Há 120 anos nascia em Alegrete o poeta que ensinou o Brasil a encontrar a eternidade nas pequenas coisas

Terra natal de Mario Quintana celebra o legado de um dos maiores escritores da língua portuguesa; cidade promove nesta quinta-feira o projeto “Quintanares”, unindo literatura, teatro e memória.

Há homens que escrevem livros. Outros escrevem o próprio tempo. Mario Quintana fez algo ainda mais raro: escreveu a alma humana.

Há 120 anos, em 30 de julho de 1906, nascia em Alegrete aquele que se transformaria em um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos. Filho de Celeste Leite Quintana e Virgílio Quintana, proprietário da Farmácia Quintana, o menino alegretense cresceu entre as ruas tranquilas da Fronteira Oeste, observando o cotidiano que, décadas mais tarde, seria transformado em versos capazes de atravessar gerações.

Nesta quinta-feira (30), a passagem dos 120 anos de seu nascimento mobiliza instituições culturais, escritores, educadores e leitores em diversas partes do país. Exposições, espetáculos, feiras do livro e projetos pedagógicos celebram o autor que fez da simplicidade uma das maiores expressões da literatura brasileira.

Mas nenhuma cidade guarda uma relação tão íntima com Quintana quanto Alegrete. Afinal, foi aqui que começou a história do poeta que ensinou o Brasil que a beleza mora justamente onde quase ninguém percebe.

Desde cedo, Quintana demonstrou interesse pela leitura. Ainda criança estudou em Alegrete antes de seguir, em 1919, para Porto Alegre, onde ingressou no Colégio Militar. Foi na capital que iniciaria sua trajetória intelectual, embora jamais rompesse o vínculo afetivo com sua terra natal. Ao longo da vida, carregou consigo lembranças da infância, das paisagens do pampa e da serenidade do interior gaúcho, elementos que, de maneira sutil, atravessam sua obra.

Mais tarde, trabalhou como jornalista, tradutor e revisor. Traduziu mais de 130 obras da literatura universal, aproximando os leitores brasileiros de autores como Marcel Proust, Virginia Woolf, Voltaire e Giovanni Papini. A convivência diária com as palavras refinou ainda mais um estilo que se tornaria inconfundível: econômico na forma, profundo no conteúdo.

O poeta das coisas simples

Mario Quintana nunca precisou de discursos grandiosos para emocionar.

Enquanto muitos escritores buscavam explicar o mundo, ele preferia observá-lo. Encontrava poesia numa janela aberta, numa criança brincando, numa flor esquecida, numa rua silenciosa ou no voo inesperado de um pássaro.

Sua literatura rompeu fronteiras justamente porque falava daquilo que pertence a todos: o tempo, a saudade, o amor, a infância, a solidão, a esperança e a passagem da vida.

A simplicidade nunca foi sinônimo de superficialidade.

Pelo contrário.

Cada frase de Quintana escondia uma reflexão capaz de acompanhar o leitor durante anos.

Não por acaso, tornou-se conhecido como “o poeta das coisas simples”, embora sua escrita revele enorme sofisticação literária. A aparente leveza de seus textos esconde uma arquitetura precisa, construída com sensibilidade, humor e uma fina ironia que se tornou sua marca registrada.

Uma obra que permanece viva

Sua estreia na literatura aconteceu em 1940, com A Rua dos Cataventos, livro que rapidamente chamou a atenção da crítica pela musicalidade e delicadeza dos sonetos.

A força simbólica de A Rua dos Cataventos ultrapassou as páginas da literatura e inspirou iniciativas voltadas à preservação da memória do poeta em sua cidade natal. Em Alegrete, o nome da obra deu origem ao projeto Rua dos Cataventos, concebido para transformar o trecho da Rua dos Andradas, onde Mario Quintana nasceu, em um espaço temático de valorização cultural. O projeto previa a revitalização da quadra entre as ruas Gaspar Martins e General Vitorino, com ampliação dos passeios, instalação de bancos, iluminação especial, placas em homenagem ao escritor e grandes cataventos como elementos cenográficos, aproximando moradores e visitantes do universo poético do alegretense mais ilustre.

A proposta do radialista Jucelino Medeiros com apoio de José Linhares e Gilberto Carvalho, que, ao longo dos anos, defendeu a valorização da memória de Mario Quintana como patrimônio cultural de Alegrete. A iniciativa buscava transformar o local de nascimento do poeta em um ponto permanente de visitação, aproximando a comunidade de sua história e fortalecendo o turismo cultural. Mais do que uma intervenção urbana, o projeto representava um convite para que a cidade reconhecesse, no espaço onde tudo começou, a dimensão do legado deixado por Quintana às letras brasileiras. O projeto, idealizado pelo arquiteto Jeferson Sanchotene, acabou não prosperando à época em razão de entraves técnicos. Além disso, faltou vontade política para superar as dificuldades e transformar a Rua dos Cataventos em um dos mais importantes pontos turísticos do município.

