A alegretense que luta pelo crescimento e modernização da biblioteca pública
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A alegretense Aliriane Ferreira Almeida é bacharel em biblioteconomia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Formada em 2014, é especialista em Informação Cientifica e Tecnológica em Saúde pela Fiocruz e Grupo Hospitalar Conceição.


A filha do casal Alair Oliveira Almeida e Eni Ferreira Almeida, atua como bibliotecária em Alegrete desde 2016. Dedica muito amor pela biblioteca pública Mário Quintana.

 

Seu cadastro na biblioteca foi feito aos 6 anos. Amante da leitura, Aliriane é quem coordena o trabalho na biblioteca.

“Todos amam o Centro Cultural e a Biblioteca. Nossos leitores e leitoras são muito leais e devemos muito a eles. Tudo é para nossas leitoras e leitores”, destaca a profissional.

Aliriane deseja que Alegrete possa ser referência de uma biblioteca pública na região, com tecnologias, ambiente dentro dos padrões de acessibilidade, aconchegante, com mobiliário novo, atraente, acolhedor, climatizado, com investimento em acervo atualizado, com compra de livros.

 

Ela conta que não dispõe de nenhum recurso para compra de livros, e desde que não é cobrada taxa de inscrição a possibilidade de comprar um exemplar é zero.

A entrevista com a bibliotecária que luta pelo crescimento da bibliotecas pública, uma dura tarefa que não é de hoje. Confira a entrevista na íntegra:

Portal: Em que momento da vida tu decidiu cursar bibliotecomomia ?
Em 2007. Fui embora para Porto Alegre trabalhar, sabia que queria tentar a Universidade Federal, mas ainda tinha muita desmotivação, achava que nunca iria passar. É a realidade da maioria dos alunos de escola pública, principalmente na era “antes do ENEM”. Eu tinha terminado o ensino médio no noturno do IEEOA em 2006 e meus colegas riam de mim quando eu falava que queria cursar universidade. Era algo muito distante daquela realidade. Na hora de escolher foi bem por eliminação levando em consideração o mercado de emprego. Biblioteconomia era menos concorrido sim, mas tinham outros cursos menos concorridos, mesmo nas licenciaturas, porém avaliando o mercado de trabalho e a remuneração, ser bibliotecária tinha mais possibilidades. E o universo das bibliotecas sempre foi meu interesse. Na faculdade descobri ainda que ser bibliotecária é um mundo muito além das bibliotecas em si e me apaixonei.

 

Portal: Como bibliotecária tu tens feito um grande trabalho na biblioteca municipal. Que atividades são essas ?
O trabalho na biblioteca é um trabalho que às vezes é muito interno, as pessoas talvez não percebam muito. Hoje tenho foco principal no desafio de fazer desencantar a informatização da instituição, que inclui a catalogação e a indexação dos nossos 30 mil volumes, além de melhorar o espaço físico (incluindo melhorar a qualidade do acervo) e desenvolver projetos de incentivo à leitura. Em 2020, com a biblioteca fechada, pintamos as estantes da área adulta e infanto-juvenil, mudamos a disposição do mobiliário pensando na nossa limitada estrutura de climatização e de tomadas, e também  na norma de acessibilidade (NBR 9050) que indica os espaçamentos pelo menos para que cadeirantes possam circular melhor. Também tem a questão da preservação do acervo, que leva em conta a iluminação e a umidade. A parte dos projetos fica muito pelo fortalecimento das redes locais, fazendo ações em parceria com outras instituições e coletivos culturais locais.

Portal: Em época de pandemia os recursos diminuíram ainda mais. Qual é a maior necessidade da biblioteca municipal ?

Nossa biblioteca não tem recursos públicos da gestão no mínimo há 5 anos. Desde 2015 também não cobramos mais o valor simbólico de cadastro e multa, que era o única valor que recebíamos para atualização de acervo. Com isso, na verdade a pandemia não alterou em quase nada esta nossa realidade. Hoje é até difícil eleger uma maior necessidade, são tantas. Mas eu diria que é a modernização e a valorização pela administração pública. A Biblioteca precisa ser valorizada e ter investimento, precisa de cuidados para que possa desempenhar suas funções. A valorização pela sociedade poderia auxiliar, com uma associação de amigos, por exemplo, mas o movimento mais natural é que a sociedade só valorize uma instituição quanto mais envolvida está com ela. Sem investimento, sem acompanhar as mudanças dos tempos, a biblioteca fica afastada da comunidade.

