A fisioterapeuta que faz do voluntariado uma permanente luta por uma cidade acessível e inclusiva
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Raquel Moraes da Silva Coelho, é alegretense, atua como fisioterapeuta especialista em psicomotricidade. Concluiu seus estudos em Uruguaiana como Bacharel em Fisioterapia pela Universidade Federal do Pampa.

Ela atendeu o convite do Portal Alegrete Tudo para umas entrevista sobre sua trajetória e falando um pouco do seu trabalho e experiência na área.

Especialista em Psicomotricidade pela Universidade da Região da Campanha -URCAMP, desde 2013. De lá pra cá, participou de diversos cursos, fóruns, simpósios, em áreas diversas, mas sempre visando a atuação com pessoas com deficiência múltiplas.

Atualmente é pós graduanda em Transtorno do Espectro Autista, pela Rhema Educação e está realizando o curso Paradesporto Escolar e Seu Poder Transformador pela FADERGS.

Raquel presta serviço na APAE, onde iniciou de maneira voluntária, e após um período recebeu o convite para fazer parte do grupo de colaboradores. Dentro da APAE venho crescendo como profissional a cada dia, da fisioterapia tradicional aos grupos de psicomotricidade, chegando atualmente a referência da Estimulação Precoce, onde atende crianças de 0 a 3 anos de risco e/ou com atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor, que tenham ou não deficiências, como: paralisia cerebral, síndrome de down, autismo, malformação congênita, síndromes genéticas, microcefalia, entre outras.

Ela tem à disposição uma sala montada para esses públicos na APAE, a Sala de MovimentAção, onde oferta uma grande gama de estímulos aos seus usuários. A mesma também é utilizada para os grupos de psicomotricidade e de Bocha Paralímpica, por hora suspensas pela pandemia, mas com planos de retomá-las remotamente. Fisioterapeuta Voluntária da equipe de Basquete em Cadeira de Rodas e de Bocha Paralímpica da Associação Esporte para Todos, desde sua participação nas Paralimpíadas Rio 2016.

 

Confira os principais trechos da entrevista:

Portal: Com todo este conturbado momento que vivemos em meio à pandemia não ficou mais difícil desenvolver teu trabalho. Como está atuando ?

Com certeza, está sendo mais difícil os atendimentos, principalmente devido às comorbidades dos pacientes, por exemplo: as crianças que atendo além de terem alterações neuropsicomotoras, apresentam comprometimento respiratório ou imunidade baixa, o que as torna pessoas de alto risco de contaminação pela Covid-19. Com isso, os pacientes que atendo via APAE, mantenho contato remoto, quase que diariamente, enviando e passando atividades e orientações às mães para que realizem com seus filhos. E assim que retornarem as atividades da instituição, o que deve ser logo, retornaremos às atividades presenciais. Já para pacientes externos que atendo, utilizo todos os cuidados de segurança para que ninguém acabe se contaminando.

Portal: Sabemos que a fisioterapia é super importante no tratamento pós covid. De que forma é este tratamento ?

Sim, a fisioterapia está sendo de suma importância no durante e no pós covid-19. No ambiente hospitalar, a fisioterapia atua principalmente na manutenção e recuperação do quadro respiratório dos pacientes como também na manutenção do quadro físico. No pós Covid-19, atua firmemente na reabilitação pulmonar, o que não só engloba a parte respiratória mas todo o corpo, já que os comprometimentos afetam o paciente como um todo. Inclusive, parabenizo e agradeço a todos os meus colegas de profissão que estão trabalhando na linha de frente e na reabilitação da Covid-19.

 

 

Portal: Tu adquiriste uma vasta experiência nas Paralímpiadas do Rio. De lá para cá o que tu achas que conseguiu desenvolver aqui em Alegrete no aprendizado da competição ?

Lá no Rio concretizei a certeza que já tinha de que o esporte paralímpico muda vidas. O esporte além de saúde, traz dignidade, traz felicidade, proporciona inclusão. No meu retorno, foquei ainda mais nisso, comecei a participar na Associação Esporte Para Todos, após um feliz convite da minha amiga Cláudia Quicozes e juntamente com o Diego Ramos, atuando com os atletas do basquete em cadeira de rodas e da bocha, tanto na parte de recuperação, preparação e nas demandas extra esporte, onde fomos a competições como o Parajirgs, campeonatos em cidades vizinhas e realizamos a I Copa de Basquete em Cadeira de Rodas no nosso município. Também trabalhei juntamente com o atleta Eliandro Vizzotto, do basquete em cadeira de rodas por um pouco mais de 1 ano, visando na recuperação e preparação do mesmo para o início da sua jornada nas competições estaduais com a equipe da ASPEDE de Santa Cruz do Sul. Já na APAE, fomentada pela direção e presidência, mantemos a bocha com os alunos que são de competição e com alunos de iniciação no esporte, com o apoio do voluntário Elizando Rodrigues, e nos grupo de psicomotricidades sempre utilizamos de de circuitos com diversas atividades físicas para estimularmos os alunos, sempre adaptando para que todos consigam realizar.

 

Portal: Como está o teu trabalho com crianças na APAE. As atividades seguem normais. Como está desenvolvendo tuas técnicas com os usuários em Alegrete ?

As atividades estão acontecendo de maneira remota, via vídeos, áudios, Whats e vídeo chamadas, repasso para as mães as atividades e solicito que realizem com as crianças baseadas nas minhas orientações, e que me deem retorno das atividades realizadas via vídeos ou fotos, sempre esclarecendo e sanando as dúvidas que elas me expõem. Espero que logo, possamos retomar o trabalho presencial, claro que de maneira segura e dentro das orientações de órgãos reguladores da saúde, visando sempre a saúde e o bem-estar dos alunos e funcionários.