Apesar disso, a proposta não foi abandonada. Segundo o prefeito Jesse Trindade, o projeto não foi esquecido e deverá ser retomado no momento oportuno, quando será reavaliado e repensado para viabilizar sua execução.

Projeto Rua dos Cataventos
Essa foi a primeira concepção do projeto.

Vieram depois obras fundamentais da literatura brasileira, como Canções, Sapato Florido, Espelho Mágico, Caderno H, Apontamentos de História Sobrenatural, Baú de Espantos, Esconderijos do Tempo e Preparativos de Viagem.

Em 1976, publicou Quintanares, livro que reunia parte de sua produção poética e que, curiosamente, inspira o nome do projeto cultural realizado hoje em Alegrete.

Ao contrário de muitos intelectuais de sua época, Quintana nunca buscou ocupar o centro das discussões literárias.

Era avesso às formalidades.

Recusava a pompa.

Preferia o silêncio das bibliotecas, as conversas discretas e a companhia dos livros.

Talvez por isso sua poesia tenha envelhecido tão bem.

Ela nunca dependeu das circunstâncias do momento.

Falava diretamente à condição humana.

O reconhecimento que veio do povo

Embora tenha recebido importantes distinções ao longo da carreira, Quintana também conviveu com algumas frustrações, entre elas as sucessivas tentativas sem sucesso de ingressar na Academia Brasileira de Letras.

A história, entretanto, tratou de fazer justiça.

Enquanto muitos acadêmicos permaneceram restritos às estantes, Quintana conquistou algo muito maior: tornou-se patrimônio afetivo dos brasileiros.

Suas frases são reproduzidas em escolas, teatros, universidades, redes sociais e rodas de conversa. Seus poemas continuam sendo porta de entrada para milhares de leitores que descobrem, através dele, o prazer da literatura.

Poucos escritores conseguiram permanecer tão presentes no imaginário popular mais de três décadas após sua morte.

Alegrete preserva a memória de seu maior poeta

Para Alegrete, celebrar os 120 anos de Mario Quintana significa reafirmar uma identidade.

O município, conhecido por sua tradição histórica, campeira e cultural, também é o berço de um dos maiores nomes da literatura nacional.

Essa condição ultrapassa o orgulho local.

Representa uma responsabilidade permanente de preservar e difundir um legado que pertence ao Brasil.

Ao longo de 2026, diversas instituições culturais promovem ações voltadas à valorização da obra quintaniana. Espaços expositivos, atividades educativas, apresentações artísticas e experiências imersivas reforçam a atualidade do escritor e aproximam sua poesia das novas gerações.

Mais do que recordar um personagem histórico, essas iniciativas mostram que Quintana continua dialogando com o presente.

Em tempos marcados pela velocidade da informação e pelas relações superficiais, seus versos permanecem convidando o leitor a desacelerar, observar e sentir.

Quintanares celebra o poeta nesta quinta-feira

Como parte das comemorações pelos 120 anos de nascimento de Mario Quintana, Alegrete recebe nesta quinta-feira o Projeto Quintanares, uma homenagem que une literatura, teatro, música e memória em torno daquele que levou o nome da cidade para o mundo das letras.

A programação apresenta o espetáculo “Quintanares – O Menino Pássaro”, inspirado na infância, na trajetória e na obra do poeta alegretense. A montagem propõe uma experiência artística sensível, conduzindo o público por diferentes momentos da vida de Quintana e revelando como sua poesia continua dialogando com crianças, jovens e adultos.

Mais do que uma apresentação teatral, o projeto representa um reencontro entre Alegrete e seu filho mais ilustre.

Porque, passados 120 anos de seu nascimento, Mario Quintana continua fazendo aquilo que sempre fez de melhor: lembrando que a verdadeira grandeza está nas pequenas coisas.

E talvez seja justamente por isso que seus versos permanecem eternos.

Enquanto houver alguém disposto a olhar uma flor com atenção, ouvir o silêncio de uma tarde ou acreditar que a poesia pode transformar a vida, Mario Quintana continuará vivo — não apenas nas páginas dos livros, mas no coração de quem aprende, através de suas palavras, a enxergar o mundo com mais delicadeza.

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