“Parece outro planeta”: casal de Alegrete encara altitude e chega ao topo de um vulcão na Argentina

Há viagens que terminam quando as malas são desfeitas e outras que permanecem na memória como uma espécie de capítulo à parte da vida.

Para Milena de Souza e Éder Aita, casal que vive em Alegrete, as férias de inverno têm sido justamente assim. Desde 2018, os dois aproveitam o período de julho para conhecer diferentes lugares da América Latina, sempre em busca de novas paisagens, culturas e experiências. “Adoramos o inverno! Todo ano, nas férias de julho, planejamos conhecer um pedacinho da América Latina, e assim fazemos desde 2018”, conta Milena. Ao longo desse período, eles já atravessaram o Estreito de Magalhães, conheceram o famoso Glaciar Perito Moreno, em El Calafate, o Presídio e o Canal de Beagle, em Ushuaia, além de diferentes regiões de neve da Argentina e do Chile. Também estiveram diante do majestoso Vulcão Villarrica, no Chile, onde pretendiam realizar uma escalada em 2024, mas o plano precisou ser adiado por causa de um alerta laranja. “Nosso sonho, meu e do meu companheiro, era escalarmos o Vulcão Villarrica em 2024, mas, por alerta laranja, não deu”, lembra.

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Neste ano, entretanto, a aventura ganhou um novo destino. Depois de assistir a diversos vídeos, pesquisar e estudar a região, o casal decidiu conhecer um pedaço da Província de Catamarca, no noroeste da Argentina, território conhecido pelas paisagens da Puna, pelos salares, lagoas de altitude, montanhas e uma expressiva concentração de vulcões. O destino escolhido foi Antofagasta de la Sierra, uma localidade situada a mais de 3 mil metros de altitude e cercada por uma paisagem que impressionou o casal desde o primeiro momento. Para chegar até lá, eles passaram por trechos próximos dos 4 mil metros de altitude. “O caminho é um cenário de filme, sem explicação. Para mim, foi o lugar mais incrível e espetacular que já vi. Lugar plano, cercado de vulcões. Um sonho!”, descreve Milena.

Antofagasta de la Sierra está localizada em uma das regiões mais impressionantes da Puna argentina, onde a altitude, a aridez e a presença da Cordilheira dos Andes produzem um cenário que parece distante das paisagens conhecidas no cotidiano. A região reúne vulcões, salares, lagoas, formações rochosas e espécies características dos Andes, como vicunhas e flamingos. A paisagem, segundo Milena, foi muito além daquilo que havia visto nas pesquisas feitas antes da viagem. “Só vendo de perto mesmo para entender o que estou falando. Tudo é mais lindo que os vídeos que assistimos.”

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Foi nesse cenário que o casal decidiu conhecer de perto o Vulcão Antofagasta. Antes de iniciar a aventura, procuraram a casa de informações turísticas para tentar encontrar um guia, mas o local estava fechado. Diante da situação, resolveram seguir até o vulcão por conta própria. “Procuramos a casa para informações turísticas, atrás de um guia, mas o local estava fechado. Então resolvemos conhecer o Vulcão Antofagasta de perto. O local é aberto, só tem uma placa na entrada e uma trilha”, relata Milena. Os dois caminharam aproximadamente 20 minutos até chegar à base, aos pés do vulcão, e então começaram o trecho mais difícil do percurso.

A altitude logo mostrou que aquela não seria uma caminhada comum. Milena conta que chegou a pensar em desistir antes mesmo de chegar à metade da trilha. “Confesso que antes da metade do caminho pensei em desistir. A cada quatro passos, o coração acelerava. Eram quatro, seis passos e parava para descansar.” O terreno íngreme aumentava ainda mais a dificuldade. “O lugar era muito íngreme, parecia que já ia baixar ladeira abaixo”, brinca. Mesmo assim, ela decidiu continuar. “Mas não desisti, seguimos ‘adelante’!” O percurso até o topo levou cerca de uma hora e pouco, em um ritmo marcado por pausas e pela necessidade de respeitar os limites impostos pela altitude.

Foi justamente nesse momento que Éder teve papel fundamental. Embora seja mais tímido e tenha aparecido menos no relato inicial da viagem, segundo Milena foi ele quem a incentivou a continuar quando ela pensava em parar. “Ele foi quem me incentivou a não desistir. Sempre que eu parava, ele dizia: ‘tu vai te arrepender depois de não ter subido’”, conta, entre risos. A insistência deu resultado e, depois de vencer a subida, o casal finalmente chegou ao topo do vulcão. “Incrivelmente emocionante: conseguimos chegar ao topo de um vulcão, pela primeira vez. A visão lá de cima é uma loucura, parece outro planeta. Sua cratera é vermelha.”

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A paisagem encontrada no alto foi a recompensa por todo o esforço. Ao redor do Vulcão Antofagasta, os picos da região alcançam altitudes que passam dos 4 mil metros, compondo um cenário de montanhas, áreas áridas e grandes extensões de céu aberto. “Os picos à sua volta variam com altitudes de 3.600 a mais de 4.000. Caminhamos em torno de todo o vulcão. Que lugar magnífico”, relata Milena. Depois de conhecerem a cratera e percorrerem a área, iniciou-se a descida, que aconteceu de maneira mais tranquila, mas ainda com paradas para descanso. “A descida foi tranquila, com paradas pra descansar e normalizar o coração. Quando se está numa altura elevada, qualquer movimento brusco pode piorar.”

