Dor eterna: Chapéu Preto revela detalhes de uma tragédia familiar na infância

Ele é uma sumidade no que faz. O trabalho esculpido é sempre uma referência e tem esculturas até no exterior. Derli Vieira, conhecido como Chapéu Preto, está com 69 anos.

Ele é escultor desde os 12 anos e trabalha com vários materiais: madeira, aço ferro, chifre, dentre outros. Nessas décadas coleciona milhares de trabalhos, dentre eles,  42 obras no exterior.

 

Em mais uma entrevista ao PAT, o artista se emocionou ao revelar passagens muito difíceis e marcantes em sua vida. Ele que, no último dia 19, foi homenageado e agraciado com uma Medalha de Ordem de Serviços Extraordinários recebido da Academia de Medalhistica Cívico Militar do Paraná, estava emocionado.

Derli, disse que foi uma glória saber da homenagem. Ele se recente pois, conforme descreveu, é pouco reconhecido em sua cidade. “Para quem não tem estudo, não tem muita riqueza, para meu mundo órfão isso é muito importante” – comentou.

 

Foi então, que o artista revelou algo muito íntimo e doloroso, a perda dos pais. “Quando eu tinha quatro anos, minha mãe morreu no parto de um irmão. A criança também não resistiu e foi a óbito. Eu ainda era pequeno, não tenho a lembrança do rosto da minha mãe, nem mesmo por fotografia. Morávamos no interior, Rincão do São Miguel, lembro que o comentário foi de que não houve tempo de encaminhá-la até o hospital” – falou.

Mas a situação ainda teria um episódio que seria tão cruel quanto o perder a mãe e ficar sem essa referência, que ele diz ter sentido muita falta. Três anos depois, em 1957, Derli estava no interior com o avô quando ficou sabendo que o pai havia perdido o sentido da razão e em momento de desequilíbrio emocional assassinou três filhos e depois cometeu suicídio.

” Não consigo esquecer aquele dia, meu pai deu veneno “tatuzinho” aos meus irmãos. Eu não morri porque estava com meu avô, ajudando na lavoura. Depois de matá-los, ele atirou contra si. Foi um grande choque para todos à época. Eu fiquei sem família, somente com meus avós.” – lembrou.

Derli, ressalta que depois da tragédia, ele foi morar com a avó materna. Neste período, passou por muitas necessidades, dentre elas, fome e frio. A coberta era de bolsa de estopa e a felicidade maior ficava por conta do auxílio de alguns tropeiros que o agraciavam com uma cabeça de ovelha ou mondongo de vaca. ” Aquele mondongo era muito festejado, sabia que iria garantir o alimento para nós”- comentou.

Depois de um período, com 12 anos, Derli lembra que foi na casa de um vizinho e viu pela primeira vez a imagem de uma escultura. Naquele momento, ao ver a novela Juca Pitanga teve a certeza que seria capaz de fazer uma obra. Ele pediu aos tios que emprestassem os primeiros materiais e, mesmo sem ter muita noção, um rosto começou a surgir. Chapéu Preto disse que começaram os elogios e com isso a vontade de colocar em prática tudo que estava em sua mente.

Depois se aventurou em Porto Alegre, onde foi mestre de obras, aprendeu a montar elevadores e teve o privilégio de conhecer o poeta Mário Quintana.

Recordo que ao mostrar meu trabalho, ele ficou olhando para as esculturas. Sem pensar muito disse: escrever é fácil e confortável demais, bem sentado sobre a mesa sem poeira ou lamaçais. Difícil é esculpir sem ter os defuntos.

Depois, mais uma vez, retornou a Alegrete onde constituiu família. Com os anos, houve a separação e a filha teve um problema psiquiátrico. Até os dias atuais está internada em uma clínica.

Há mais de dez anos reside sozinho com suas obras no bairro Capão do Angico. Negro da Gaita com meio metro de altura foi uma das primeiras esculturas mais importantes.

Para finalizar, Derli disse que por um bom período conviveu, no período da adolescência com amigos que optaram por um caminho negativo, mas tem muito orgulho de ser ético e correto.

“Quando os ventos soprarem no bronze do meu nome, eternizarão a grandeza do espírito que não morre”. finalizou.

 

Flaviane Antolini Favero

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