Anderson Pereira Côrrea: o professor que dedica-se a historiografia de Alegrete

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O alegretense Anderson Romário Pereira Corrêa é professor Assistente da Universidade Federal do Pampa – Unipampa- São Borja.

Graduado em História (Licenciatura Plena) pela Universidade Regional da Campanha (Urcamp/Alegrete -1999), é especialista em Gestão Educacional pela Universidade da Região da Campanha (Urcamp/ Alegrete – 2002),  Mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS/ Porto Alegre -2010).

Aos 45 anos, o professor da Unipampa, foi aluno da Educação Básica na Escola Pública (Lions , Polivalente, Marques e IEEOA). Anderson possui 20 anos de experiência em Educação, na Gestão e no Ensino, da Educação Básica à Pós, além de experiência em gestão em Equipamento Cultural.

Seus trabalhos de pesquisa e publicações sobre historiografia, “Mundos do Trabalho”, sobre o município de Alegrete chamam atenção. É um estudo aprofundado da história da cidade. Foi exatamente isso que a reportagem foi atrás. Confira os principais trechos da entrevista com o professor de História e colorado de coração.

Portal: Como estão os estudos em plena pandemia pelo novo coronavírus ?

Pessoalmente estou trabalhando em home office. Desenvolvendo pesquisas, palestras e atividades de gestão. Está bom para colocar as leituras e escritas em dia. Tenho aproveitado pra fazer cursos e atualizações em métodos e técnicas em pesquisa, em gestão de acervos e fontes de pesquisa.

Portal: Desde quando surgiu o interesse em revelar a historiografia de Alegrete ?

Meu interesse pela História de Alegrete começou com as conversas com meu avô materno, Hortêncio Pereira, que era um “memorialista” sobre às origens da família. Meu pai, Manoel Corrêa, também contava que meu avô Fulgêncio Corrêa havia participado de vários combates em “Revoluções” (Como no combate de ponte Borges de Medeiros em 1923) Depois, com os questionamentos e curiosidades típicos da juventude, por volta dos 17 anos, queria saber a origem e causas das injustiças sociais.

Encontrei no estudo da História uma forma de entender a sociedade pra poder transforma-la. Tem uma frase do historiador Jaques Le Goff que diz  mais ou menos assim: “A história e a memória devem servir pra libertar e não para oprimir os homens.” Passei então a pesquisar o passado local pra entender a origem das desigualdades e injustiças no Alegrete e no Mundo. Além de estudar a historiografia local me dedico a pesquisar a história dos trabalhadores e trabalhadoras, a formação da classe operária e das lutas dos trabalhadores em Alegrete.

 

Portal: No município temos muitos prédios e até casas antigas. Alguns não foram preservados. Como tu analisas essa questão ?

Penso que carecemos de políticas públicas para o Setor. Nem tudo o que é “antigo” deve ser preservado, deve haver critérios. Também não temos uma sociedade civil qualificada pra entender e encaminhar essas demandas. Numa cidade que falta o básico, emprego/renda, saneamento, fica difícil encontrar recursos pra investir em cultura. Esse não é um problema só do município. Existem poucas pessoas dedicadas a esse tema “Patrimônio” na cidade. A maioria da população desconhece o assunto, muitos falam, criticam e poucos, muito poucos ajudam. Certa vez fui num encontro nacional sobre financiamento de museus. No final os especialista disseram o obvio.

Que o maior capital de um museu é seu público. Tem que investir no público e na sua qualificação. Talvez isso sirva pra discutir o patrimônio material e imaterial em Alegrete, investir na formação, na “educação patrimonial” da população.

Não temos pessoal técnico com qualificação na captação de recursos (projetos), não temos Museólogos e outros profissionais que queiram dedicar-se a isso (arquitetos, engenheiros, arqueólogos, historiadores). Existem pessoas que se dedicam e que fazem o possível. São poucos, sem apoio e sem recursos.

Existe diferença entre História (historiografia), memória social, tradição e tradicionalismo, patrimônio, museus, arquivos. São campos, saberes que dialogam e que possuem e exigem profissionais com formação especifica. É importante destacar que por trás de cada imóvel, prédio, cultura material existe o trabalho de seres humanos. Devemos olhar pra esses “monumentos” como testemunhos de uma época e o registro do trabalho de pedreiros, ladrilheiros, marceneiros, ferreiros. Lembremos da passagem de Bertold Brecht e as “Perguntas de um Operário que Lê”: “Quem construiu Tebas, a das sete portas? Nos livros vêm os nomes dos reis. Mas foram os reis que transportaram as pedras? Babilônia, tantas vezes destruída, quem outras tantas a reconstruiu? (…) No dia em que ficou pronta a Muralha da China, para onde foram os seus pedreiros? (…)”

 

Portal: Existe um estudo nesse sentido. Quantos prédios antigos temos em Alegrete ?

