Alegrete| “Eles fizeram muito além do previsto”: policial grávida relata resgate durante incêndio

O telefone tocou e, do outro lado da linha, estava Nathally Arnold, grávida, dentro de casa, no bairro Ibirapuitã, em Alegrete, enquanto o fogo avançava e a fumaça tornava o ambiente cada vez mais difícil de suportar. A situação havia chegado a um ponto em que já não era possível esperar, e a única alternativa era pedir ajuda. Do outro lado da ligação estava o soldado Eugênio, da Brigada Militar e também marido de Nathally, que naquela noite estava de serviço, no cumprimento de sua função. Ao perceber a gravidade do que estava acontecendo, Eugênio permaneceu na linha com a esposa enquanto comunicava a ocorrência pela rede da corporação. Em poucos instantes, a informação chegou às equipes e duas viaturas iniciaram o deslocamento até a residência. O sargento Silva Santos e o soldado Maurício chegaram primeiro. Logo na sequência, chegaram o soldado Eugênio e a soldado Roslli, ambas as viaturas antes mesmo da chegada do Corpo de Bombeiros. Dentro da casa, Nathally, também policial militar, grávida e sozinha naquele momento, estava cercada pela fumaça e sem conseguir encontrar uma saída segura. Os minutos seguintes transformariam uma ocorrência de incêndio em uma história de coragem, solidariedade, companheirismo e gratidão, daquelas que permanecem na memória muito depois de as sirenes cessarem e a fumaça desaparecer.

Uma das peças da residência já estava em chamas quando Nathally percebeu que a situação havia chegado a um ponto crítico. Sozinha em casa, grávida e encurralada no segundo andar do imóvel, tentou encontrar uma maneira de deixar a residência, mas o fogo e, principalmente, a fumaça dificultavam cada vez mais qualquer tentativa de saída. Em determinado momento, conseguiu chegar até uma janela em busca de ar, mas a fumaça já havia tomado o ambiente e respirar se tornava uma tarefa cada vez mais difícil. Do lado de fora, os policiais encontraram uma situação que exigia uma decisão imediata: uma colega de farda estava presa dentro de uma residência em chamas, grávida e exposta à fumaça, enquanto uma das peças estava tomada pelo fogo. O acesso até Nathally não era simples. Era preciso encontrar rapidamente uma forma de chegar até ela sem perder aqueles minutos que, em uma situação como aquela, poderiam fazer toda a diferença. Para alcançar a policial, os militares precisaram utilizar uma escada posicionada junto ao costado da residência, em uma área próxima ao fogo. O acesso era difícil, o risco era evidente, mas ninguém recuou. Na escada estavam o sargento Silva Santos, o soldado Eugênio e o soldado Maurício, participando ativamente da operação para retirar Nathally da casa. Naquele momento, não havia espaço para hesitação: havia uma vida em risco, uma colega que precisava ser alcançada e uma emergência que exigia ação imediata.

Um vizinho também percebeu a gravidade da situação e passou a ajudar no resgate. Nathally ainda não conseguiu descobrir o nome dele, mas faz questão de reconhecer sua participação naquela noite e a disposição de alguém que, diante de uma emergência, decidiu simplesmente ajudar. Em situações assim, muitas vezes são justamente esses gestos espontâneos, de pessoas que não têm obrigação alguma de estar ali, que acabam fazendo parte da história. A ação dos policiais permitiu que Nathally deixasse a casa antes da chegada dos bombeiros. Na sequência, a equipe do Corpo de Bombeiros chegou ao local e passou a atuar no combate ao incêndio e no atendimento da ocorrência. Nathally faz questão de destacar que a atuação dos bombeiros também foi rápida e eficaz e que os profissionais tiveram papel fundamental no atendimento. O reconhecimento que ela faz aos policiais está especialmente relacionado aos minutos que antecederam a chegada da equipe especializada, quando ela ainda estava dentro da residência e sua condição se tornava cada vez mais difícil. Por ter vivido aquela situação de dentro da casa, Nathally acredita que a chegada antecipada da viatura foi decisiva para o desfecho. “Não sei o que teria acontecido comigo se os guris não tivessem me tirado minutos antes”, relata. A frase ganha ainda mais significado quando ela lembra do estado em que se encontrava naquele momento. “Eu realmente não estava conseguindo respirar mais e o que fez eu ter forças em me manter firme ali foi meu filho”, conta. Em meio ao medo, à fumaça e à sensação de que o tempo estava se esgotando, havia também uma razão muito maior para continuar resistindo: o filho que ainda está para nascer.