A experiência foi vivida apenas pelos dois. Segundo Milena, não havia outras pessoas no local naquele momento, e a tentativa de encontrar um guia não havia sido bem-sucedida porque o ponto de informações turísticas estava fechado. “Fomos só nós, meu namorado e eu. Sem guia, sem ninguém por perto. Não havia ninguém por perto lá.” O casal levou água e roupas adequadas para o frio, embora tenha retirado parte das jaquetas antes da subida. A altitude, entretanto, foi o fator que mais exigiu atenção durante o trajeto.

A cidade de Antofagasta de la Sierra também conquistou os dois pela combinação de natureza e simplicidade. Milena descreve o lugar como uma cidade de casas baixas, cercada por uma vegetação seca, montanhas, algumas delas nevadas, lagoas, lhamas e flamingos. As diferenças de temperatura também chamaram sua atenção: durante o dia, os termômetros chegaram a cerca de 18 graus, enquanto à noite a temperatura caiu para aproximadamente -3 graus. A região é marcada justamente pelas condições climáticas extremas da Puna, onde a altitude e o ar seco provocam grandes variações entre o dia e a noite.

Além das paisagens naturais, a viagem também colocou o casal diante da história milenar da região. Antofagasta de la Sierra possui importante patrimônio arqueológico e museus dedicados à preservação da memória das populações que habitaram a região há milhares de anos. Milena conta que visitou o Museu do Homem, onde conheceu peças arqueológicas e múmias preservadas. A passagem pelo local foi apenas uma parte de uma experiência cultural ainda maior vivida durante a viagem, que também incluiu a Província de Salta.

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Em Salta, Milena e Éder visitaram o Museu de Arqueologia de Alta Montanha, o MAAM, onde estão preservados os chamados Niños del Llullaillaco — a Doncella, o Niño e a Niña del Rayo — encontrados em 1999 no alto do Vulcão Llullaillaco. A descoberta arqueológica, relacionada a uma cerimônia incaica conhecida como Capacocha, impressiona tanto pela importância histórica quanto pelo estado de conservação dos corpos, favorecido pelas condições extremas de frio e altitude em que foram encontrados. “Não digo prazer, porque é uma coisa muito sinistra, mas conhecemos uma das múmias. É uma coisa muito impressionante, uma coisa que impacta”, relata Milena.

Éder também ficou profundamente impressionado com essa parte da viagem e acredita que a história das múmias mereceria uma reportagem própria. “Daria outra matéria. Daria um livro”, comenta. Para ele, a preservação dos corpos e a história por trás da descoberta são difíceis de dimensionar para quem nunca esteve diante daquele tipo de patrimônio. A visita acabou ampliando ainda mais o significado da viagem, que não ficou restrita às paisagens naturais, mas também passou pela história e pela cultura dos povos que viveram na região dos Andes muito antes da chegada dos visitantes atuais.

Para Milena, essa é justamente uma das razões pelas quais viajar se tornou uma tradição do casal. “Adoramos viajar. Viajar é cultura.” E a experiência em Catamarca deixou uma marca especial. “Esse lugar virou um paraíso. Pretendemos retornar, conhecer e escalar outros vulcões, além de conhecer toda a Província de Catamarca.” O desejo de voltar não está ligado apenas ao Vulcão Antofagasta, mas à vontade de explorar uma região que, segundo ela, ainda guarda muitos lugares a serem descobertos.

Milena é uruguaia, naturalizada brasileira, e vive há anos em Alegrete. Éder é alegretense. Juntos, os dois transformaram as férias de inverno em um momento para sair da rotina e conhecer novos lugares. A cada ano, escolhem uma nova parte da América Latina e, desta vez, encontraram na Puna argentina uma paisagem que, segundo Milena, superou tudo aquilo que haviam visto anteriormente em vídeos e fotografias. “Qualquer lugar que se aproxime da Cordilheira dos Andes tem uma vista deslumbrante. Só vendo de perto mesmo para entender o que estou falando.”

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No fim da aventura, ficou a sensação de que a viagem não foi apenas uma visita a um destino turístico, mas uma conquista pessoal. Milena chegou ao início da trilha sem ter certeza de que conseguiria terminar, precisou parar diversas vezes por causa da altitude e chegou a pensar em desistir. Éder insistiu para que ela continuasse e, juntos, os dois alcançaram o topo de um vulcão pela primeira vez. Lá em cima, diante da cratera avermelhada e das montanhas que ultrapassam os 4 mil metros, veio a certeza de que o esforço havia valido a pena.

“Tudo é mais lindo que os vídeos que assistimos”, resume Milena. E talvez seja essa a melhor definição da viagem: uma história que começou com o desejo de conhecer mais um pedaço da América Latina e terminou com dois alegretenses diante de uma paisagem que, para eles, parecia pertencer a outro planeta.

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