Olha, a ideia de antigo é muito genérica. Temos imóveis e evidencias materiais de vários períodos (conjunturas) da história. Temos evidencias arqueológicas dos ameríndios, do período missioneiro, do período que vem após a conquista luso-brasileira (Imperial, Republicano). Temos os mais diversos tipos e estilos arquitetônico. Locais e prédios que guardam singularidades históricas. O melhor estudo nesse sentido é do Conselho Municipal de Patrimônio Histórico e Cultural deAlegrete – COMPAHCA, que possui uma lista de bens arrolados para tombamento e os bens tombados. É impossível falar em Patrimônio de Alegrete sem falar em Homero Dornelles e os conselheiros que atuam nesses últimos anos.

Portal: Quais os prédios tombados pelo Patrimônio Histórico Cultural em Alegrete e que permanecem preservados ?

Existem legislações de tombamento nos três níveis e esferas administrativas. Tombamento Federal (IPHAN), Estadual (IPHAE) e Municipal (COMPAHCA). A Lei municipal não tomba prédio, ela tomba a fachada. O tombamento serve pra preservar o patrimônio. Mas só tombar não garante a preservação e nem a conservação, restauração. Nesse sentido, temos 19 imóveis preservados.

Destes, mais de 15, ou seja, a maioria está bem conservada. Arrisco em dizer que a última década foi a que mais preservou o patrimônio da cidade. Mais de 90% do nosso patrimônio preservado é dos últimos 13 anos. Tenho uma visão formal (pode ser limitada) de Patrimônio. Considero patrimônio o que é tombado e ou aqueles bens que estão arrolados. Podem existir bens reconhecidos popularmente como patrimônio e esses devem ser formalizados e regulamentados.

Portal: Como professor de história, qual a avaliação que tu fazes da atualidade e dessa pandemia?

Penso que essa pandemia vai ser um marco na medida em que vai oferecer subsídios pra avaliar o grau de evolução das sociedades humanas. A humanidade evolui em aspectos solidários e de ajuda mútua.

O desenvolvimento humano, sua qualidade de vida, é medido pela capacidade de socialização dos insumos mínimos pra subsistência e dignidade da vida. Os países mais desenvolvidos (IDH) são os mais solidários.

A evolução humana não ocorre na disputa e na vitória dos mais aptos. Isso é no estado de natureza, pode servir pra algumas espécies animais. A evolução humana ocorre na capacidade de crescer com o outro, na solidariedade. Em momentos de crise, guerras, catástrofes naturais, pandemias podemos analisar o grau de empatia e socorro mútuos das sociedades. Mais evoluídos nesse sentido serão aqueles que preservarem mais vidas!

 

Portal: O que mais te encanta na história em geral ?

A capacidade que as sociedade e grupos sociais têm de encontrar soluções coletivas para problemas coletivos. Gosto também dos exemplos de ações individuais inusitadas, de pessoas que saem da média e fazem atos de grande desprendimento. Principalmente quando esses atos são em benefício dos coletivos e não em proveito pessoal.

Portal: Quais os teus trabalhos até aqui sobre a cidade de Alegrete ?

Como historiador e professor de História venho dando minha contribuição, junto a outros colegas, na defesa da produção e divulgação da historiografia local. Vou começar falando de ações coletivas. Posso citar algumas ações e publicações como exemplos. Em 2010 criamos o Instituto Histórico e Geográfico de Alegrete (IHGA), em 2013, após uma reivindicação do IHGA para o secretário de Educação, ele encaminhou para o prefeito e o prefeito fez o decreto nº 539/13. Esse decreto “Institui a Semana Municipal do Alegrete e inclui os conhecimentos sobre o município no currículo da Rede Pública Municipal de Ensino.” Destaco minha participação na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Alegrete, o artigo “Uma revolução historiográfica: a Nova História de Alegrete” (2013); o livro “Escrita da História: O município de Alegrete (1908-2008)” publicado em 2010; minha dissertação de mestrado “Movimento Operário em Alegrete: a presença de imigrantes e estrangeiros (1897-1929)” publicada em 2011; o livro “Uma História Operário-Sindical de Alegrete” publicado em 2017. Esses são os principais, na minha opinião.

Portal: Não poderia deixar de te pedir. Conta uma história de Alegrete ?

Difícil tarefa de encontrar uma história em meio à tantas histórias. Vou escrever sobre fatos relacionados à trajetória de Eduardo Nicolau Rodrigues Mallman, porque de certa forma resumem um pouco das minhas pesquisas e que possuem um significado que pode explicar a existência de um fenômeno social na região da campanha rio-grandense no período da transição do Império para República.