Quando Nathally finalmente foi retirada da residência, o trabalho dos policiais ainda não havia terminado. A soldado Roslli voltou à casa para buscar cobertores e, depois, permaneceu ao lado da colega durante todo o atendimento médico, prestando auxílio e acompanhando Nathally enquanto ela recebia os cuidados necessários. O soldado Maurício também voltou sua atenção para aquilo que havia ficado dentro da residência: a cachorrinha de Nathally. O animal ainda estava no interior da casa e foi retirado por Maurício e Roslli, sendo posteriormente levado até a dona. São ações que poderiam parecer pequenas diante da dimensão de um incêndio, mas que, para quem estava vivendo aqueles momentos, representaram muito mais do que isso. Depois de escapar das chamas e da fumaça, saber que havia alguém preocupado com o cobertor, com o atendimento médico e até mesmo com o animal de estimação era uma demonstração de cuidado que ultrapassava aquilo que normalmente se espera de uma ocorrência. Para Nathally, cada um desses gestos ajudou a transformar uma noite de medo em uma lembrança também marcada pela solidariedade e pelo companheirismo.

Enquanto os policiais se deslocavam e depois atuavam diretamente na retirada de Nathally, havia outra profissional trabalhando para que toda aquela resposta acontecesse de forma coordenada. Na Sala de Operações da Brigada Militar estava a soldado Suzeli. Foi ela quem acompanhou a ocorrência pela rede, manteve a comunicação com as viaturas e realizou os acionamentos necessários, incluindo o Corpo de Bombeiros e o Samu. Em uma situação de risco grave e iminente, em que uma colega estava dentro de uma residência em chamas, a tranquilidade e a precisão das informações transmitidas pela rede eram fundamentais para que cada equipe pudesse cumprir sua parte. Nathally conhece esse trabalho de perto. Antes, já havia atuado no atendimento do 190 e sabe que, em uma emergência, a capacidade de ouvir, compreender rapidamente o que está acontecendo, identificar a gravidade da situação e transmitir a informação correta pode ser tão importante quanto a ação que acontece diretamente no local. Naquela noite, Suzeli fez exatamente isso. Enquanto os policiais avançavam para chegar até Nathally, ela mantinha a comunicação organizada, acompanhava o deslocamento das equipes e providenciava os acionamentos necessários para que Bombeiros e Samu também chegassem ao local. Era uma atuação que acontecia longe dos olhos de quem estava na rua, mas que fazia parte da mesma corrente de resposta que ajudou a salvar Nathally e o filho.

A história ganha uma dimensão ainda mais particular porque Nathally também é policial militar. Ela conhece a rotina da profissão, sabe o que significa atender uma ocorrência e compreende os riscos que fazem parte do trabalho de quem veste a farda. Durante sua trajetória, já esteve do outro lado de situações de emergência, como a profissional que chega para prestar auxílio a alguém em dificuldade. Naquela noite, porém, os papéis se inverteram. Ela não era quem chegava para ajudar. Era a pessoa que estava presa dentro de uma casa em chamas, aguardando que alguém encontrasse uma maneira de tirá-la dali. Talvez por conhecer tão bem a profissão, Nathally consiga compreender ainda mais profundamente o significado da atitude dos colegas. Depois do resgate, passou a perceber também a dimensão física do esforço feito naquela noite. Os policiais estavam cobertos de fuligem e haviam inalado fumaça durante a ação, mas permaneceram no local prestando auxílio. Para Nathally, o episódio demonstra que os policiais fizeram mais do que simplesmente cumprir a etapa inicial da ocorrência. “Eles foram impecáveis e fizeram muito além do ‘previsto’”, afirma. E é justamente essa percepção que a levou a procurar o Alegrete Tudo. Nathally não queria que o episódio fosse conhecido apenas como mais um incêndio registrado na cidade, uma ocorrência que aparece nas notícias, chama a atenção por algumas horas e depois desaparece da memória. Ela queria que a população pudesse conhecer o que aconteceu desde os primeiros minutos, quando a viatura chegou ao endereço, até o momento em que foi retirada da residência e continuou recebendo auxílio dos policiais. Queria que também fosse vista a dimensão humana daquela atuação, e não somente aquilo que poderia ser resumido como uma obrigação do serviço policial militar. “Gostaria, dentro do possível, que a população alegretense tivesse conhecimento não apenas de mais um incêndio na cidade, mas sim da mais que excelente atuação dos meus colegas”, afirma.

