Patrick Ribeiro cresceu entre a cultura dos CTGs, a música, a dança e a convivência com o tradicionalismo em Alegrete. Filho de Feliciano Rodrigues Ribeiro Neto, patrão do CTG Honório Lemes, da localidade do Cavera, ele encontrou em Portugal uma forma de manter viva a identidade que aprendeu ainda na infância. Hoje, integra a patronagem do Piquete Querência da Saudade, em Braga, que prepara um dos maiores encontros da cultura gaúcha realizados na região.
A mais de 9 mil quilômetros de Alegrete, onde o horizonte da campanha e os costumes campeiros ajudaram a moldar sua identidade, Patrick Ribeiro encontrou uma maneira de diminuir a distância que separa o Rio Grande do Sul de Portugal. Em meio a uma comunidade formada por brasileiros de diferentes regiões e portugueses que passaram a se aproximar da cultura gaúcha, o alegretense ajudou a transformar saudade em convivência e memória em tradição. Integrante da patronagem e fundador do Piquete Querência da Saudade, na região de Braga, Patrick participa da organização de um festejo que, em setembro, deverá reunir mais de 700 pessoas para celebrar a Semana Farroupilha e o 20 de Setembro.
A história, porém, começou muito antes de Portugal. Começou em Alegrete e dentro de casa.

A relação de Patrick com o tradicionalismo está diretamente ligada à trajetória do pai, Feliciano Rodrigues Ribeiro Neto, figura ligada ao meio tradicionalista alegretense. Feliciano é patrão do CTG Honório Lemes, da localidade do Cavera, entidade que mantém vivas as tradições gaúchas e a cultura campeira. Foi nesse ambiente de convivência com o tradicionalismo que Patrick teve contato, desde cedo, com os costumes, a música, a dança e os valores da cultura gaúcha.
Foi nesse ambiente que Patrick cresceu.
Desde menino, esteve próximo dos cavalos, da música, das danças e das atividades tradicionalistas. Dançou em CTG e integrou o grupo Tropeiros da Tradição, de Alegrete. Mais do que uma atividade cultural, o tradicionalismo acabou se tornando parte de sua formação e uma espécie de linguagem familiar, passada de uma geração para outra. A influência do pai não aparece apenas como uma lembrança de infância, mas como uma marca que acompanhou Patrick mesmo quando a vida o levou para longe da Fronteira Oeste.

Em 2010, essa ligação ganhou uma dimensão inesperada. Patrick viajou pela primeira vez a Portugal com o grupo Tropeiros da Tradição para uma apresentação. A experiência deixou uma referência que permaneceria na memória. Anos depois, em 2019, ele retornaria ao país, desta vez para morar.
A mudança tinha razões práticas. Patrick buscava novas experiências e maior segurança para a família. Mas, junto com as malas, carregava uma preocupação que muitos brasileiros que vivem no exterior conhecem bem: como preservar, longe de casa, aquilo que ajudou a formar quem se é?
“Desde que cheguei aqui, queria criar algo ligado ao tradicionalismo, inicialmente para mantermos essas tradições entre os amigos e para que nossos filhos soubessem de onde viemos”, conta Patrick.
Foi justamente a saudade que aproximou os primeiros integrantes do grupo. Durante o Dia do Brasil, em Braga, Patrick encontrou outros gaúchos que viviam na região. Em meio a brasileiros de diferentes origens, algumas referências funcionaram como um código imediato de reconhecimento. Camisetas de Grêmio e Internacional ajudaram a identificar os conterrâneos. Vieram as conversas, as lembranças e, no dia seguinte, um convite para um churrasco durante a Semana Farroupilha.
Cerca de 30 pessoas participaram daquele primeiro encontro, realizado às margens de um rio. Enquanto Patrick assava a carne ao lado de William Viana, os dois começaram a discutir a possibilidade de criar uma organização que pudesse reunir os gaúchos e manter vivas, em território português, as tradições trazidas do Sul do Brasil.
A ideia inicial era criar um CTG. A burocracia e a estrutura necessária, entretanto, fizeram o grupo optar por um formato mais simples: um piquete.

