Há dois anos em Alegrete, Carine Borges trouxe para a cidade o Pernas Solidárias, ajudou a transformar a experiência vivida ao lado da filha Beatriz em política pública e agora se emociona ao descobrir que a iniciativa começa a inspirar outros municípios brasileiros
Há histórias que começam em um lugar de dor e, depois de percorrerem caminhos inesperados, acabam produzindo mudanças que ultrapassam a vida de quem as protagonizou. A história de Carine Borges é uma delas. Mãe de Beatriz, mulher, cuidadora e atleta, ela chegou a Alegrete depois de anos vivendo em Santa Catarina e trouxe consigo muito mais do que lembranças. Trouxe uma experiência construída ao lado da filha, uma forma diferente de enxergar a deficiência e a convicção de que o esporte poderia ser uma porta de entrada para algo maior: pertencimento, convivência, autoestima e cidadania. Foi dessa trajetória que nasceu em Alegrete o Pernas Solidárias e, posteriormente, uma iniciativa que transformaria uma experiência pessoal em política pública: a Lei Beatriz.
Um ano depois de sua criação, a legislação que leva o nome da filha de Carine representa uma das principais conquistas construídas em Alegrete na área da inclusão esportiva. A lei institui diretrizes para garantir a participação de pessoas com deficiência nas provas de corrida de rua realizadas no município. Mais do que estabelecer uma categoria nas competições, ela cria mecanismos para que a presença dos atletas PCD deixe de depender exclusivamente da boa vontade de organizadores e passe a fazer parte da estrutura das provas. A legislação prevê a inclusão da categoria PCD, reserva de vagas, gratuidade para atletas com deficiência e medidas de acessibilidade, além de contemplar uma figura fundamental para que muitos desses atletas possam participar: o guia. A norma garante também a isenção da inscrição para o atleta voluntário que conduz o participante cadeirante.
A Lei Beatriz é oficialmente a Lei Municipal nº 6.903. Um detalhe importante para o registro histórico: embora a celebração pública esteja sendo associada ao mês de agosto de 2026 e a família faça referência ao aniversário da lei, o texto oficial disponível na Câmara Municipal registra a sanção/publicação em 29 de agosto de 2025. É essa data que deve ser considerada para o aniversário legal da legislação. A própria norma estabelece que ela recebe o nome de Lei Beatriz em homenagem a Beatriz Borges e à sua mãe, reconhecidas como pioneiras na corrida de rua adaptada no município.
Mas para entender o significado dessa lei é preciso voltar alguns anos no tempo. Antes de existir uma legislação, existia uma mãe tentando encontrar caminhos para proporcionar à filha experiências que muitas famílias de pessoas com deficiência sabem o quanto podem ser difíceis. Beatriz, filha de Carine, é uma pessoa com deficiência e sua trajetória ao lado da mãe passou a ser construída também através do esporte. Em Santa Catarina, Carine conheceu o Pernas Solidárias e passou a conduzir a filha nas corridas. O projeto havia surgido em Joinville, em 2015, a partir de uma iniciativa de Cleiton Luiz Tamazzia, que conduziu o primo Rodrigo Tamazzia, cadeirante, em uma corrida de rua. A experiência deu origem ao movimento, que posteriormente se espalhou por diferentes estados brasileiros.
Carine viveu essa experiência de maneira intensa. A corrida, segundo seu próprio relato, não significou apenas atividade física. Ela representou uma mudança de vida. Depois de um período marcado por depressão, obesidade e dedicação praticamente integral aos cuidados da filha, encontrou no esporte uma possibilidade de reconstrução pessoal. A relação entre mãe e filha, que poderia ser vista apenas sob a perspectiva das limitações impostas pela deficiência, passou a ser também uma história de conquistas, viagens, provas, medalhas, encontros e superação. Em uma reportagem publicada em 2025, Carine relatou que já havia participado com Beatriz de mais de 100 corridas e conquistado troféus em diferentes competições.
Foi nesse contexto que a mudança para Alegrete ganhou um significado especial. Carine voltou para a cidade natal e, há cerca de dois anos, trouxe consigo a experiência que havia adquirido em Santa Catarina. Não queria apenas continuar correndo com a filha. Queria fazer com que outras famílias tivessem a oportunidade de descobrir aquilo que ela própria havia descoberto. O Pernas Solidárias passou, então, a ser construído em Alegrete como uma rede de inclusão. A proposta era simples na essência, mas profunda em seus efeitos: permitir que pessoas com deficiência participassem de corridas de rua com seus familiares, condutores e voluntários, ocupando espaços que muitas vezes lhes eram negados ou simplesmente não eram pensados para elas.
