Estudo questiona uso de testes rápidos para diagnóstico de covid-19

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Na prática, aproximadamente 34% dos casos dão falsos positivos, aponta pesquisa.

Um estudo concluiu que não há evidências que sustentem o uso de testes rápidos para diagnóstico de covid-19. A análise foi publicada na revista científica BMJ em 1º de julho.Foram analisados dados de mais de 40 estudos de diversos países para avaliar a evidência disponível, neste momento, que sustente ou não o uso desses testes e indicar sua acurácia.

 

Os testes sorológicos identificam pessoas que já tiveram contato com o vírus e, por isso, devem ser feitos a partir do 10º dia de contágio. Na revisão, os testes foram divididos por método e por classes de anticorpos. A sensibilidade e a especificidade dos diferentes testes foram comparadas.

A sensibilidade corresponde ao nível de precisão, ou seja, quanto mais alta, menor a taxa de falsos negativos. Já a especificidade indica quão específico é o teste para detectar anticorpos contra o coronavírus em relação a outros vírus respiratórios.

As três sorologias avaliadas foram Elisa e quimioluminescência, feitas em laboratório a partir de amostra de sangue venoso, e a imunocromatografia, os chamados testes rápidos, que analisam, no próprio aparelho, uma ou duas gotas de sangue da ponta do dedo. As classes de anticorpos correspondem às imunoglobulinas IgM, IgG e IgA.

Os anticorpos IgM são produzidos no início da infecção, enquanto o IgG e IgA – também chamados de memória – aparecem na fase tardia. Os anticorpos IgG e IgA são específicos para um agente viral e podem durar bastante tempo no organismo, sendo considerados bons marcadores de imunidade.

Os pesquisadores observaram que a especificidade dos diferentes testes sorológicos varia entre 96,6% a 99,7%. Em relação à sensibilidade, os testes de quimioluminescência tiveram sensibilidade de 97,8% (intervalo de 46,2% a 100%), os de Elisa 84,3% (intervalo de 75,6% a 90,9%) e o imunocromatográfico de apenas 66% (intervalo de 49,3% a 79,3%). Todas as análises foram feitas em pacientes que apresentaram diagnóstico positivo para covid-19 no exame RT-PCR, considerado padrão-ouro para diagnóstico de infecção aguda.

Na prática, isso significa que em aproximadamente 34% dos casos os testes rápidos dão falsos positivos, enquanto no Elisa essa taxa equivale a cerca de 16% e na quimioluminescência, 2%.

Em relação aos pacientes que não tiveram contato prévio com o vírus, a chance de o resultado positivo ser verdadeiro, nesse caso indicando corretamente que o paciente não apresenta anticorpos anticoronavírus, aumenta para 98% para o Elisa e 97% para o imunocromatográfico. No caso da quimioluminescência, essa taxa se manteve em 98%.

Segundo os autores, em uma população cuja prevalência do coronavírus seja de 10%, a cada mil indivíduos que contraíram a doença, 66 terão resultado positivo no teste rápido e 34 serão classificados erroneamente como não infectados. Por outro lado, dentre aqueles que não foram contaminados, em 869 o resultado do teste será negativo, mas 31 serão falsamente identificados como se tivessem anticorpos.

No entanto, uma observação importante da revisão é que há um elevado risco de viés (cerca de 67%) nos testes de acordo com o período em foram realizados, se muito no início ou no fim do contágio. Isso significa que há uma correlação direta entre o momento em que é feito o exame e a sua acurácia.

Métodos de laboratório

O estudo também comparou os diferentes testes disponíveis comercialmente e as chamadas tecnologias in-house, desenvolvidas e patenteadas por um laboratório, sem comercialização. A sensibilidade dos testes foi significativamente menor nos kits comerciais nos três métodos em comparação às tecnologias laboratoriais, em especial o  imunocromatográfico, cuja sensibilidade foi de apenas 65%, frente aos 88,2% do método desenvolvido em laboratório.

Outro dado levantado na pesquisa identificou uma maior taxa de acerto dos testes comerciais quando realizados a partir da terceira semana de contágio em relação às primeiras duas semanas após o início dos sintomas.

Segundo os autores, embora a utilização de um teste rápido, de baixo custo e com bom índice de acerto seja de interesse da população, essa procura levou à produção, à comercialização e à divulgação de diversos testes sorológicos para covid-19 sem que houvesse uma avaliação mais rigorosa de sua sensibilidade.

— A baixa sensibilidade do teste rápido preocupa em particular. Essas observações fornecem evidências contrárias ao uso desse teste para outros fins além de estudos de soroprevalência, e apoiam as recomendações dadas pela Organização Mundial da Saúde de não utilizá-los como método diagnóstico — afirmam os autores.

Os pesquisadores concluem com um alerta: “A baixa performance dos testes sorológicos existentes coloca em dúvida a utilização de tais métodos para tomada de decisões, em particular o uso dos testes rápidos associados aos chamados ‘passaportes de imunidade’ por governantes”.

Fonte: Gaúcha/ZH


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