O nome escolhido parecia traduzir exatamente o sentimento daqueles homens e mulheres que haviam deixado o Rio Grande para viver em outro país: Piquete Querência da Saudade.
A palavra “querência”, tão carregada de significado para o gaúcho, encontrou na “saudade” a expressão do sentimento de quem está longe da terra natal. O que começou como uma reunião entre amigos foi crescendo, atraindo brasileiros de outros Estados, portugueses e pessoas de diferentes nacionalidades interessadas em conhecer uma cultura que, para muitos deles, era completamente nova.
O próprio Piquete Querência da Saudade apresenta Patrick Ribeiro como integrante da patronagem e um dos fundadores da entidade. Entre os fundadores estão também Wylliam Viana, Alexandro Maffei, Edson Wasen, Elizandro Bueno, Joscemar Morais e Élido Martins Costa Moreira.
O crescimento foi gradual, mas consistente. Em 2025, o encontro já reunia mais de 350 pessoas. Para 2026, a expectativa é ainda maior: mais de 700 participantes são aguardados no evento marcado para 19 de setembro, na Fábrica da Letra, em Vila Verde, Braga.
A programação terá chama crioula, chimarrão, gastronomia típica e churrasco, com costela, carne de porco e linguiça campeira, além de baile com o Grupo Longe do Sul. O piquete também prepara um Acampamento Farroupilha entre os dias 18 e 20 de setembro, transformando a celebração em um fim de semana dedicado à cultura gaúcha.
“Isso tomou uma proporção que não esperávamos. Hoje conseguimos proporcionar um pouco desse afago às pessoas que estão longe e sentem falta das coisas da nossa terra”, afirma Patrick.
Para quem vive longe do Rio Grande do Sul, determinadas coisas adquirem um significado que talvez não tivessem quando estavam ao alcance das mãos. O chimarrão deixa de ser apenas uma bebida. O churrasco passa a carregar o cheiro da infância. Uma música pode transformar, em poucos minutos, uma distância de milhares de quilômetros em uma lembrança quase física da terra natal.
É nesse território afetivo que Alegrete permanece presente na vida de Patrick.
Mesmo vivendo há anos em Portugal, ele mantém os vínculos com a cidade onde nasceu, com familiares, amigos e, principalmente, com as referências culturais que ajudaram a construir sua identidade. Entre essas referências está a música.
Poucas canções têm, para um alegretense, a força de Canto Alegretense. A composição de Nico Fagundes e Bagre Fagundes transformou a relação afetiva com Alegrete em um dos mais conhecidos símbolos musicais do Rio Grande do Sul. Longe da cidade, porém, a música ganha outra dimensão.
Ouvir seus versos em Portugal é, para Patrick, uma espécie de retorno momentâneo.
Porque o objetivo do Piquete Querência da Saudade nunca foi simplesmente reproduzir um pedaço do Rio Grande em solo português. A preocupação maior está em transmitir uma herança cultural para aqueles que nasceram ou estão crescendo longe da terra de seus pais.
“Queríamos preservar as nossas coisas de gaúcho para que nossos filhos também tivessem essa percepção de que a nossa terra tem uma tradição muito bonita. No início, pensávamos em fazer isso no nosso próprio meio. Mas a proporção que tudo tomou foi muito além do que imaginávamos”, afirma.
A frase resume uma transformação que talvez nem os primeiros integrantes daquele churrasco às margens de um rio imaginassem.
O piquete deixou de ser apenas um ponto de encontro de gaúchos. Tornou-se uma espécie de ponte cultural. De um lado, brasileiros que carregam a saudade do Sul. Do outro, portugueses e pessoas de outras nacionalidades que descobrem, por meio da música, da gastronomia, do chimarrão e da convivência, uma cultura marcada pela vida campeira, pela hospitalidade e pelo sentimento de pertencimento.
Entre tantas histórias construídas desde aquele primeiro churrasco, uma cena permanece especialmente viva na memória de Patrick.
Foi durante o festejo do ano passado, quando o Hino Rio-Grandense começou a ser executado.
Gaúchos que haviam deixado o Estado, brasileiros de outras regiões e portugueses estavam reunidos no mesmo espaço. Então, pouco a pouco, as vozes começaram a se juntar.
Patrick conta que, naquele instante, a distância pareceu desaparecer.
“Por um momento, parecia que não estávamos em Portugal. Foi muito emocionante ver todos cantando o hino. Tenho certeza de que trouxe a todos nós, gaúchos, muitas lembranças do Rio Grande do Sul”, recorda.
Talvez seja essa a melhor definição do que o Piquete Querência da Saudade representa.
Não é apenas uma entidade criada por gaúchos que vivem longe. É uma tentativa de preservar uma memória coletiva. Uma maneira de dizer aos filhos que cresceram ou crescerão em outro país que existe uma terra anterior àquela onde nasceram, uma história familiar e uma cultura que ajudaram a formar seus pais.
E, para Patrick Ribeiro, essa história tem um endereço muito preciso.
Alegrete.
Foi ali que começou a convivência com o tradicionalismo. Foi ali que o pai, Feliciano Rodrigues Ribeiro Neto, patrão do CTG Honório Lemes, da localidade do Cavera, ajudou a construir sua relação com a cultura gaúcha. Foi ali que ele dançou, cantou e aprendeu que tradição não é apenas aquilo que se guarda, mas aquilo que se transmite.
Agora, a milhares de quilômetros de distância, Patrick faz exatamente isso.
Leva adiante uma herança recebida dentro de casa e construída nas entidades tradicionalistas de Alegrete. Uma herança que atravessou o Atlântico e encontrou, em Portugal, um novo lugar para existir.
E talvez seja por isso que, quando os acordes de Canto Alegretense ecoam entre portugueses e brasileiros na região de Braga, a distância entre Portugal e Alegrete pareça, por alguns minutos, deixar de existir.
Porque há lugares dos quais uma pessoa pode partir.
Mas há lugares que continuam viajando com ela.
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Fotos: Ana Beatriz


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