A primeira participação do Pernas Solidárias em uma corrida em Alegrete ocorreu em junho de 2025. Mais de dez pessoas com deficiência física, visual e intelectual participaram da prova, em uma iniciativa que contou com a inclusão da categoria PCD e com adaptações para os atletas e seus condutores. Naquele momento, o movimento começava a deixar de ser uma experiência particular de Carine e Beatriz para se tornar uma realidade coletiva na cidade.
A transformação foi rápida. Em setembro de 2025, o grupo de Alegrete já se preparava para representar o município e o Rio Grande do Sul em uma grande corrida inclusiva em Joinville. Cerca de 40 pessoas, entre atletas PCD e familiares, viajaram para Santa Catarina. A competição reuniria aproximadamente 2 mil participantes e 250 cadeirantes, e o grupo alegretense era apresentado como o único do Estado utilizando o modelo do Pernas Solidárias com triciclos adaptados.
A trajetória de Carine também passou a representar uma mudança na própria maneira como ela se enxergava. Durante quatro anos, sua principal experiência nas provas era correr ao lado da filha. Em novembro de 2025, ela decidiu fazer algo que parecia simples, mas carregava enorme significado pessoal: participar de uma corrida sozinha. Terminou em quarto lugar em sua categoria. A experiência mostrou que a mãe cuidadora também precisava encontrar espaço para si mesma. A mulher que durante anos havia colocado as necessidades da filha no centro da própria vida descobria que cuidar também poderia significar permitir-se viver, competir e realizar seus próprios sonhos.
É justamente nessa trajetória que a expressão “depois da tempestade, sempre vem o sol” ganha força. Não como uma frase pronta de superação, mas como uma síntese de uma experiência concreta. Carine sabe o que significa enfrentar as dificuldades de uma mãe solo atípica. Sabe o peso das responsabilidades, das incertezas e das escolhas que muitas vezes precisam ser feitas diariamente. A história de Beatriz também passou por momentos delicados, inclusive quando a filha entrou em cuidados paliativos. Foi diante dessas circunstâncias que Carine deixou Santa Catarina e retornou a Alegrete. A cidade que havia ficado no passado tornou-se o lugar onde ela decidiu recomeçar e, sobretudo, transformar aquilo que havia aprendido em uma possibilidade para outras famílias.
A Lei Beatriz nasceu exatamente desse encontro entre experiência pessoal e ação coletiva. O projeto foi construído por Carine em conjunto com a vereadora Carolina Figueiredo, transformando em legislação aquilo que o Pernas Solidárias já demonstrava na prática. A proposta não era criar um privilégio para um grupo específico, mas corrigir uma desigualdade que durante muito tempo permaneceu invisível: não basta permitir que uma pessoa com deficiência participe de uma corrida se toda a estrutura da competição foi pensada exclusivamente para pessoas sem deficiência.
Por isso, a lei vai além da simples criação de uma categoria. A legislação determina diretrizes para que as provas tenham condições de receber atletas PCD, incluindo reserva de vagas e mecanismos de acessibilidade. A gratuidade para o atleta com deficiência reduz uma barreira econômica que poderia impedir a participação. E a inclusão do guia na isenção é especialmente relevante porque, em determinados casos, a participação do atleta PCD depende diretamente de outra pessoa. Sem o guia, o atleta simplesmente não consegue completar a prova. Ao reconhecer esse voluntário, a lei reconhece também que inclusão, muitas vezes, é uma construção feita por duas pessoas que chegam juntas à linha de largada e à linha de chegada.
Essa é uma das principais diferenças entre simplesmente permitir e efetivamente incluir. A permissão diz que o atleta PCD pode estar na corrida. A inclusão pergunta o que é necessário para que ele realmente consiga estar lá, competir e ser reconhecido como atleta.
E é justamente essa experiência construída em Alegrete que começa a ganhar uma dimensão que Carine talvez não imaginasse quando chegou à cidade. Segundo o relato que acompanha a celebração de um ano da Lei Beatriz, representantes de municípios de Minas Gerais entraram em contato para conhecer a legislação alegretense e entender como o modelo foi construído. A informação é especialmente significativa porque mostra que uma iniciativa surgida em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul passou a ser observada fora do Estado.
