Em diferentes pontos de Alegrete, a floração das pequenas flores amarelas transforma a paisagem e revela uma relação que vai muito além da natureza: a memória afetiva de quem cresceu entre árvores, campos e caminhos do município
Existe uma época do ano em que Alegrete começa a mudar de aparência sem que seja necessária qualquer intervenção humana. A transformação acontece silenciosamente, espalhada por diferentes pontos da cidade e também pelas áreas rurais do município. É quando os espinilhos começam a florescer e pequenas flores amarelas aparecem entre os galhos, trazendo novas cores para uma paisagem que, durante boa parte do ano, passa despercebida justamente por fazer parte do cotidiano. Podem ser vistos em propriedades, estradas, campos e também em trechos da BR-290, compondo um cenário que se modifica com a chegada da primavera. Para quem observa, é um fenômeno natural que se repete todos os anos. Para quem possui alguma lembrança associada a essas árvores, entretanto, o florescimento pode representar muito mais do que a mudança de uma estação.
O espinilho faz parte da paisagem característica do Sul e está presente na memória de diferentes gerações que cresceram em contato com o ambiente rural e com os elementos naturais da região. Sua floração, marcada pelas pequenas flores amarelas e pelo perfume característico, acaba funcionando também como uma espécie de sinal de passagem do tempo. Todos os anos, quando os primeiros galhos começam a ganhar cor, a paisagem conhecida adquire outra aparência. É uma mudança relativamente breve, mas suficiente para chamar a atenção de quem passa e, em alguns casos, despertar recordações que estavam guardadas havia muitos anos.

Foi isso que aconteceu recentemente com Carmem Fioravante. Ao encontrar um espinilho florido durante um deslocamento pela BR-290, ela decidiu parar para observar a árvore e sentir o perfume das flores. Não imaginava que aquele gesto simples acabaria conduzindo a uma lembrança de quase quatro décadas atrás. O que estava diante dela era uma árvore florida no presente. O que surgiu em sua memória, porém, foi uma árvore muito maior, pertencente a um cenário completamente diferente e ligado aos primeiros anos de sua vida.
Carmem tinha aproximadamente cinco anos quando um grande espinilho fazia parte do pátio onde funcionava o depósito de materiais de construção de seu pai. Ali estavam pedras, tijolos, areia e brita. Para os adultos, era um ambiente de trabalho. Para as crianças, era um espaço de convivência e brincadeiras, onde os materiais que faziam parte da rotina do negócio também acabavam compondo o cenário das aventuras da infância. Entre os montes de areia e pedras, havia espaço para correr, brincar e transformar cada canto em uma possibilidade diferente.
A árvore ocupava um lugar particular nesse universo. De tão grande, seus galhos formavam uma espécie de pequena oca. Durante a noite, servia de abrigo para as galinhas da mãe de Carmem. Durante o dia, fazia parte das brincadeiras das crianças e também era utilizada como esconderijo nas disputas de esconde-esconde. Uma árvore que integrava a rotina da família sem que ninguém pudesse imaginar, naquele momento, que décadas mais tarde sua lembrança estaria associada a uma das recordações mais marcantes da infância.
O tempo fez seu trabalho. Vieram os anos, as mudanças, a vida adulta e tudo aquilo que inevitavelmente distancia as pessoas dos lugares onde passaram os primeiros anos. Quase quatro décadas separam aquela menina do momento em que Carmem reencontrou o perfume do espinilho. Ainda assim, a lembrança não havia desaparecido. Permanecia guardada em detalhes: o pátio, os familiares, as brincadeiras, os materiais de construção e aquela árvore que fazia parte daquele pequeno universo.
A história de Carmem revela uma dimensão menos visível da paisagem de uma cidade. Nem tudo aquilo que possui importância para uma comunidade está registrado em documentos, monumentos ou placas. Existem referências que pertencem exclusivamente à memória das pessoas. Uma árvore pode ser apenas uma árvore para quem passa por ela. Para alguém que viveu parte da infância sob seus galhos, pode representar uma época inteira da vida.
É nesse ponto que uma paisagem deixa de ser apenas geografia e passa a fazer parte da identidade. As cidades são formadas por ruas, prédios, praças, estradas e construções, mas também pelas lembranças que seus moradores associam a esses lugares. Muitas vezes, são justamente os elementos mais simples que permanecem por mais tempo na memória: o cheiro de uma árvore, o caminho para a escola, uma casa antiga, uma praça onde se brincava ou um terreno que serviu de cenário para as primeiras aventuras.
Em Alegrete, essa relação ganha características próprias pela dimensão do município e pela forte presença da paisagem natural no cotidiano. A cidade e o interior estabelecem uma convivência permanente entre o urbano e o campo, entre as áreas construídas e os espaços onde a vegetação nativa continua compondo o cenário. Nesse ambiente, árvores como o espinilho deixam de ser apenas elementos botânicos e passam a integrar também a memória de quem cresceu observando a transformação das estações.
A primavera, nesse sentido, não chega apenas com uma data no calendário. Ela pode ser percebida nas mudanças da paisagem. O florescimento de determinadas espécies, a alteração das cores e a renovação da vegetação são sinais que atravessam gerações. São referências que não dependem de tecnologia ou de informação para serem reconhecidas. Quem aprendeu a observar sabe que determinadas flores anunciam determinados períodos do ano.

