecer. Elas acontecem. A diferença é que, com Jesus, fica mais fácil enfrentar e, quando possível, superar.”
Hoje, aos 60 anos, ela continua sendo a mesma menina que aprendeu a tocar violão com o pai, a jovem que encontrou na Igreja seu caminho e a mãe que transformou a dor em testemunho de amor. Mas, sua história também carrega um apelo. A importância da doação de medula óssea.
“Muitas pessoas continuam esperando por um doador compatível. Nós não encontramos. Por isso é tão importante que mais pessoas façam seu cadastro.”
Uma mensagem que nasce da experiência, da fé e do amor de uma mulher que encontrou em Alegrete não apenas uma cidade para viver, mas uma família para compartilhar a vida. E que segue, dia após dia, cantando, ensinando e acreditando que a esperança sempre encontra um caminho.


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