Da superação ao propósito: uruguaianense que adotou Alegrete no coração completa 14 anos de história com a corrida

Entre desafios emocionais, conquistas esportivas e uma profunda transformação pessoal, atleta encontrou na corrida um caminho de recomeço e deu origem à LS Assessoria Esportiva

Há histórias que começam com passos pequenos, quase tímidos, e acabam percorrendo caminhos que jamais poderiam ser imaginados no início. A trajetória da uruguaianense Suelen De Prá Alves que adotou Alegrete no coração é assim: uma história de superação, autoconhecimento e amor pela corrida, que completa 14 anos e mostra como o esporte pode ganhar um significado muito maior do que cruzar uma linha de chegada.

Quando começou a correr, em 2012, ela acreditava que a corrida era algo praticamente impossível. Durante a infância e a adolescência, conviveu com a asma, condição que limitava sua relação com as atividades físicas. Por volta dos 13 anos, com a melhora dos sintomas, começou a experimentar outras possibilidades, participando de atividades como dança, invernada e aulas de Educação Física.

Foi nesse período que descobriu que o movimento poderia fazer parte de sua vida.

Anos depois, em meio a crises intensas de ansiedade e momentos de grande tensão emocional, a corrida surgiu quase naturalmente. Ela já tinha o hábito de caminhar e começou a acrescentar pequenos trotes ao percurso. O que parecia apenas uma experiência nova logo se transformou em algo importante: depois de correr, mesmo por curtas distâncias, sentia a mente mais leve e os pensamentos mais organizados.

Aos poucos, a corrida deixou de ser apenas uma atividade física e passou a integrar sua rotina. O que começou como uma descoberta tornou-se uma companhia constante, capaz de proporcionar novas experiências e transformar sua maneira de enxergar a vida.

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Uma trajetória feita de conquistas, pausas e aprendizados

Ao longo dos 14 anos, a caminhada foi marcada por competições, viagens, amizades e desafios. Mas também houve lesões, períodos de afastamento e momentos em que foi necessário compreender que respeitar os próprios limites é tão importante quanto buscar resultados.

Em 2016, ela enfrentou um período de overtraining, quando o excesso de treinamento e a maneira como utilizava a corrida para lidar com questões emocionais trouxeram consequências para o corpo.

A experiência representou uma mudança importante em sua relação com o esporte. Foi preciso interromper os treinos e reconhecer que algo precisava ser diferente.

A partir dali, a corrida passou a ser encarada com mais consciência. Deixou de representar uma forma de escapar dos problemas e ganhou um novo significado: tornou-se um momento de lazer, autocuidado e compromisso consigo mesma.

A história também revela uma reflexão importante sobre a prática esportiva. Embora a corrida possa contribuir para o bem-estar, ela não substitui o cuidado com a saúde emocional. Encontrar equilíbrio, respeitar os sinais do corpo e buscar apoio quando necessário são atitudes fundamentais para uma relação saudável com o exercício.

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Os primeiros 42 quilômetros e a descoberta do mundo

Com uma nova perspectiva, vieram outras competições e experiências que ampliaram seus horizontes. A corrida passou a ser também uma maneira de conhecer lugares, construir amizades e colecionar histórias.

Em 2017, ela viveu um dos momentos mais marcantes de sua trajetória esportiva: a primeira maratona, disputada em Buenos Aires, na Argentina. Completar os tão sonhados 42 quilômetros representou uma conquista construída a partir de anos de dedicação, aprendizado e persistência.

Depois vieram outras provas e viagens, com passagens por Foz do Iguaçu, Bento Gonçalves, Livramento e pela região de fronteira com Rivera, no Uruguai.

Cada experiência acrescentou novas lembranças a uma trajetória que passou a ser medida não apenas em quilômetros, tempos e medalhas, mas também pelas pessoas conhecidas, pelos lugares descobertos e pelas transformações vividas ao longo do caminho.

2022: um ano que mudou sua história

Se a corrida já havia ensinado muito sobre persistência, foi em 2022 que a vida apresentou um dos desafios mais profundos de sua trajetória.

Durante uma investigação médica motivada pela suspeita de uma lesão oncológica, ela recebeu posteriormente a confirmação de que não era câncer. Os exames, porém, identificaram uma endometriose profunda, doença com a qual já convivia e que havia se agravado mesmo após uma cirurgia realizada em 2017.

O quadro evoluiu com complicações renais e outros problemas de saúde, exigindo uma decisão médica difícil. Para preservar a própria vida, foi submetida a uma histerectomia, com retirada do útero e dos ovários.

