Táxi x aplicativo: o contraste que revela uma nova tendência da mobilidade urbana em Alegrete

Durante décadas, chamar um táxi fazia parte da rotina de quem precisava se deslocar pelas cidades brasileiras. Bastava procurar um ponto conhecido, acionar uma campainha em um estabelecimento ou fazer uma ligação para solicitar o serviço. Em Alegrete, não foi diferente. A profissão de taxista se consolidou como uma das principais alternativas de transporte individual e atravessou gerações, criando uma relação de proximidade entre profissionais e passageiros.

Esse cenário, porém, começou a mudar com o avanço da tecnologia e o surgimento dos aplicativos de mobilidade urbana. A possibilidade de solicitar um veículo diretamente pelo celular, acompanhar a chegada do motorista e, em muitos casos, ter acesso ao valor da corrida antes do embarque trouxe uma nova opção para os passageiros e alterou a dinâmica de um mercado que, por muitos anos, foi dominado pelos táxis.

Em Alegrete, essa transformação já pode ser percebida nos números. Segundo dados repassados ao (PAT) junto à Secretaria de Segurança Pública, Mobilidade e Cidadania, o município possui atualmente 50 taxistas ativos, enquanto o número de motoristas que atuam por meio de aplicativos chega a 500 profissionais. Essd número é de motoristas cadastrados na sistema da Prefeitura, mas não quer dizer que todos eles estejam em atividade.

Dentro desse universo, 65 motoristas utilizam veículos elétricos, o equivalente a 13% dos profissionais que trabalham com aplicativos. O município também conta atualmente com mais de cinco empresas atuando no segmento de mobilidade urbana, que vem ampliando sua presença na cidade.

Os números ajudam a dimensionar uma mudança que vai além da quantidade de profissionais. Eles revelam uma alteração no comportamento dos passageiros e na própria forma como o alegretense busca o transporte individual.

Uma profissão que perdeu espaço

O táxi continua presente nas ruas de Alegrete, mas os profissionais reconhecem que o movimento já não é o mesmo de anos atrás. Em conversa com taxistas que trabalham em um dos pontos tradicionais da cidade, o PAT ouviu relatos sobre as dificuldades enfrentadas atualmente pela categoria. Entre os principais fatores apontados está a concorrência com os aplicativos, especialmente em relação ao preço das corridas.

Segundo os profissionais entrevistados, em determinados trajetos, a diferença entre o valor cobrado pelo táxi e o preço apresentado pelos aplicativos pode ficar entre R$ 2 e R$ 3. “É difícil competir. As nossas corridas são de bandeira 1, bandeira 2. Às vezes, as mesmas distâncias dão cerca de R$ 2 ou R$ 3 de diferença em relação aos motoristas de aplicativo”, relatou um dos taxistas.

Para os trabalhadores, a diferença pode parecer pequena quando analisada individualmente, mas acaba influenciando a decisão do passageiro, principalmente entre aqueles que utilizam o serviço com frequência.

Além da questão financeira, os taxistas apontam uma mudança significativa no perfil dos usuários. De acordo com os profissionais ouvidos pelo PAT, o público jovem é hoje um dos principais usuários dos aplicativos de mobilidade urbana. A situação se torna ainda mais evidente durante a noite.

“A grande dificuldade que temos hoje é a falta de passageiros no período noturno. O público jovem vai de aplicativo”, afirmou um dos taxistas.

Segundo os relatos, poucos profissionais permanecem trabalhando após as 22h. Com a redução da procura nesse período, manter um táxi circulando durante a noite deixou de ser uma alternativa considerada vantajosa para muitos trabalhadores.

Em contrapartida, os taxistas afirmam que o serviço tradicional ainda possui uma clientela fiel entre pessoas de meia-idade e idosos, que continuam demonstrando preferência pelos veículos dos pontos tradicionais.

Campainhas deram lugar ao celular

A transformação também pode ser percebida nos locais onde os táxis tradicionalmente eram chamados. Os profissionais lembram que mercados, lojas, postos de combustíveis e outros estabelecimentos mantinham campainhas ou sistemas de contato para solicitar os veículos que permaneciam nos pontos próximos.

Com a popularização dos aplicativos, essa prática foi desaparecendo gradualmente. Hoje, o passageiro pode solicitar um veículo diretamente pelo celular, sem precisar se deslocar até um ponto ou procurar um telefone para fazer o chamado. A tecnologia colocou o serviço de transporte literalmente na palma da mão.

Para os taxistas, essa mudança representa uma perda de espaço não apenas nas corridas, mas também na presença cotidiana da categoria em locais que historicamente funcionavam como pontos de referência para os passageiros.

Por que eles continuam no táxi?

Diante da diferença entre o número de taxistas e motoristas de aplicativo, surge uma pergunta: por que esses profissionais ainda permanecem no táxi?. Os próprios trabalhadores têm uma resposta. Apesar das dificuldades, eles afirmam que o serviço ainda proporciona uma renda considerada satisfatória nos pontos onde atuam.

O rendimento, no entanto, é reconhecido como inferior ao registrado no passado. Segundo os taxistas entrevistados, há cerca de dez anos a movimentação era maior e a profissão proporcionava uma rentabilidade superior. Mesmo assim, a decisão de permanecer no setor também passa por uma questão de identidade profissional.

Os trabalhadores afirmam que muitos colegas deixaram a atividade ao longo dos últimos anos, mas que aqueles que permanecem querem continuar exercendo uma profissão que consideram tradicional e que faz parte da história do transporte brasileiro.

“Sabemos das dificuldades, vários colegas nossos saíram, mas continuamos nossa caminhada, com honra e cabeça erguida”, disse um dos profissionais entrevistados. A fala resume o sentimento de uma categoria que reconhece as mudanças do mercado, mas não pretende abandonar a profissão.

Uma nova disputa pelas ruas

O que acontece atualmente em Alegrete não representa simplesmente a substituição de um serviço por outro. O município vive uma mudança na configuração da mobilidade urbana, na qual diferentes modalidades passaram a disputar o mesmo passageiro.

O táxi continua sendo utilizado, especialmente por um público que mantém confiança e preferência pelo serviço tradicional. Os aplicativos, por sua vez, conquistaram uma parcela significativa dos passageiros e ampliaram o número de profissionais que trabalham no transporte individual. Os números ajudam a traduzir essa transformação: 50 taxistas ativos diante de 500 motoristas de aplicativo. Há cerca de uma década, a realidade era outra. Hoje, a tecnologia passou a ocupar um espaço que antes era praticamente exclusivo dos táxis.

Para os profissionais que continuam nos pontos, a permanência na atividade representa mais do que uma questão financeira. É também uma maneira de manter viva uma profissão que acompanha a história da cidade e que, mesmo diante de uma nova realidade, ainda circula pelas ruas de Alegrete.

A tendência, porém, aponta para um mercado cada vez mais diversificado. Aplicativos, veículos elétricos e novas formas de solicitar o transporte fazem parte de uma transformação que ainda está em curso.

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