Saudade do Alegrete presta homenagem ao Camponês do IRMA; o relato da esposa é comovente
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Nesta edição do Saudade do Alegrete, a história é de um grande herói, descreve Clarice Fernandes Ribeiro.

Ela começa a narrativa dizendo que, em 1993 uma pessoa simples e humilde, mas com muita esperança onde viveu até seus 26 anos com muita dificuldade, saiu do Alegrete e foi conquistar o mercado de trabalho em Ijuí.

Até então, ele residia no Caverá, Lageado Grande, estudou no IRMA e trabalhou em uma fazenda. O alegretense era conhecido como Camponês, Cláudio Romário Fragoso Dias.

O alegretense foi para Ijuí com a ajuda do Major Leandro que também foi transferido de Alegrete em 1993. Cláudio fez o curso da Brigada Militar, passou com boas notas e era ótimo aluno – diz.

Naquele mesmo ano, por acaso, Clarice o encontrou ao perguntar o nome de uma rua. Era o destino unindo o casal, pois ela encontrou com Cláudio várias vezes na região central. “Até que, quando estava embarcando no ônibus para minha cidade ele também estava saindo do serviço e a abordou. Naquele momento, o alegretense questionou se ela o estava seguindo. Muito sem jeito, Clarice disse que não e recebeu o convite para almoçar.

O convite foi aceito. O almoço do casal foi um pastel na lancheira da Rodoviária e os ônibus foram esquecidos. Eles ficaram por horas conversando. Ambos saíram do local conhecendo um pouco da vida do outro. E, em poucos meses, eles estavam residindo embaixo do  mesmo teto.

Clarice recorda que o alegretense Cláudio era uma pessoa comprometida com a sua profissão, policial militar, além de ser esportista, corria muito.

Cláudio  tinha como prioridade a profissão, mas durante as férias de 1994, ele convidou Clarice a conhecer o baita Chão.

 

“Ele sempre falava da cidade com muito orgulho e carinho e, desta forma, chegamos a Alegrete para eu conhecer a família dele. Gente que cidade congelante no inverno, quanto frio passei….sorri ao recordar”

Eles visitaram todos os tios, primos amigos e por onde passava era sempre bem recebido por todos, pois aquele rapaz humilde, sem condições, tinha conseguido chegar onde era o sonho dele, ser policial militar.  Ele fez Clarice conhecer os morros em Alegrete, os campos e tudo mais. “Tudo era muito longe, caminhamos, umas 3h para chegar na casa do pai dele, da parada do ônibus à casa, no mínimo isso, de tão longe. Nunca tinha visto tantos animais: tatu, capivara, pomba, pereá, entre outros.

Ele adorava caçar, e os 30 dias de férias, eram em Alegrete. Ficávamos o ano todo esperando chegar o período para visitar a terra natal. Lembro do Parque dos Patinhos, o desfile de 20 de Setembro que não terminava nunca de tantos cavalarianos e nunca vou esquecer das nossas caminhadas no meio do mato. Tudo era novidade e amei Alegrete. Em 94, 95 e 96,meu esposo Romário só crescia na sua profissão, fez curso para salva-vidas e realizou muitos salvamentos em Capão da Canoa, recebendo até homenagens. Em 1996 tivemos nossa primeira filha. Ela tinha sérios problemas de saúde, lutamos por 6 longos meses, dia após dia até que ela não resistiu e faleceu em Porto Alegre. Nessa época que ela estava internada, ele teve  férias e foi sozinho para Alegrete, dizia: vou me despedir do meu rincão e foram as últimas férias dele em Alegrete. Tinha que ir ver o pai e os familiares por poucos dias. Nesse período nossa filha Aline faleceu. Ele tinha feito uma transferência de trabalho de Ijui para o Presídio Central em Porto Alegre para ficar perto de nós, eram poucos meses e íamos voltar a Ijuí” – descreveu Clarice.

Porém, o destino apresentou mais uma passagem que ela jamais iria imaginar que pudesse passar naquele momento. Três meses após a morte da filha, em 27 de fevereiro, o alegretense tirou dois dias de férias, eles viajaram e o domingo foi de muito passeio. No retorno, 1° de março 1998, Romário foi para o trabalho no Presídio Central, chegou por volta das 7h e não tinha conhecimento, até então, que havia uma rebelião no Presídio. Cerca de uma hora depois o alegretense levou um tiro na nuca, mas Clarice só soube às 13h pela televisão. “Meu Deus, meu mundo acabou, há meses tinha perdido nossa filha é agora ele. Foi e é uma grande dor, fiz a doação de alguns órgãos, no total, cinco pessoas puderam viver. Ele vive em cada uma delas”- citou.

Porém, em meio a tudo, Clarice descobriu que estava grávida. “Poucos dias antes, ele tinha deixado um pedacinho dele. Nossa filha com orgulho leva o nome do pai, Claudia Romaria Ribeiro Dias que atualmente está com 21 anos. Esse é nosso herói. Aquele homem franzino e humilde,  que veio lá dos campo de Alegrete, foi um gigante por tudo o que conseguiu e foi homenageado com seu nome em uma rua na cidade de Ijuí. Assim como, em várias turmas de soldados e sargentos recebeu homenagens, assim como da Câmara de Vereadores  de São Borja, São Luís e Santa Maria. Quase 22 anos se passaram, mas a dor é eterna, todos os dias fecho os olhos e lembro daquele frio no campo que nós ficávamos horas olhando. Hoje, vejo as fotos e vem todas as lembranças, os biscoitos, a carne de capincho na banha, o bolicho do tio Amintas, os ônibus para ir até o Cavera, levavam de tudo, até mesmo galinha e porco. Nunca esquecerei de Alegrete, lugar que ele me fez conhecer as coisas boas, como os bailes do Juventude.

Saudades do Alegrete, do truco que ele jogava, das comidas simples, dos familiares que nunca mais os vi: Zaloar, Ricardo e tia Carmem. Mas pretendo ir novamente a Alegrete com nossa filha, pra matar a saudade. Agradeço a essa cidade por ter me dado a oportunidade de conhecer uma pessoa maravilhosa, nosso orgulho, Cláudio Romário Fragoso Dias, o Camponês do IRMA. Nossa filha não conheceu o pai, mas sabe do orgulho que todos têm e também tem muito orgulho de tudo que sabe dele.”- concluiu.

Claudia Romaria Ribeiro Dias

 

Participe da sessão Saudade do Alegrete, mande sua história para: e-mail- [email protected]

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