Portal: Como é tua rotina no Centro Cultural ?

Eu sou servidora pública, com 20horas. Minha rotina é dividida entre as atividades que comentei anteriormente, incluindo lixar, pintar, arrastar estante, higienizar livros, catalogar livros, selecionar doações, e também a parte que acho mais interessante, pensar e planejar os projetos, e olha que eu nem fico muito no atendimento. Minhas colegas já sabem, eu adoro um papo sobre livros, literatura, me perco conversando com as pessoas e não preencho direito as fichas, não marco direito as datas (rsrsrs), faço uma bagunça no atendimento. Isso porque ainda estamos realizando os empréstimos manuais. Espero em breve termos um serviço de empréstimo totalmente informatizado.
Então eu agradeço imensamente às minhas colegas que me dão apoio para tocar a biblioteca ativa, agradeço mesmo os que saíram recentemente da equipe do Centro Cultural e Biblioteca, principalmente porque na maioria das vezes fazem atividades que não são suas funções. Só agradecimento e reconhecimento do valor dessas pessoas dentro da minha rotina aqui.

Também gerencio as redes sociais da biblioteca, Instagram e Facebook. Mas gerenciar redes de forma mais criativa, tentar fazer um diferencial e engajar público nas redes sociais consome muito tempo da rotina. Por isso as grandes empresas têm pessoal exclusivo para gerenciamento de conteúdo digital. Estou reavaliando a presença da biblioteca nas redes em razão justamente do tempo que toma da minha vida, que extrapola as 20 horas.

Portal: Como és bibliotecária é óbvio que gostas de leitura. Qual o livro que você está lendo ?
O pior é que tem bibliotecárias que não gostam de leitura. Existem. Mas eu adoro ler, sim. Sou do tipo que lê muitos livros ao mesmo tempo. Terminei no domingo o “Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior. Estou tentando terminar o Big Tech: A ASCENSÃO DOS DADOS E A MORTE DA POLÍTICA, de Evgeny Morozov; Terra nos cabelos, de Tônio Caetano, para uma atividade do SESC Alegrete na próxima segunda-feira dia 24; A guerra não tem rosto de mulher, da bielorussa Svetlana Alexijevich, para o CLube de Leitura Leia Mulheres neste sábado (que faço mediação junto com a professora Ana Lúcia Vargas); estou lendo também aos poucos o livro Pampa e cultura de Fierro a Netto, organizado pela Sandra Pesavento e alguns outros teóricos, mas que nem vou contabilizar. Mas tem livros que travo e levo 1 ano para ler, não gosto de ficar contando quantos livros li, me gera ansiedade isso. Cada um tem seu tempo de ler, cada livro tem o seu tempo na gente.

Portal: Qual a importância das bibliotecas para uma comunidade ?
Essa é a pergunta de um milhão de dólares. É tão óbvia e simples, mas ao tempo tão complexa e difícil de ver na prática. Se considero a Educação e a Cultura e ainda a Democracia importantes, então considero as bibliotecas importantes. Imagina um lugar onde tu pode ter acesso gratuito a todo conhecimento. As pessoas acham que bibliotecas são coisas do passado porque existe a internet, mas as pessoas nem sequer navegam de fato na internet, utilizar o Whatsapp e o Facebook é um uso totalmente superficial e limitado do universo infinito da internet, que é no final das contas, uma grande biblioteca. Desde a grandiosa biblioteca de Alexandria que podemos ter noção da importância de uma biblioteca. Sempre foi a primeira coisa que o conquistador destruía nesses tempos, a biblioteca dos lugares onde chegava.

A importância de uma biblioteca e dos livros percebemos ao pensar na atrocidade que é fechar bibliotecas ou queimar livros. Mas o perigo está em perdermos essa noção e aí, como bem disse o poeta alemão Heinrich Heine: “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.”. Livros aqui eu entendo muito mais como uma metáfora, como algo simbólico, do que o livro físico em si, pois uma biblioteca é o seu lugar físico, mas é também muito além dele.

Portal: O trabalho de uma bibliotecária é essencial em bibliotecas, centros de documentação, e centros de pesquisa. Como tu avalias o aproveitamento desses profissionais em Alegrete?

