Agora, vivendo em Campo Maior – no estado do Piauí, a mais de de quatro mil quilômetros do “Baita Chão”, Adalberto diz nunca ter esquecido da cidade a qual criou profundos vínculos de amizade e absorveu de forma ampla a cultura gaúcha . “É algo que não sei explicar, ficou em minha alma para sempre, pois os alegretenses me acolheram e me cativaram com seu jeito singular e me passaram tudo o que caracteriza e envolve a cultura dessa cidade da fronteira oeste do Rio Grande do Sul.

Entre a rotina do quartel e a vida do lado de fora, durante os período que viveu na cidade, de 92 a 97, o Sargento vindo da ESA e que agora vai passar a Capitão R1 vivenciou a vida no campo, sentiu o vento minuano, saboreou dezenas de vezes o churrasco, aprendeu a tomar chimarrão e até a dar uns passos no ritmo de vaneiras e chamamés. São memórias afetivas da gente desta terra e da sua cultura, que ele diz que nunca mais esqueceu, mesmo na reserva, e há mais de 20 anos tão distante de Alegrete.
E para amenizar um pouquinho da saudade que sente de Alegrete, num paralelo entre o nosso estado e nordeste, o Sargento Adalberto transferiu para o papel o que a alma sente.
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O militar Adalberto Pilchado quando serviu em Alegrete
Entre o Lenço e o Gibão
No extremo Sul, o vento minuano assobiava sobre as coxilhas como quem afia uma espada invisível. No Nordeste, o sol rachava a terra do sertão como quem prova a resistência dos homens. Pareciam mundos distantes, separados por léguas incontáveis, por sotaques distintos e por paisagens opostas. Mas o Brasil, em seus mistérios, teceu entre eles fios da mesma fibra.
De um lado, nasceram os farroupilhas: cavaleiros dos pampas, filhos do campo aberto, das tropas e do chimarrão compartilhado ao redor do fogo. Montavam seus cavalos como quem prolongava o próprio corpo. O lenço ao pescoço não era mero adorno; era bandeira silenciosa, identidade, código de honra. Lutaram contra impostos que julgavam injustos, sonharam com autonomia e escreveram, com suor e pólvora, uma das páginas mais longas da história rebelde do país.
Do outro lado, ergueram-se os cangaceiros: homens e mulheres do sertão espinhento, vestidos de couro para enfrentar o mandacaru e o destino. Os chapéus estrelados pareciam coroas forjadas pela necessidade. Os bornais carregavam mais do que munição: levavam histórias, vinganças, saudades e sobrevivência. Surgiram onde a lei chegava tarde e a injustiça chegava cedo. Tornaram-se lenda entre o medo e a admiração.
O gaúcho bebia o mate enquanto observava o horizonte sem cercas. O sertanejo repartia a água escassa como quem divide esperança. Ambos aprenderam cedo que viver era pelejar.
Os farroupilhas tinham seus estandartes; os cangaceiros, seus símbolos bordados em couro. Uns vestiam bombachas, botas e lenços coloridos; outros, gibões, perneiras e chapéus adornados. Em ambos, a indumentária deixava de ser roupa para tornar-se declaração: “Aqui estou. Sei quem sou. Não me curvo facilmente.”
Os cavalos dos pampas levantavam poeira fria. Os cavalos do sertão cruzavam caminhos quentes entre a caatinga. Os cascos batiam ritmos diferentes, mas anunciavam o mesmo tipo de gente: homens acostumados a confiar mais na coragem do que na sorte.
Os farroupilhas cantavam ao redor das fogueiras; os sertanejos entoavam aboios perdidos na vastidão seca. O acorde da gaita e o som da viola contavam dores semelhantes: o amor pela terra, a saudade dos ausentes, o orgulho de pertencer.
E havia os lenços.
No Sul, vermelhos ou brancos, marcavam alianças e memórias. No Nordeste, os panos protegiam do sol, enxugavam o suor e guardavam significados próprios. Tecido simples, mas carregado de pertencimento. O que cobre o pescoço também pode guardar a dignidade.
Nem os farroupilhas foram apenas heróis, nem os cangaceiros apenas vilões. A história verdadeira raramente aceita retratos feitos apenas em preto e branco. Entre ambos existiram grandezas e contradições, gestos de bravura e atos questionáveis, sonhos legítimos e violências difíceis de justificar. Eram homens de seu tempo, moldados por circunstâncias severas.
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O fim também os aproximou.
A Revolução Farroupilha encerrou-se em acordos, anistias e reintegrações. O cangaço terminou sob perseguições implacáveis, emboscadas e a exibição dos derrotados como advertência. Mas nenhum dos dois desapareceu completamente.
Porque certas batalhas continuam habitando a memória.
Os farroupilhas permaneceram no orgulho gaúcho, nos desfiles, nos galpões, na chama crioula e na gaita que ainda chora e festeja. Os cangaceiros sobreviveram nos cordéis, nos romances, nos aboios, nos museus e nas conversas de alpendre quando a noite cai sobre o sertão.
Talvez o encontro entre eles aconteça justamente onde a geografia não alcança.
O cangaceiro oferece um gole d’água tirada do pote de barro. O farroupilha estende a cuia do chimarrão. O gibão encontra a bombacha. O chapéu de couro inclina-se diante do pala. O lenço colorido dança ao lado das medalhas do couro trabalhado.
E ambos sorriem daquele jeito reservado dos que conhecem o preço das coisas.
Porque nordestinos e gaúchos aprenderam a mesma lição em escolas diferentes: a de que a vida exige firmeza.
São povos moldados pelo excesso e pela escassez; pelo frio que corta e pelo sol que castiga; pelo campo sem fim e pela caatinga sem perdão.
Povos que podem até dobrar os joelhos para rezar, mas raramente dobram a alma diante das adversidades.
No fundo, entre o minuano e o mandacaru, entre a cuia e o pote, entre o lenço e o gibão, existe uma mesma herança brasileira:
a de seguir adiante.
Porque há gente que nasce para atravessar estradas.
E há povos que transformam a própria resistência em identidade.
Assim, para Farrapos e Cangaceiros, no passado foi, no presente é, e o futuro, há o futuro! A eterna incógnita que só o arquiteto do firmamento pode mensurar.

O militar Adalberto Pilchado quando serviu em Alegrete

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