Entre perdas e recomeços, a difícil travessia de quem enfrenta a dor de muitas ausências

O Dia de Finados é, tradicionalmente, uma data de lembranças, homenagens e saudade. Um momento em que a ausência de quem partiu ganha ainda mais significado e em que cada pessoa revisita, à sua maneira, histórias, afetos e momentos que permanecem vivos na memória.

Mas a morte nem sempre representa apenas a despedida. Há perdas que chegam de maneira inesperada, interrompem histórias, desestruturam famílias e deixam marcas que o tempo não consegue apagar. Há dores que não passam, apenas encontram novas formas de conviver com a vida.

Neste 2 de novembro, Dia de Finados, o Alegrete Tudo propõe uma reflexão que vai além das homenagens. Vamos falar sobre o luto, a dor da perda, os impactos emocionais de despedidas sucessivas e, sobretudo, a resiliência necessária para continuar vivendo depois de experiências que mudam tudo.

Para abordar esse tema, ouvimos o jornalista e vereador Paulo Berquó, que durante a pandemia da Covid-19 enfrentou uma sequência devastadora de perdas familiares em um intervalo muito curto de tempo. Foram mortes, despedidas que não puderam acontecer, o medo, a impotência e uma ruptura profunda na rotina e na estrutura familiar.

Em um relato pessoal, forte e comovente, Paulo revisita aqueles anos assustadores, fala sobre as consequências que permanecem, sobre a saudade e sobre a maneira como encontrou forças para seguir em frente.

Sua história é também um retrato de tantas famílias que atravessaram a pandemia e ainda convivem com as marcas deixadas por aquele período. Acompanhe o relato:

A passagem da grande dor

A pandemia foi um divisor de águas em milhares de famílias. A nossa foi atingida de forma avassaladora.

O meu cunhado Sebastião, casado com Tanira, contraiu a Covid-19 em plena atividade profissional. Fisioterapeuta da Santa Casa, foi o primeiro profissional da área da saúde em Alegrete a falecer.

Foi um choque. Sebastião não fumava, não tinha comorbidades, caminhava muito… Foi a demonstração de que definitivamente não era uma “gripezinha”.

Desde então, na casa da minha mãe, a professora Lenira Berquó, foi montada uma verdadeira operação de proteção. Ela com vários problemas de saúde. João, seu eterno companheiro, com Parkinson e quase 90 anos. Sabíamos que, se fossem contaminados, não resistiriam.

E foram contaminados justamente por uma cuidadora, que também ela se contaminara através do filho adolescente.

A mãe, umas duas semanas antes de falecer, havia enterrado um filho. Paulo André, meu irmão, casado com uma médica, a Dra. Stela, ainda não havia tomado vacina. Aguardava a hora, naquela lista de pessoas prioritárias, em meio ao caos e ao atraso nas aquisições das vacinas. Em meio ao medo e ao caos, um negacionismo inacreditável.

João, nosso padrasto, faleceu um dia depois da mãe. Os dois dividiram a UTI lado a lado, entubados.

A mãe criou outra moça como filha, a Elaine. A mãe biológica dela também faleceu de Covid.

Foram anos assustadores e os reflexos serão para sempre.

Tanira, Paulo Amaro e eu, os que sobrevivemos, tivemos que recomeçar.

De uma hora para outra, deixa de existir uma vida, uma rotina, já que tudo girava em torno da mãe.

A casa cheia, filhos, genro, noras, netos…

Essa vida encerrada de forma injusta e cruel.

Ao enterro da mãe, eu sequer pude comparecer. Estava também com Covid, depois de vários “entra e sai” na ala da Santa Casa, onde filas de positivados revezavam respiradores.

Não havia profissionais suficientes pra tanta gente.

Quando levamos a mãe, ficamos minha irmã e eu com ela numa maca, aguardando a remoção pra UTI. Sabíamos ali que não voltaria.

Os exemplos do poder avassalador do vírus já nos haviam sido apresentados de forma muito dura nos óbitos do Sebastião e Paulo André.

Muito mais jovens que ela e João.

Nenhum deles teve velório, despedida, encomendação de corpo. Nada.

Ensacados e direto ao túmulo.

Enquanto isso, carreatas na cidade pediam que o comércio reabrisse.

Uma inversão absurda de valores.

Hoje, resta a saudade. Muita saudade.

E todos os reflexos de quem enfrenta a passagem de uma grande dor.

Foram anos sem sono. Sempre à espera do celular chamar e o medo do que quase se adivinhava.

Cada um dos filhos enfrenta da sua forma.

Eu decidi não desistir.

Mas o som de qualquer vibração de celular virou reflexo condicionado. Eu até brinco que sofro microinfartos diários.

Pra tocar a vida, muito Rivotril.

E tudo, absolutamente tudo o que faço ou penso ou falo, tem a presença deles.

A morte é a única certeza.

O que é tremendamente injusto é a forma como tudo aconteceu.

Não tem como esquecer, nem superar…

Apenas seguir em frente

⚠️Todo conteúdo reproduzido nesta página é exclusivo do Alegrete Tudo e protegido por direitos autorais. É vedada a reprodução total ou parcial sem autorização prévia e expressa, mesmo com a devida citação da fonte.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*