Grupos musicais de Alegrete e Fronteira Oeste levam a identidade gaúcha para a Expointer

Os Chacreiros, de Alegrete, Grupo Carqueja, Projeto Taureando e Paulo Dias Garcia representam uma geração que encontra na música de campo uma forma de preservar histórias, renovar linguagens e alcançar novos públicos.

ESTEIO — Entre máquinas, animais, negócios, tradição e milhares de visitantes, a Expointer também revela um Rio Grande do Sul que se expressa pela música. Quando as cordeonas começam a atravessar os espaços do Parque Estadual de Exposições Assis Brasil, em Esteio, a maior feira agropecuária do Estado ganha outra dimensão: transforma-se também em palco para histórias, memórias e diferentes formas de representar a cultura gaúcha. Na edição de 2026, realizada de 29 de agosto a 6 de setembro, a programação musical reúne mais de 40 atrações de música e dança, predominantemente vinculadas à cultura nativista, colocando lado a lado artistas consagrados e nomes que representam uma nova geração da produção regional.

É nesse cenário que aparecem nomes ligados à Fronteira Oeste e à Campanha, regiões onde a música ultrapassa a condição de entretenimento para assumir o papel de linguagem, identidade e memória. Entre os destaques apresentados no material estão Os Chacreiros, de Alegrete, Grupo Carqueja, Projeto Taureando e Paulo Dias Garcia. São trajetórias distintas, com formações e experiências próprias, mas que compartilham uma mesma paisagem cultural e uma preocupação semelhante: manter viva a tradição sem transformá-la em algo estático, distante das novas gerações e dos novos públicos.

A própria programação da Expointer demonstra que a música regional continua encontrando espaço em um dos maiores eventos do Estado. No dia 1º de setembro, Os Chacreiros estiveram na programação do Projeto Estrada Cultural, às 15h30, ao lado de atrações como Pedro Ernesto Denardin e Capitão Faustino. Ao longo da semana, o público também encontra nomes como Cristiano Quevedo, Jorge Guedes, Renato Borghetti, Shana Müller, Mauro Moraes, Luiza Barbosa, João de Almeida Neto e Elton Saldanha. Mais do que uma sequência de apresentações, a presença desses artistas evidencia a diversidade de gerações e estilos que compõem atualmente a música gaúcha.

Os Chacreiros levam Alegrete para a Expointer

Entre os representantes dessa nova geração está Os Chacreiros, grupo de Alegrete que carrega no próprio nome uma referência direta ao cotidiano do campo. A produção musical do conjunto percorre temas relacionados à vida rural, às lidas campeiras e às personagens que fazem parte do imaginário da Fronteira Oeste. A trajetória do grupo já ultrapassou os limites dos eventos locais e aparece registrada em documentos públicos de 2026, que identificam Gerson Brandolt como responsável pelo conjunto. Também há registro de contratação pela Prefeitura de Alegrete para apresentação no 18º Canto Farroupilha, previsto para outubro.

Um dos exemplos dessa identidade está em “Na Sina de Leiteiro”, composição associada a Beto Villaverde, Gerson Brandolt e Passarinho Teixeira Nunes. A música mergulha no cotidiano de quem trabalha com o gado leiteiro, abordando dificuldades econômicas, rotina e a realidade de quem vive diretamente da atividade rural. Nesse repertório, o campo deixa de aparecer apenas como cenário e passa a ocupar o centro da narrativa, com seus personagens, conflitos, dificuldades e pequenas histórias.

É justamente essa característica que dá força ao trabalho do grupo. Ao chegar a um evento da dimensão da Expointer, Os Chacreiros não levam apenas instrumentos e repertório: levam consigo uma representação de Alegrete e de uma região em que a música ainda nasce fortemente ligada à experiência cotidiana. O trabalhador, o peão, a lida, a estrada e as relações construídas no interior tornam-se matéria-prima para canções que ajudam a registrar um modo de vida que segue em transformação.

Carqueja traduz a identidade da fronteira

Se Os Chacreiros representam a presença de Alegrete, o Grupo Carqueja aparece ligado a outra característica marcante da região: a fronteira. O conjunto possui ligação direta com Santana do Livramento, cidade que também aparece na trajetória fonográfica do grupo. Informações de produção musical indicam que um álbum foi gravado em Livramento em 2025, e entre seus integrantes está o santanense Robson Garcia.

A fronteira, nesse caso, não se limita à geografia. Ela também se manifesta na música. Na região de Santana do Livramento e Rivera, a cultura atravessa a divisão política entre Brasil e Uruguai, produzindo uma identidade marcada pelo encontro de sonoridades e tradições. Milongas, chamamés, chamarritas e outras expressões musicais dialogam com a cultura uruguaia e com a tradição campeira do Rio Grande do Sul, criando um repertório em que a fronteira deixa de ser apenas uma linha no mapa e passa a ser uma fonte permanente de inspiração.

Nesse contexto, é importante não confundir o nome “Canto e Fronteira” com o Grupo Carqueja. A apuração utilizada para esta reportagem identifica “Canto e Fronteira” como uma música histórica da Tropeada da Canção Nativa, realizada em Santana do Livramento, e não como denominação confirmada do grupo.

