Ela permanece grudada na memória, no sotaque, nos hábitos, no jeito de olhar para a vida e, principalmente, naquela necessidade quase inexplicável de voltar para rever a própria origem. É justamente desse sentimento que nasce mais uma história do quadro “Saudade do Alegrete”, uma das sessões mais humanas e emocionantes do Portal Alegrete Tudo, espaço criado para contar as trajetórias de alegretenses que partiram em busca de novos caminhos, mas que jamais deixaram para trás a essência do lugar onde nasceram.
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A história desta vez é de Cleber Saldanha, conhecido hoje como Pai Cleber de Ogun, um alegretense que saiu da cidade ainda muito jovem, carregando no peito sonhos, coragem, profissão e uma ancestralidade que mais tarde se transformaria na missão central da sua vida.

Foi em 1998, logo após receber a baixa do quartel, que Cleber decidiu deixar Alegrete. Tinha apenas 21 anos de idade e levava consigo a esperança comum a tantos jovens do interior gaúcho que, diante das limitações profissionais da época, precisavam partir para encontrar oportunidades, estabilidade e crescimento. Na bagagem, além das roupas e das incertezas, estava a profissão que aprendeu a amar desde cedo: a panificação e a confeitaria.
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Deixava para trás muito mais do que uma cidade. Ficavam em Alegrete os familiares, os amigos de infância, os lugares que ajudaram a construir sua identidade, as lembranças de uma infância simples e profundamente marcada pelos valores familiares, pela resistência e pela fé. Como costuma acontecer com quem sai do interior, a despedida não era apenas geográfica. Era emocional. Era o rompimento silencioso de uma rotina construída entre pessoas conhecidas, ruas familiares e histórias que jamais seriam esquecidas.
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A primeira parada foi em Erechim. Depois, a caminhada seguiu para Ijuí. Mais tarde, a profissão e o destino o conduziram até a Serra Gaúcha, região onde construiu a maior parte da sua trajetória de vida e onde, há 14 anos, reside na cidade de Serafina Corrêa.

Ao recordar a própria caminhada, Cleber faz questão de destacar que o processo de crescimento profissional esteve longe de ser fácil. Foram anos de muito esforço, disciplina e superação, enfrentando dificuldades financeiras, jornadas intensas de trabalho e os desafios emocionais que acompanham aqueles que precisam recomeçar a vida longe da própria terra. Também houve preconceitos e obstáculos que, segundo ele, somente compreende verdadeiramente quem um dia precisou sair da sua cidade natal para buscar uma oportunidade melhor.
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Mesmo diante das dificuldades, nunca desistiu. A dedicação ao trabalho fez com que alcançasse reconhecimento profissional na área da panificação e confeitaria, tornando-se mestre e técnico no segmento, resultado de uma trajetória construída com persistência e amor pela profissão.
No entanto, paralelamente à profissão que o sustentava materialmente, existia algo ainda mais profundo sustentando sua identidade: a espiritualidade Afro-Brasileira herdada desde a infância.
Cleber conta que levou consigo, desde Alegrete, a fé nos Orixás e os ensinamentos recebidos dentro do terreiro, ambiente onde aprendeu valores ligados ao respeito, à coletividade, à ancestralidade e à força espiritual do povo de matriz africana. Com o passar dos anos, percebeu que sua missão de vida começava a caminhar cada vez mais em direção à religiosidade e à preservação cultural.
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A espiritualidade, então, deixou de ocupar apenas um espaço pessoal para transformar-se completamente em propósito de vida. Aos poucos, a panificação ficou para trás, e Cleber decidiu dedicar-se integralmente ao sacerdócio, à defesa das religiões Afro-Brasileiras e ao combate à intolerância religiosa, realidade que ainda atinge fortemente os povos de terreiro em diversas regiões do país.

Há 14 anos, mantém ativo na Serra Gaúcha um templo religioso voltado à Tradição dos Orixás, preservando fundamentos, ensinamentos e valores ancestrais que resistem graças à fé e à coragem daqueles que seguem mantendo viva uma cultura marcada historicamente pela resistência.
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Além da atuação religiosa, também passou a desenvolver um importante trabalho de comunicação através da mídia eletrônica Heranças Afro 2.0, projeto voltado exclusivamente à valorização das religiões Afro-Brasileiras no Rio Grande do Sul e que busca criar espaços de informação, debate, preservação cultural e enfrentamento ao preconceito religioso.
Sua atuação também ganhou dimensão institucional. Atualmente, Pai Cleber atua como delegado regional da AFROBRAS — Federação das Religiões Afro-Brasileiras —, além de ser conselheiro da Associação de Umbanda de Caxias e membro das comissões organizadoras de importantes celebrações religiosas realizadas no estado, entre elas a Festa de Mãe Oxum, em Porto Alegre, a Festa de Iemanjá, em Tramandaí, e a Festa de Pai Ogun, em Caxias do Sul.
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Apesar da intensa caminhada religiosa e institucional, Cleber afirma que uma das maiores riquezas da sua trajetória está dentro da própria casa e da convivência familiar construída ao longo dos anos ao lado da mãe, Neli Saldanha.
Enquanto ele segue a religião de matriz Afro-Brasileira, Neli é evangélica, integrante ativa da Assembleia de Deus e praticante dedicada da fé cristã. Ainda assim, ambos construíram uma convivência marcada pelo respeito, pelo amor e pela compreensão, demonstrando que as diferenças religiosas jamais foram capazes de romper os laços familiares que os unem.
Segundo Cleber, a convivência entre os dois representa uma prova concreta de que o respeito é possível quando existe humanidade e afeto verdadeiro dentro de casa. Ele costuma repetir uma frase que resume esse sentimento: “sangue não é água”.
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Exatamente um mês depois de chegar em Serafina Corrêa, Cleber trouxe a mãe, Neli Saldanha, de Alegrete para morar consigo. Desde então, os dois seguem compartilhando uma trajetória marcada por trabalho, espiritualidade, resistência e união familiar.

Mesmo depois de tantos anos longe da cidade natal, a saudade permanece viva. Alegrete segue presente nas lembranças, nas histórias contadas dentro de casa, nos reencontros com amigos antigos e na necessidade constante de retornar para rever as próprias raízes.
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Para Cleber e Neli, existe um sentimento impossível de apagar: a certeza de que, independentemente do lugar onde a vida tenha sido reconstruída, Alegrete continuará sendo o chão onde nasceram suas histórias, suas memórias e sua essência. Com emoção, Pai Cleber resume aquilo que sente toda vez que fala sobre a terra natal:
“Serafina Corrêa nos acolheu e se tornou um divisor de águas em nossas vidas. Mas Alegrete é o nosso chão, nossa origem e nossa essência.”
Quer contar a sua história no quadro “Saudade do Alegrete”? Entre em contato com o Portal Alegrete Tudo pelo telefone (55) 99928-7002 e compartilhe sua trajetória.

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