Eduardo Nicolau Mallman nasceu por volta de 1857 em Alegrete. Faleceu em 1902 em Alegrete. Era filho de uma alegretense, Florinda Candida Rodrigues de Almeida, do (Pai Passo) e de um prussiano chamado João Mallman que possuía uma ferraria na localidade Sobrado (Pai Passo). Eduardo morava e possuía uma marcenaria na rua Tamandaré, em frente onde hoje localiza-se a Delegacia de Polícia. Entre as suas atividades políticas destacam-se: Conselheiro (vereador) em Alegrete no final do Império; um dos fundadores do Clube Republicano junto com Demétrio Ribeiro em Alegrete, em 1882; participou da Guerra Civil conhecida como Revolução Federalista de 1893, atuando no racha do PRR chamado PRF, junto a Demétrio Ribeiro e Barros Cassal; participou ativamente da fundação de um partido socialista em Alegrete, por volta de 1897; presidiu o Primeiro Congresso Operário no Rio Grande do Sul, em 1898, em Porto Alegre; organizou e dirigiu o jornal socialista e operário chamado Social; fundador e membro da diretoria da Associação Operária Mútua Proteção (Alegrete/1897).

Mallman foi processado, detido e, mais tarde, considerado inocente, por crime de imprensa. Foi acusado pelo promotor público por calunia. Eduardo Mallman, entre outras coisas, escreveu no jornal Social que o poder público local (justiça e polícia) prendiam e matavam os pobres. Escreveu que os crimes dos ricos e dos filhos dos ricos eram impunes. Por isso o Promotor Nogueira, o Intendente do PRR João Benicio (Castilhista ferrenho), e o jornal Gazeta de Alegrete criaram uma guerra contra Mallman para atingir o jornal Social, a Mutua Proteção Operária e o incipiente Partido Socialista.

A Mutua Proteção Operária era uma associação (sindical) que, junto ao jornal Social, defendia os interesses dos trabalhadores.Eles lutavam por melhores condições de trabalho, salários. Por saúde, educação para os trabalhadores.

No dia do julgamento de Eduardo Mallman (final de 1899), seu advogado (ex- governador do Estado e alegretense do Itapororó) João de Barros Cassal puxou uma pistola e começou um tiroteio no júri. Morreram três operários e alguns guardas da Brigada Militar. Entre eles o chefe da guarda em Alegrete chamado Conceição Coronel. Esse fato repercutiu na política regional e nacional.

Estavam presentes na ocasião, além dos companheiros socialistas e operários de Eduardo Mallman, seus apoiadores políticos (militares) como os seguidores de Barros Cassal e Demétrio Ribeiro. Os apoiadores de Eduardo Mallman foram armados pro júri. Entre seus apoiadores, armados, estavam o Capitão Thimótio Alves Paim (Paim era um dos líderes da “Revolução de 1893”,era casado com uma irmã da mãe de Eduardo, portanto, seu tio). Também estavam do lado de Mallman o Capitão Jonatas Rodrigues de Almeida (também da Revolução de 1893 e irmão da mãe de Mallman).

Esse fato traz algumas reflexões pra pensar o local e o “global”. Como explicar a formação da classe operaria e a existência de partidos socialistas na campanha rio-grandense no início da república oligárquica? A relação de parentesco entre os militantes e os “coronéis”. A relação do movimento operário e seus partidos com a oposição ao PRR (castilhistas e borgistas). Da pra pensar sobre a influência dos maragatos (federalistas) na formação das lutas operárias e socialistas na campanha do Rio Grande do Sul.

 

Portal: Como professor e alegretense qual seria tua mensagem para os estudantes que aqui residem ?

Alegrete e os alegretenses têm muito a ensinar e aprender com aqueles que possuem curiosidade. É importante ver o bairrismo/ufanismo local como um fator constitutivo da nossa construção indenitária de povo, classe e gênero. A ciência diz que o ufanismo é um fenômeno psíquico social daqueles povos que possuem uma vida medíocre e que buscam formas de dar sentido a essa existência miserável.

É quase um pensamento mágico/místico que, por exemplo, procura glórias num passado que nunca existiu pra compensar as agruras do presente. A memória social cria representação idealizadas de um passado que não corresponde com a historiografia. A defesa da liberdade, da democracia, passa pelo respeito às autonomias e esses aspectos culturais de um povo. A consciência de classe, povo e gênero passa pela construção indenitária. A liberdade só é possível em condições de igualdade sócio econômica, ou seja, a democracia política só é possível com democracia econômica, cultural, cientifica, tecnológica. Estudem o Alegrete, os alegretenses, e deixem alguma contribuição, nesse sentido, para a cidade e seus moradores. Acredito que o estudo e o conhecimento são fatores de libertação individual e coletiva.

 

Júlio Cesar Santos                                                            Fotos: acervo pessoal


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