O pedido tem um significado ainda mais pessoal porque Nathally não está falando sobre uma história que ouviu de terceiros ou sobre uma ocorrência que acompanhou à distância. Ela foi a pessoa retirada daquela casa. Sentiu a fumaça, percebeu a dificuldade para respirar, experimentou o medo de estar encurralada e viu os colegas se aproximarem em uma situação que, segundo seu próprio relato, era extremamente arriscada. Ela sabe o que significa estar dentro de uma ocorrência e, por isso, talvez consiga avaliar de maneira diferente os detalhes que para outras pessoas poderiam passar despercebidos. Sabe o que representa uma viatura chegar alguns minutos antes. Sabe o valor de uma voz tranquila na rede. Sabe o que significa alguém subir uma escada em direção a uma casa tomada pela fumaça. Sabe o que representa alguém voltar para buscar um cobertor, permanecer ao lado de uma colega durante o atendimento e ainda retornar à residência para retirar uma cachorrinha. São detalhes que, somados, revelam uma dimensão da atividade policial que nem sempre aparece quando uma ocorrência é resumida em poucas linhas: a dimensão humana de quem, diante do risco, precisa agir, mas também escolhe cuidar.

O fogo deixou marcas na residência, mas o que ficará na memória de Nathally será principalmente a sequência dos acontecimentos que viveu dentro daquela casa. Ela lembrará da peça em chamas, da fumaça, da tentativa de chegar até a janela, da dificuldade para respirar e do momento em que viu as viaturas chegando. Também lembrará que, enquanto ainda estava presa, havia pessoas do lado de fora tentando encontrar uma maneira de alcançá-la. Seu filho, que ainda não nasceu, não terá memória daquela noite. Um dia, porém, poderá ouvir essa história contada pela própria mãe. Saberá que, antes mesmo de vir ao mundo, esteve no centro de uma situação em que sua mãe precisou lutar para permanecer firme e que, do lado de fora, havia seu pai e outros policiais decididos a avançar para retirá-los daquela casa. Talvez, quando crescer, compreenda que a história de seu nascimento começou antes mesmo de ele chegar ao mundo, em uma noite de fogo, fumaça, medo e, sobretudo, coragem. Saberá também que havia uma rede inteira de pessoas trabalhando para que aquela história tivesse outro final: os policiais que chegaram ao endereço, os profissionais que organizaram os acionamentos, o vizinho que ajudou, os bombeiros que chegaram na sequência, os profissionais do atendimento médico e todos aqueles que, de alguma forma, contribuíram para que mãe e filho saíssem daquela situação em segurança.

Para uma cidade que acompanha tantas histórias de coragem, destacadas pelo Alegrete Tudo há anos, envolvendo homens e mulheres da Brigada Militar, o episódio do Ibirapuitã se soma a essa memória. Mas, para Nathally, representa algo ainda mais íntimo e impossível de ser tratado apenas como uma ocorrência policial: representa a vida dela e a do filho preservadas e uma dívida de gratidão que, segundo suas próprias palavras, ela provavelmente jamais conseguirá pagar. “Eu nunca terei como agradecer a eles o que fizeram por mim e pelo meu filho.” Talvez seja justamente essa frase que melhor traduza o sentimento de alguém que, naquela noite, descobriu de maneira ainda mais profunda o significado da palavra companheirismo. Porque Nathally conhece a farda, conhece a rotina, conhece os riscos e sabe que cada policial que sai para atender uma ocorrência pode, em algum momento, também precisar de ajuda. Naquela noite, os papéis se inverteram. A policial que tantas vezes esteve pronta para atender alguém em perigo foi quem precisou ser resgatada. E os colegas que chegaram para cumprir uma ocorrência acabaram deixando nela uma marca que vai muito além daquele atendimento. “Com toda certeza são muito mais que apenas colegas”, resume. E talvez seja essa a essência de toda a história: em meio ao fogo, à fumaça e à urgência de cada minuto, o que Nathally encontrou não foi apenas uma equipe chegando ao endereço. Encontrou colegas que não hesitaram, uma profissional que manteve a ocorrência organizada à distância, um vizinho que decidiu ajudar, bombeiros que chegaram para combater as chamas e uma corrente humana que fez com que uma noite que poderia ter terminado em tragédia terminasse com mãe e filho vivos. O incêndio passou. A fumaça se dissipou. A casa ficou marcada. Mas algumas lembranças não desaparecerão. Nathally jamais esquecerá a janela onde tentou encontrar ar, a fumaça que já não permitia respirar, a escada pela qual os policiais chegaram até ela, os rostos dos colegas e o momento em que finalmente conseguiu sair. E, principalmente, jamais esquecerá que, naquela noite, enquanto tudo parecia desabar ao seu redor, havia pessoas do outro lado fazendo o possível para chegar até ela. E tudo começou com um telefone tocando.

⚠️Todo conteúdo reproduzido nesta página é exclusivo do Alegrete Tudo e protegido por direitos autorais. É vedada a reprodução total ou parcial sem autorização prévia e expressa, mesmo com a devida citação da fonte.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*