Um pai forjado pela lida rural, honra e silêncio

Existem homens que constroem riquezas. Outros constroem histórias. E há aqueles que, sem perceber, constroem gerações. Assim é a vida do alegretense e pai de sete filhos ( dois in memorian), Setembrino Aires de Mendonça.

Sua história, no entanto, começou muito antes de seu nascimento e vem das coxilhas do Uruguai, da localidade de Mataojo Chico, no Departamento de Salto, de onde seu bisavô, Astrogildo Perseverando de Mendonça e sua esposa, Lucinda Deolina do Nascimento cruzaram a fronteira por volta de 1890 em busca de um novo destino. Dessa raiz fronteiriça nasceu uma família moldada pelo trabalho, pela simplicidade e pela palavra empenhada.

Esse pai que se mantem esguio e prestes a completar 92 anos mantém a lucidez e desde guri ajudava os pais Astrogildo Nereu de Mendonça e Rita Aires de Mendonça, na pequena propriedade conhecida como Passo da Davina, na divisa entre Alegrete e Rosário do Sul. Era um tempo em que o horizonte parecia não ter fim, as estradas eram de chão, o canto dos galos marcava as horas e o trabalho começava antes mesmo de o sol romper a geada.

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A infância não conheceu brinquedos caros, mas teve o privilégio da liberdade. Correu pelos campos, mergulhou nas sangas e guarda até hoje, na própria perna, a cicatriz de uma travessura de menino. Cortou-se durante um banho e preferiu esconder o ferimento dos pais. “Se contasse, levava uma tunda”, relembra entre um sorriso e outro.

Ele também fazia questão de assistir às carreiras na cancha do saudoso José Machado, onde aprendeu que a vida, assim como os cavalos, exige firmeza para seguir em frente.

Ainda menino, quando muitos hoje mal conhecem o peso de uma responsabilidade, já ajudava nas lidas da casa. Lavrava o cercado com arado puxado por juntas de bois, aprendendo desde cedo que a terra só devolve aquilo que recebe de quem trabalha. Aos nove anos já conhecia o serviço pesado das granjas. Lembra-se do senhor Almerindo Machado, onde conduzia juntas de bois, muitas vezes quebrando a geada de calção curto, enfrentando o frio que cortava a pele, mas nunca a vontade de vencer.
Também trabalhou para dona Adelaide Ribeiro, na região do Queromana, plantando cercados e ajudando a construir, cerca por cerca, o sustento da família.

Quando a juventude chegou, vieram também os bailes na casa do senhor Feliciano Rodrigues, conhecido como Chanoca. Entre uma vaneira e outra, descobriu que a vida também reservava espaço para a alegria, para os amigos e para o amor. E foi nesse caminho que conheceu Maria Conceição Rodrigues Mendonça com quem casou e formaram uma família numerosa, abençoada com sete filhos: cinco homens e duas mulheres.

Antes de chegar à cidade o casal e os filhos viveram numa chácara do senhor João Franco, nas proximidades do Cerro da Sepultura, onde continuaram cultivando não apenas a terra, mas também os sonhos.

E como um homem lúcido e com serenidade na alma, em 1972 aos 38 anos, tomou talvez a decisão mais corajosa de sua vida. Percebeu que o campo já não oferecia aos filhos as oportunidades de estudo que desejava. E como provedor e cuidadoso pai juntou, com enorme sacrifício, tudo o que possuía e comprou uma pequena casa no bairro Santos Dumont, zona leste de Alegrete. Não mudou apenas de endereço e sim o destino de toda a família.

Como armador de ferro

Setembrino e a família recomeçaram praticamente do zero, pois o homem acostumado ao arado e ao campo transformou-se em armador de ferro. Participou da construção de importantes obras de Alegrete, como o Matadouro Frigorífico, o Centro Social Urbano e diversos pontilhões da antiga Rede Ferroviária Federal. Trocou o cabo do arado pelas ferragens, mas jamais abandonou os valores aprendidos na área rural, por amor e atenção à esposa e aos filhos que eram adultos o construíram suas próprias famílias.

O legado silenciso e de exemplos desse pai

O filho Jorge relata que o pai nunca foi homem de discursos longos e sua linguagem sempre foi o exemplo. Setembrino, segundo o filho, não precisou levantar a mão para educar os filhos. Bastava um olhar sereno, firme e respeitado para ensinar o limite entre o certo e o errado. Dentro de casa, caráter, honestidade, trabalho e respeito nunca foram palavras bonitas; eram simplesmente a forma de viver, atesta.

Mesmo cercado pela carinho e atenção do filhos, o tempo também lhe cobrou o preço das despedidas. Em 2019 perdeu sua companheira de toda uma vida. Depois, viu dois dos filhos partirem antes dele. São dores que nenhum pai deseja conhecer. Mesmo assim, segue caminhando com a paz de quem aprendeu que a saudade não termina uma história; apenas muda o lugar onde o amor passa a morar.

Hoje, quase aos 92 que serão completados no próximo dia 25 de agosto, suas mãos já não carregam o mesmo vigor da juventude, mas continuam trazendo as marcas de uma vida inteira dedicada ao trabalho e à família. Cada ruga conta uma batalha. Cada cicatriz guarda uma lembrança. Cada silêncio revela uma sabedoria que os livros dificilmente ensinam.

Ao final da conversa, quando perguntado sobre a mensagem que gostaria de deixar aos filhos, netos e bisnetos, as palavras já não vieram com facilidade.Talvez porque existam sentimentos grandes demais para caberem numa frase. Mas, se toda sua caminhada pudesse ser resumida em um conselho, certamente seria este: “Nunca tenham vergonha do trabalho honesto, cuidem da família enquanto há tempo. A riqueza da gente não está no que se junta, mas nas pessoas que permanecem ao nosso lado. Sejam corretos na palavra, humildes no coração e nunca deixem de estender a mão a quem precisa. O respeito abre porteiras que a força jamais conseguirá abrir.”, resume o pai Setembrino Aires de Mendonça

Neste Dia dos Pais, sua história nos lembra que existem homens que jamais aparecerão nos livros de História. Mas são eles que escrevem, todos os dias, a história de suas famílias. Pais que venceram sem aplausos, construíram sem reconhecimento e amaram sem fazer alarde.
Porque, no fim das contas, o verdadeiro legado de um pai não se mede pelo que ele deixou sobre a mesa, mas pelos valores que semeou no coração de seus filhos.
E esse patrimônio, felizmente, o tempo nunca será capaz de levar.

A família dos pais e irmãos de Setembro Aires de Mendonça

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