Além dos impactos físicos, o processo trouxe desafios emocionais e a necessidade de elaborar perdas e reconstruir planos para o futuro.

A impossibilidade de gestar um filho, em particular, representou um luto que precisou ser vivido. É uma dimensão delicada da experiência de muitas mulheres, especialmente em uma sociedade na qual a maternidade ainda é frequentemente associada à gestação.

Sua história também chama a atenção para a importância de falar sobre a endometriose e outras condições ginecológicas, valorizando os sintomas, a investigação médica e o acesso ao tratamento adequado.

A experiência não resume sua trajetória, mas constitui um capítulo decisivo de sua vida, que exigiu coragem, apoio e uma nova maneira de olhar para si mesma.

A corrida como caminho de recomeço

Após a cirurgia, ela voltou aos treinos ainda em 2022. Dessa vez, a corrida tinha um significado diferente.

Não se tratava apenas de melhorar o condicionamento físico, buscar tempos ou participar de competições. Era também uma maneira de retomar a rotina, reconstruir a autoestima e cultivar o autocuidado depois de um período de profundas mudanças.

Foi nesse contexto que nasceu a LS Assessoria Esportiva, projeto construído por ela e por Léo.Era 2023, quando ela chegou em Alegrete, para trilhar mais uma caminhada de sua vida.

Ela conta que, a iniciativa surgiu em uma fase difícil da vida dos dois, mas ganhou forma a partir de algo que já fazia parte de sua história: o esporte como espaço de transformação, convivência e novas possibilidades.

Su, como é carinhosamente chamada, costuma descrever a LS como um filho do casal, que não nasceu do ventre, mas do esporte e da corrida. A comparação traduz o vínculo afetivo com o projeto e o significado que ele assumiu em suas vidas. Mais do que representar uma nova etapa profissional, a assessoria simboliza a possibilidade de transformar experiências pessoais em um projeto compartilhado, capaz de aproximar outras pessoas do universo da corrida.

Quando correr passa a ter um propósito

Hoje, aos 44 anos, ela admite que a relação com a corrida vai muito além do desempenho esportivo. “Ela está ligada à liberdade, às amizades, aos desafios cotidianos e à oportunidade de descobrir novas capacidades”, destaca.

A experiência ensinou que superar não significa necessariamente vencer uma prova, conquistar uma medalha ou alcançar determinado tempo.

“Às vezes, superar é voltar depois de uma lesão. É recomeçar após uma cirurgia. É respeitar o próprio ritmo. É conseguir sair de casa em um dia difícil ou completar cinco quilômetros quando, no início, correr parecia impossível. Em muitos momentos, superar significa simplesmente continuar”, ensina.

É exatamente essa compreensão que orienta sua maneira de enxergar o esporte e de incentivar outras pessoas a experimentar a corrida. “Não é necessário começar com equipamentos caros, grandes metas ou a ambição de completar uma maratona. O primeiro passo pode ser apenas a vontade de descobrir uma nova possibilidade”, complementa.

Quarentona, ela não pensa em abandonar as pistas e as ruas. Pelo contrário, deseja continuar vivendo as experiências que a corrida ainda poderá proporcionar. E, ao compartilhar sua história, reforça uma mensagem que vai além do esporte: cada pessoa tem seu próprio ritmo, seus limites e suas razões para começar.

Uma história que também é de Alegrete

Uruguaianense de origem e alegretense de coração, ela construiu uma relação com a cidade que também faz parte de sua trajetória. É em Alegrete que sua história se conecta ao desenvolvimento de um projeto esportivo e à convivência com pessoas que compartilham a paixão pela corrida.

Seus 14 anos no esporte mostram que uma prática inicialmente considerada impossível pode se transformar em um caminho de descobertas, aprendizado e propósito. Uma trajetória que reúne conquistas, dificuldades, recomeços e a disposição de continuar em movimento.

Ao olhar para trás, ela reconhece o quanto a corrida transformou sua vida. Ao olhar para a frente, enxerga novas possibilidades. Sua mensagem para quem ainda não corre é simples – experimente. Não pelos outros, não para provar alguma coisa, mas por você.

Porque, para ela, a corrida de rua tem o poder de transformar vidas — desde que faça sentido para quem está correndo.

Depois de 14 anos, a maior conquista de Su, talvez não esteja nos 42 quilômetros de uma maratona ou nas medalhas acumuladas, mas na certeza de que sempre é possível recomeçar. Afinal, como ela mesmo diz: correr não é apenas sobre chegar mais longe. É também sobre descobrir a própria capacidade de seguir em frente.

Fotos: acervo pessoal

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