Alegrete está inserido no protocolo brasileiro para controle de nuvem de gafanhotos

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Uma enorme nuvem de gafanhotos da espécie Schistocerca cancellata, que se originou na região do Chaco no Paraguai e se dirige pela Argentina em direção ao Rio Grande do Sul e Uruguai tem causando certo pânico aos produtores rurais.

A situação foi informada pelo Serviço Nacional de Saúde e Qualidade Agroalimentar (SENASA) do governo Argentino, que vem fazendo o monitoramento da praga e tentando algumas formas de controle.

A preocupação ganhou destaque no Brasil, após os ventos ajudarem a nuvem de gafanhotos em apenas 24 horas, entre os dias 22 e 23 de junho de 2020, a se deslocarem aproximadamente 100 km para o sul e leste da argentina, ficando a menos de 200 km com a fronteira do Estado Gaúcho. A extensão da nuvem detectada chega a 10 quilômetros. Para se ter uma ideia da dimensão, uma nuvem de apenas um quilômetro quadrado tem até 40 milhões de insetos que podem comer num único dia, o equivalente a 2.000 bovinos. A nuvem em monitoramento é muito maior que isso e com real capacidade de devastar pastagens, pomares e lavouras, causando sérios prejuízos para a agropecuária do Rio Grande do Sul, que já vem de um período crítico em função da estiagem deste ano, e inclusive danos ao meio ambiente pelo ataque severo da praga aos campos nativos e florestas da região, afetando a alimentação da fauna silvestre.

É importante frisar que uma situação dessas é causada por um desiquilíbrio ambiental, a diminuição dos inimigos naturais e também por condições de clima favoráveis como calor e tempo seco. Mas não são situações isoladas e não é possível afirmar que o fenômeno esteja ligado ao uso de agrotóxicos, pois desde os tempos antigos, situações semelhantes já aconteciam e estão registradas inclusive na Bíblia Sagrada, e naquela época não existiam agrotóxicos.

Desde quando recebemos as primeiras informações sobre esta praga, a Associação dos Engenheiros Agrônomos de Alegrete (AEAA) entrou em contato com um dos dirigentes do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola do Brasil (SINDAG), o empresário Marcos Antônio Camargo, proprietário aqui na região da Fronteira Oeste da Itagro Aviação Agrícola, umas empresas de aviação mais modernas e equipadas de todo o Estado.

Camargo informou que desde as primeiras notificações do governo argentino, o SINDAG através do seu diretor-executivo, senhor Gabriel Colle, já havia realizado o encaminhamento de ofícios para o Secretário Agricultura do Rio Grande do Sul Covatti Filho e também para a Ministra da Agricultura do Brasil Tereza Cristina, alertando sobre o risco desta nuvem de gafanhotos para os cultivos agrícolas no Brasil. A partir de então, iniciou-se uma mobilização e cooperação entre o SINDAG, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil (MAPA) e Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural do Rio Grande do Sul para elaboração de uma estratégia de combate desta praga.

Vale lembrar que a aviação agrícola é uma ferramenta indispensável para a produção agropecuária do País. Os atuais aviões contam com equipamentos de altíssima tecnologia e eficiência seja para controle de pragas com o uso de defensivos agrícolas, seja para aplicação de insumos como sementes e adubos nas lavouras e pastagens. Ultimamente a aviação agrícola também tem sido destaque no combate a incêndios de grandes proporções em campos e em florestas e no controle inclusive do mosquito da dengue em algumas regiões.

Na atualidade, a aviação agrícola é considerada mundialmente uma das principais armas no combate a nuvens de gafanhotos. E por curiosidade, ela foi desenvolvida para esta finalidade aqui no Brasil. O registro do primeiro voo é datado de 19 de agosto de 1947, e foi utilizada naquela ocasião para o controle de gafanhotos que dizimavam lavouras na região de Pelotas.

O SINDAG através da agilidade com seus associados firmaram um compromisso com a agropecuária brasileira, em especial a gaúcha, colocando a disposição toda a frota de 426 aeronaves das empresas de aviação agrícola do Estado, para o combate da infestação deste inseto caso fosse necessário. O Rio Grande do Sul tem a segunda maior frota aero agrícola do Brasil, o segundo país no mundo em números de aviações agrícolas, num total de 2.280 aeronaves.

 

Vale ressaltar, que qualquer produto químico que for aplicado, somente será através de recomendação de um engenheiro agrônomo, e que os defensivos a serem usados terão como prioridade e especificidade para a praga, assim como todos os cuidados serão tomados buscando minimizar qualquer impacto para o meio ambiente.

Quanto às abelhas, há um aplicativo denominado de Colmeia Viva, desenvolvido pelo Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (SINDIVEG) para facilitar o diálogo entre agricultores e criadores de abelhas, identificando as áreas de sobreposição de atividades agrícolas e apícolas. Agricultores e aplicadores de defensivos agrícolas podem avisar onde e quando vão ocorrer as pulverizações e os criadores de abelhas podem identificar a região dos apiários para receber os comunicados de aplicações e saber quais medidas de proteção devem tomar.

O clima pode ser um aliado nessa batalha contra os gafanhotos. Segundo informações dos órgãos de meteorologia, há expectativa de que uma frente fria chegue ao estado nas próximas horas, primeiramente trazendo chuvas e na sequência o frio, o que favoreceria para dissipar essa nuvem de gafanhotos ainda dentro do território argentino e inibir sua migração em direção ao nosso Estado.

O SINDAG informou que o plano está montado, praticamente uma estratégia de guerra para enfretamento desta praga foi desenvolvida e mesmo que os gafanhotos não cheguem ao país, a situação permitiu ao Brasil a criação de um protocolo padrão para ser usado em casos como esse.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento declarou estado de emergência fitossanitária no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina com o objetivo de permitir a implementação do plano de supressão da praga e adoção de medidas emergenciais. A portaria com a medida foi publicada no Diário Oficial da União desta quinta-feira (25/06/2020) e tem validade de um ano.

 

Leonardo Cera

Presidente da Sociedade de Agronomia do Rio Grande do Sul

Presidente da Associação dos Engenheiros Agrônomos de Alegrete (AEAA)

 


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