Alegrete é uma cidade com grande presença de bibliotecárias, temos na Unipampa, no Instituto Federal, na Urcamp. No município eu sou a única bibliotecária, o ideal seria ter 40 horas e ainda uma bibliotecária responsável pelas bibliotecas escolares. A profissão é regulamentada desde a década de 60. Sou também conselheira coordenadora da comissão de fiscalização do Conselho Regional de Biblioteconomia (CRB10). Os conselhos existem para garantir que a sociedade tenha serviços de qualidade nos locais onde há a necessidade de um profissional com conhecimentos específicos. Assim como numa obra é preciso ter alguém da engenharia, da arquitetura, na farmácia é preciso ter farmacêutico, na biblioteca tem que ter bibliotecária, o profissional bacharel em biblioteconomia. Sempre há a possibilidade de o nosso conhecimento como profissional ser melhor aproveitado quanto mais diálogo e visão houver na administração.

Portal: Como bibliotecária, qual a mensagem que tu deixas para os estudantes do Município ?

Eu escrevi uma mensagem para essa pergunta e o computador não salvou, agora é outro dia e vai ser outra. É muita responsabilidade deixar mensagem sem parecer chata.

Eu venho de escola pública, me sinto mais à vontade para falar com estudantes das escolas públicas, mas algumas coisas servem para todo mundo. Mesmo quem não está na escola é estudante da vida e a faculdade é a vida mesmo, como dizem. Entrei na Federal do Rio Grande do Sul por cota de ensino público num tempo que o Enem estava recém surgindo, não tinha essa abertura que tem hoje para fazer uma graduação na universidade pública. Universidade na minha época (eu nem sou tão velha, mas também não sou nova né…) era coisa para rico, para quem saía das escolas particulares aqui de Alegrete, ou para quem tinha dinheiro para pagar cursinhos. Eu até fiz cursinho e mesmo assim, sempre estava atrás. Achava que não era para mim, que nunca iria conseguir. E olha que eu não posso dizer que tenha passado dificuldades na vida como muitas pessoas passam ainda, infelizmente. Meu pai é conhecido na cidade, mas nunca foi rico aqui não, tem gente que pensa que temos dinheiro. Não é bem assim. Mas uma coisa é certo, a mãe e o pai nos deram (pra mim, minhas irmãs..) tudo o que puderam em termos de Educação. Fui muito privilegiada no acesso a livros e incentivada a estudar.

Ás vezes as coisas dão errado, não saem como a gente planejou. Tem dias que a gente cansa das coisas não darem certo, a gente cansa de parecer que anda anda e não sai do lugar. Mas não deixem de acreditar em vocês. Não escutem quem diz que vocês não podem , que não tem capacidade. E, principalmente, leiam. Se questionem, sempre. Ler é um direito! Não é coisa de quem não tem o que fazer, e nem coisa de quem não precisa trabalhar, e nem coisa de gente estranha. Ler é essencial. Nutram seus sentimentos de humanidade. Aproveitem os espaços que possibilitam o acesso ao conhecimento e à arte. E também falo especialmente para as meninas/mulheres estudantes, se hoje estamos nas escolas, podemos ler um livro, falar em público, escrever um livro, isso tudo foi por mulheres que vieram antes de nós, que tiveram muito mais dificuldades e passaram muito mais perrengue. Temos que agradecer, reconhecer e honrar essas lutas. Não tenho medo de usar o termo feminista para me identificar, mesmo sabendo que isso pode me causar diversos desconfortos na vida. Medo eu tenho é de sair sozinha de noite e ser violentada por alguém que não respeita a minha existência. Virar as costas para essas histórias é dar tiro no nosso pé. Nós podemos e merecemos estar nos lugares que nós quisermos. No mais, sejam jovens. É só o que a gente pode ser, ser o nosso melhor no momento presente. Aproveitem, deem risada. Guardem boas lembranças da época do colégio. Eu tenho tantas lembranças boas da minha época de estudante aqui no Oswaldo Aranha e “tô” longe de ter sido uma adolescente/jovem exemplar, que não deu trabalho para os meus pais. Mas estou aqui, assim como vocês podem estar aqui amanhã também. Respeitar pai e mãe, não ser mau caráter, não contribuir com a violência que já existe tanto nesse mundo acho que é o básico. É isso que a gente pode fazer de melhor, viver. 

Júlio Cesar Santos                                       Fotos: arquivo pessoal


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