O espinilho é uma dessas referências.
Sua presença pode passar despercebida durante meses, mas, quando floresce, torna-se imediatamente mais visível. As pequenas flores amarelas destacam-se entre os galhos e o perfume acrescenta uma dimensão que não pode ser percebida apenas pela fotografia. É justamente a combinação entre imagem e cheiro que, no caso de Carmem, estabeleceu a ligação entre o presente e uma lembrança distante.
Há, ainda, uma particularidade nesse tipo de memória: ela não precisa ser constantemente alimentada para continuar existindo. Algumas lembranças ficam adormecidas durante anos e podem reaparecer diante de um estímulo inesperado. Uma música pode fazer alguém voltar à adolescência. Uma fotografia pode reconstruir uma reunião familiar. Uma rua pode trazer de volta uma casa que já não existe. Um perfume pode recuperar um lugar inteiro.
Foi o que o espinilho fez.
A história poderia terminar como uma lembrança particular, restrita à trajetória de uma pessoa. Mas ela ganha outro significado quando observada dentro da paisagem de Alegrete. Quantas árvores espalhadas pelo município estão associadas a histórias semelhantes? Quantas pessoas passam diariamente por determinados lugares sem imaginar que, para alguém, aquele cenário representa uma parte importante da vida? Quantas lembranças permanecem ligadas a elementos que continuam silenciosamente presentes na cidade?
Não há como responder a essas perguntas com números. São histórias que pertencem ao campo da memória e da experiência individual. E talvez justamente por isso tenham tanto valor.
A paisagem muda, mas nem sempre muda na mesma velocidade que as lembranças. Um terreno pode receber uma construção. Uma estrada pode ganhar outro movimento. Uma casa pode desaparecer. Uma árvore pode deixar de existir. Mesmo assim, a imagem daquele lugar pode continuar intacta na memória de quem o conheceu em outra época.
No caso de Carmem, a árvore da infância permanece viva dessa maneira. Não necessariamente como objeto físico, mas como lembrança. O reencontro com o espinilho florido foi capaz de recuperar uma sequência de imagens que permanecia guardada desde os cinco anos de idade.
A primavera, então, assume um significado que vai além da estação. É também um período em que determinadas referências da paisagem reaparecem e, com elas, podem surgir histórias que estavam silenciosas. O amarelo das flores pode chamar a atenção de quem passa, mas o significado que cada pessoa atribui àquela imagem depende da própria história.
Para alguns, será apenas uma árvore florida.
Para outros, poderá ser o lugar onde alguém viveu uma infância, conheceu uma pessoa, construiu uma lembrança ou simplesmente foi feliz sem saber que aqueles dias seriam um dia lembrados com saudade.
Carmem sabia apenas que tinha cinco anos e que aquele espinilho fazia parte de sua vida. Não poderia imaginar que quase 40 anos depois uma flor semelhante seria capaz de fazer com que ela reencontrasse, ainda que por alguns instantes, aquele tempo.
Talvez seja essa a verdadeira dimensão das pequenas coisas que permanecem na paisagem. Elas não precisam ter consciência das histórias que carregam. Continuam ali, ano após ano, atravessando estações e acompanhando mudanças. E, quando florescem novamente, podem revelar que determinadas lembranças nunca foram embora.
A primavera está chegando a Alegrete.
Os espinilhos começam a florescer em diferentes pontos do município.
E, entre uma pequena flor amarela e outra, existem histórias que o tempo não conseguiu apagar.
Uma delas é a de Carmem Fioravante.
O perfume que traz lembranças da infância…
Texto de Carmem Fioravante
Não resisti… precisei parar no caminho para sentir o perfume desta pequena flor de espinilho.
E foi só sentir seu perfume para, de repente, a infância voltar…
Voltei para o pátio enorme do depósito do meu pai, onde havia uma árvore de espinilho tão grande e formosa que seus galhos pareciam formar uma pequena oca. À noite, as galinhas se abrigavam ali.
Voltei para os meus irmãos, para os meus sobrinhos, para os corre-corre, as risadas e as brincadeiras no meio dos montes de areia, pedras e materiais de construção.
Voltei para as brincadeiras de esconde-esconde, quando aquela árvore também era um dos nossos esconderijos. Eu tinha apenas cinco anos, mas algumas lembranças parecem ter ficado guardadas em algum cantinho do coração, esperando apenas um perfume para despertar.
E foi exatamente isso que aconteceu.
Ali, parada diante daquele pequeno espinilho florido, eu não estava apenas olhando para uma árvore… estava reencontrando uma parte da minha infância.
Voltei para aqueles dias simples, em que o tempo parecia não ter pressa. Dias de pouca coisa, mas de uma felicidade que hoje percebo ter sido imensa.
Que tempos bons… Que saudade!
É curioso como algumas coisas tão pequenas… o perfume de uma flor, um cheiro, um lugar… conseguem abrir as portas de um passado que o coração jamais esqueceu.
Aqueles tempos não voltam.
E talvez seja justamente por isso que sejam tão preciosos.
Dinheiro nenhum no mundo seria capaz de comprá-los de volta.
E, se tivéssemos a oportunidade de viver tudo outra vez, tenho certeza de que viveríamos… cada brincadeira, cada risada, cada correria, cada instante… uma, duas, mil vezes.
Porque há momentos que passam pela vida.
Mas há outros que ficam para sempre dentro da gente.
E hoje eu entendo que aquela pequena árvore, com suas flores amarelinhas e seu perfume delicado, guardava muito mais do que flores.
Guardava uma infância inteira.
E naquele breve instante, entre flores amarelinhas e lembranças tão antigas, eu fui criança novamente.

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