A apuração, porém, exige cuidado jornalístico: até o momento não foi possível confirmar em fontes oficiais disponíveis que os quatro municípios mineiros sejam exatamente Pouso Alegre, Varginha, Poços de Caldas e Três Corações, nem que todos já tenham aprovado legislação diretamente inspirada na Lei Beatriz. Há registros públicos de atividades e políticas de inclusão nesses municípios, mas isso não é suficiente para afirmar que tenham adotado o modelo alegretense. Essa informação deve ser confirmada diretamente com Carine, com os responsáveis pelos projetos e, principalmente, com as câmaras municipais antes de ser publicada como fato.
O que já pode ser afirmado é que a experiência de Alegrete ultrapassou a discussão local. Em 2026, uma iniciativa no Rio Grande do Sul passou a propor uma política estadual voltada à inclusão de atletas PCD nas corridas de rua, tendo a experiência da Lei Beatriz como referência. O movimento mostra que uma experiência municipal pode funcionar como laboratório de uma política pública mais ampla: aquilo que começou com uma mãe conduzindo a filha em um triciclo pode chegar à discussão sobre como o Estado deve garantir o direito à participação esportiva.
Mas talvez o maior legado da Lei Beatriz não esteja apenas nos números, nas inscrições gratuitas ou nas vagas reservadas. Está na mudança de perspectiva. Uma criança, um jovem ou um adulto com deficiência que entra em uma corrida deixa de ser apenas espectador. Ele passa a ser atleta. A família que acompanha deixa de estar à margem do evento e passa a fazer parte dele. O guia deixa de ser uma pessoa anônima que empurra ou conduz um participante e passa a ser reconhecido como parte fundamental daquela experiência.
A evolução também pode ser percebida no próprio crescimento do Pernas Solidárias em Alegrete. Em poucos meses, o grupo saiu de uma iniciativa recém-chegada à cidade para uma estrutura capaz de reunir atletas, familiares e voluntários em viagens para outras cidades e Estados. Em dezembro de 2025, Carine e Beatriz já acumulavam 101 corridas e 15 troféus, em provas que variavam de 3 a 21 quilômetros.
Essa trajetória ajuda a compreender por que o aniversário da lei emociona tanto Carine. Não se trata apenas de comemorar uma legislação. É olhar para trás e perceber que aquilo que um dia pareceu uma luta particular ganhou nome, forma e força institucional. Beatriz passou a dar nome a uma lei. Carine passou a ser reconhecida como alguém que ajudou a construir uma nova realidade para atletas PCD em Alegrete. E o Pernas Solidárias deixou de ser apenas uma lembrança de Santa Catarina para se tornar parte da identidade esportiva e social do município.
Há também uma dimensão que não aparece nos textos legais. Uma mãe que precisou aprender a lutar por espaços para a filha acabou abrindo caminhos para outras mães. E talvez seja essa a parte mais poderosa da história: Carine não conseguiu eliminar as dificuldades da maternidade atípica, nem transformar a deficiência em algo que deixou de exigir cuidados. O que ela conseguiu foi transformar a maneira de enfrentar essas dificuldades. Em vez de esconder a deficiência, colocou-a na rua. Em vez de esperar que as estruturas mudassem sozinhas, ajudou a criar uma lei. Em vez de correr apenas por Beatriz, passou a correr também por todas as famílias que ainda estavam esperando uma oportunidade.
A Lei Beatriz, portanto, não nasceu dentro de um gabinete. Ela nasceu na experiência cotidiana de uma mãe e de uma filha. Nasceu nas ruas, nas corridas, nos treinos, nos encontros, nas dificuldades e nas conquistas. A política pública veio depois, para transformar aquela experiência em direito.
Um ano depois, a pergunta já não é apenas o que a Lei Beatriz mudou em Alegrete. A pergunta começa a ser outra: até onde uma ideia nascida em Alegrete pode chegar?
Carine parece ter encontrado a resposta no caminho. Ela saiu de Santa Catarina carregando uma história difícil, chegou à cidade com a experiência do Pernas Solidárias e ajudou a construir uma legislação que hoje desperta interesse além das fronteiras do município. E enquanto outras cidades começam a olhar para o exemplo alegretense, ela continua correndo.
Corre pela filha. Corre por outras famílias. Corre pela própria vida.
E, depois de tudo o que enfrentou, talvez a imagem mais adequada para definir essa história seja justamente a que Carine carrega consigo: depois da tempestade, sempre vem o sol.
No caso dela, o sol não chegou de uma vez. Foi aparecendo aos poucos, a cada corrida, a cada abraço, a cada troféu, a cada família que descobriu que também poderia participar. Até que, um dia, transformou-se em lei.

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