Portal: Alegrete carece de maior acessibilidade. Quais as dificuldades encontradas pelas pessoas com deficiência aqui que podem ter melhoras ?

Com certeza, não apenas Alegrete, mas inúmeras cidades. As pessoas e os governantes deveriam parar de ver as pessoas com deficiência como um público à parte ou minoritário, que é pouco colaborativo com a sociedade. Muito pelo contrário, as pessoas com deficiências estão em todas as esferas da sociedade, são produtivas, são relevantes e trazem muitos aprendizados da sua história, e devem ter os mesmo direitos que o restante da população, principalmente o de ir e vir, pois em uma cidade que pensa e é acessível a todos, proporciona liberdade para que toda a comunidade esteja em igual condição no mercado de trabalho, na educação, na saúde, na cultura e no lazer. Quando falo acessível, falo a todos, para as pessoas com deficiência física, visual, auditiva, intelectual, múltiplas ou transtornos. Uma cidade acessível e inclusiva acaba sendo uma cidade mais produtiva, mais educada e um local onde as pessoas desejam e são felizes em residir.

 

 

Portal: Qual a importância do esporte na vida das pessoas com deficiência (PCD)?

O esporte tem comprovada importância na qualidade de vida de qualquer pessoa. Pois a atividade esportiva contribui não só para o desenvolvimento físico, como também acaba sendo uma poderosa ferramenta de ajuda na reabilitação e inclusão social de pessoas com deficiência. Como já havia dito antes, proporciona liberdade, prazer, alegria, e mais uma infinidade de benefícios. O esporte seja recreativo ou de competição abre portas para a inclusão, para o profissionalismo, para a educação, para o viver em comunidade, para uma melhor qualidade de vida. O esporte é vida, é o meio e o caminho para um viver melhor.

 

Portal: Em Alegrete, além do excelente trabalho da Apae, temos o CEAL que trabalham com crianças. Como profissional da área de fisioterapia como tu avalias esse trabalho realizado com a comunidade alegretense?

A equoterapia é um tratamento de reabilitação para pessoas com limitações físicas ou intelectuais. O passo do cavalo estimula o deslocamento do corpo no espaço e, com isso, exercita o equilíbrio, a coordenação, o tônus muscular e a postura. Além disso, possibilita ganhos psicológicos, aumentando a autoestima e a autoconfiança, assim como no desenvolvimento da fala, socialização e até mesmo da aprendizagem, visto que pode ser feita a associação de terapias. Os serviços da APAE do CEAL acabam sendo complementares, o que é maravilhoso para as pessoas beneficiadas. Acredito que quanto maior a quantidade e qualidade dos serviços em prol da pessoa com deficiência, mais autonomia e desenvolvimento físico e social, é disponibilizada a nossa população, tornando Alegrete uma cidade melhor.

Portal: Todos torcemos que a rotina volte ao normal o quanto antes. Qual a mensagem que tu deixarias para todos aqueles que dependem de fisioterapia para viver melhor ?

Para que possamos retornar o mais rápido possível às rotinas da vida, se torna necessário que todos nós coloquemos a mão na consciência e sejamos mais cuidadosos, mais criteriosos e mais empáticos, para que todas as pessoas mantenham sua saúde, seus trabalhos, sua educação, e principalmente, suas vidas.

 

 

No momento que pensamos em todos, não apenas no eu, nos colocamos no lugar do outro e perceberemos o quanto é importante os cuidados diários com a segurança e prevenção de toda a população. Quanto mais nos cuidamos, mais cuidamos do outro, enquanto para alguns a rotina é simples e acessível, para outros é mais complexa, precisa de mais apoio, precisa que os serviços estejam funcionando para receber seus atendimentos e manter sua saúde. Para que esses atendimentos sejam feitos, a pandemia tem que estar mais controlada, a contaminação tem que estar baixa, para que possamos atender em segurança a quem necessita. Nossa família passou pelo episódio de dois quadros graves de covid-19, um com direito a internação, UTI, intubação e 90% de comprometimento pulmonar.

Não desejo e não quero que ninguém passe pelo que passamos, não quero que ninguém tenha que assinar um documento onde diz que se teu ente querido falecer, não pode haver velório por causa da Covid-19, não quero que ninguém passe pela solidão do hospital, não quero e não desejo que ninguém morra por causa de um vírus que pode ser evitado com coisas simples, como educação, higiene e vacina. Por favor, se cuidem, se protejam, saiam apenas se necessário, usem máscara, usem álcool gel, tomem a vacina quando estiver disponível para sua idade, pois assim vocês se protegem e de quebra previnem a saúde de todos. Aos meus amigos-pacientes, sigam se cuidando e sejam fortes, se tudo correr bem, logo, logo estaremos juntos, trabalhando, nos exercitando, dando muitas risadas e agitando a massa. Vocês são de suma importância na minha vida. Estou com saudades de vocês. Aos meus colegas de jornada, os profissionais de saúde, muito obrigado por tudo, pela doação, pelo amor e pela dedicação. Vocês sim, são heróis, heróis humanos e reais. “Sejam fortes, aguerridos e bravos, mostremos valor, constância, nesta ímpia e injusta guerra”. Minha eterna e imensa gratidão.

 

 

Júlio Cesar Santos             Fotos: acervo pessoal


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