Taureando representa a renovação

Talvez a ideia de renovação esteja mais evidente no Projeto Taureando, criado a partir da parceria entre Mauro Silva e Guilherme Jaques na interpretação da música “Taureando”, apresentada no Ponche Verde da Canção Gaúcha, em Dom Pedrito. A apresentação recebeu o prêmio de Música Mais Popular e acabou dando nome ao projeto, que posteriormente ampliou sua formação com Danner Marinho, Lucas Gross e Érico Rocha.

A formação reúne canto, cordeona, violão, contrabaixo e percussão, construindo uma sonoridade que dialoga com a tradição sem abrir mão de uma perspectiva contemporânea. Em 2026, o projeto também esteve associado a um momento de destaque da música nativista ao interpretar a música oficial do 36º Rodeio Crioulo Internacional de Vacaria, “Palanque do Passado, Esteio do Futuro”.

A trajetória ajuda a explicar o movimento de renovação pelo qual passa a música regional. Um projeto surgido em um festival tradicional encontra novos palcos, amplia sua circulação e alcança diferentes públicos sem abandonar as referências que formaram a música gaúcha. É uma geração que não necessariamente pretende romper com o passado, mas conversar com ele e encontrar novas maneiras de apresentá-lo.

Entre as influências declaradas pelo próprio Projeto Taureando estão nomes como Ênio Medeiros, Crioulo dos Pampas, Nelson Cardoso, Gaúcho da Fronteira, Adair de Freitas, Paulo Garcia, César Oliveira & Rogério Melo, Porca Véia e Gildo de Freitas. A lista revela que a renovação não acontece pelo apagamento da memória, mas justamente pela continuidade de uma tradição que passa de uma geração para outra.

Paulo Dias Garcia e a força da canção campeira

Outro nome associado a essa cena é Paulo Dias Garcia, compositor e intérprete cuja produção mantém forte diálogo com a linguagem campeira. Entre seus trabalhos está “Seu Riograndino”, lançada em parceria com o Projeto Taureando e registrada oficialmente em 2025. A música percorre imagens recorrentes do universo rural, como o pala, o zaino, o bolicho, a lida, o caminho, o vinho, a solidão e a prosa.

São elementos aparentemente simples, mas que carregam grande força simbólica. Na música regional, uma história particular pode representar experiências compartilhadas por milhares de pessoas que vivem ou viveram no interior do Estado. É uma das características mais marcantes dessa produção: contar histórias pequenas para falar de uma identidade que é muito maior do que seus personagens.

Uma mesma paisagem cultural

Os Chacreiros, Grupo Carqueja, Projeto Taureando e Paulo Dias Garcia não formam uma única banda, não pertencem necessariamente à mesma geração e tampouco utilizam exatamente a mesma linguagem musical. O que os aproxima é uma paisagem cultural comum, marcada pela Fronteira Oeste, pela Campanha e pelo interior do Rio Grande do Sul.

Nessa paisagem, o cavalo pode transformar-se em metáfora, o galpão em cenário, o peão em personagem, a estrada em narrativa e a saudade em milonga. A fronteira, por sua vez, deixa de ser apenas uma divisão geográfica para tornar-se matéria-prima de criação. É dessa relação entre território, memória e música que nasce parte importante da identidade regional.

A Expointer, por sua dimensão e capacidade de reunir diferentes públicos, funciona como uma vitrine privilegiada para essa produção. Durante nove dias, produtores rurais, empresários, trabalhadores, famílias e visitantes de diferentes regiões circulam pelo Parque Assis Brasil. Nesse ambiente, a música regional encontra um público que, em muitos casos, conhece o campo não apenas por meio de representações culturais, mas pela própria experiência.

Para Os Chacreiros, a presença na Expointer representa também a oportunidade de levar o nome e a identidade de Alegrete para uma das maiores vitrines do Rio Grande do Sul. Para o Carqueja, a fronteira ganha voz. Para Paulo Dias Garcia, a canção campeira encontra novos ouvidos. Para o Projeto Taureando, uma geração mais jovem demonstra que ainda existe espaço para novas histórias dentro de uma tradição centenária.

O futuro da música gaúcha olha para o passado

A música gaúcha está mudando. A questão, portanto, já não parece ser se existe uma transformação, mas para onde ela está conduzindo o gênero. Os sinais presentes na produção desses artistas apontam para uma música que segue adiante sem abandonar suas raízes, preservando instrumentos, ritmos, personagens e narrativas que fazem parte da memória do Estado, mas encontrando novas formas de produção, circulação e comunicação.

Os Chacreiros chegam de Alegrete. O Carqueja carrega a identidade da fronteira. Paulo Dias Garcia transforma experiências e imagens da vida campeira em canção. O Projeto Taureando representa uma geração disposta a ocupar novos espaços. Em comum, todos ajudam a mostrar que a cultura gaúcha não permanece viva apenas quando repete o que já foi feito, mas também quando encontra novas vozes capazes de reinterpretar aquilo que o tempo não conseguiu apagar.

E talvez seja justamente essa a imagem mais forte que a música produz na Expointer de 2026: em meio à pecuária, à agricultura, às máquinas, aos negócios e às tradições, o Rio Grande do Sul também se reconhece quando escuta a própria voz.

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