A última milha: como o crescimento das compras online transformou a rotina dos entregadores em Alegrete

Comércio eletrônico impulsiona centros de distribuição e amplia a demanda por entregadores de encomendas no município.

O crescimento das compras pela internet mudou não apenas os hábitos dos consumidores, mas também a rotina de quem trabalha para fazer as mercadorias chegarem até a porta de casa. Em Alegrete, o avanço do comércio eletrônico já pode ser percebido nas ruas, nos centros de distribuição e na rotina de dezenas de entregadores que diariamente percorrem a cidade para cumprir as chamadas entregas de “última milha”.

Levantamento em bases públicas de CNPJ aponta a existência de pelo menos 37 empresas ativas em Alegrete classificadas na atividade de “serviços de entrega rápida”. A categoria inclui serviços como entregas por motoboy, encomendas, refeições, alimentos e medicamentos.

O número, porém, não representa a quantidade de profissionais que trabalham com entregas no município. Uma mesma empresa pode reunir diversos trabalhadores, enquanto entregadores autônomos e profissionais vinculados a aplicativos podem atuar sem necessariamente estar enquadrados nessa classificação empresarial.

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O fenômeno local acompanha uma transformação nacional. O mercado de comércio eletrônico e de entrega de mercadorias cresceu rapidamente nos últimos anos, impulsionado pela expansão das plataformas digitais, das redes logísticas privadas e pela mudança nos hábitos de consumo.

Segundo dados atribuídos à Fulwood, o setor encerrou 2025 com 94 milhões de consumidores ativos no Brasil, demonstrando a dimensão alcançada pelas compras digitais. O aumento no volume de pedidos também elevou a pressão sobre a chamada logística de última milha — a etapa final do percurso entre o centro de distribuição e o consumidor. É justamente nessa fase que está uma das maiores demandas por mão de obra do setor.

De frentista a dono de uma empresa de entregas

Em Alegrete, a história de Luciano Pedroso ajuda a dimensionar essa transformação. Ele começou a trabalhar com entregas em 2020. Logo no primeiro dia, realizou 25 entregas. O que inicialmente era uma alternativa de trabalho acabou se transformando em um novo negócio e em uma mudança na vida da família.

Pedroso lembra que, durante a primeira Black Friday, o volume de encomendas foi tão grande que a própria residência da família ficou tomada por pacotes.“A gente não tinha nem por onde caminhar dentro de casa”, relembra.

Antes de ingressar no setor, Luciano trabalhava como frentista, enquanto a esposa atuava na área de hotelaria. Hoje, os dois administram a Top Log Encomendas.

A estrutura também mudou. O que começou com uma motocicleta evoluiu para uma operação que atualmente conta com três camionetas, duas motocicletas e o carro da família. Mesmo mantendo o centro de distribuição na própria residência, Pedroso já planeja alugar um espaço maior para acomodar o volume crescente de mercadorias.

A empresa movimenta, em média, entre 1.200 e 1.500 encomendas por dia, atendendo clientes de Alegrete e Manoel Viana.

Centenas de pacotes em uma única rota

Durante a visita ao centro de distribuição, seis entregadores estavam envolvidos na operação. Cinco deles já haviam saído para as rotas.O trabalho começa com a separação das encomendas por regiões da cidade. Os profissionais são divididos em zonas e, dependendo do roteiro, podem concentrar dezenas de entregas em uma única saída.

Em determinados dias, um mesmo entregador pode acumular encomendas destinadas a diferentes bairros, buscando aproveitar ao máximo o deslocamento. Um dos colaboradores se preparava para sair com a motocicleta equipada com baú carregando 138 pacotes. Outro profissional acumula o recorde de 328 encomendas entregues em um único dia.

Os números ajudam a mostrar a dimensão da operação que ocorre diariamente longe dos grandes centros urbanos. Em Alegrete, a estimativa apresentada pelo setor é de aproximadamente seis centros de distribuição, além da estrutura relacionada à plataforma de entregas do Mercado Livre. Cerca de 50 trabalhadores estariam envolvidos diretamente nas entregas de mercadorias no município, entre profissionais assalariados e terceirizados.

Em alguns casos, a remuneração é calculada de acordo com a quantidade de pacotes entregues.

O custo da última milha

No setor logístico, a chamada “última milha” (last mile) corresponde à etapa final da cadeia de distribuição: o momento em que a encomenda deixa o centro de distribuição e percorre os últimos quilômetros até chegar ao consumidor. É também uma das etapas mais complexas e caras da operação.

Nos centros de distribuição locais, as mercadorias chegam, são separadas por bairros e organizadas conforme as rotas. Depois, entram em cena vans terceirizadas, motociclistas, entregadores de aplicativos e outros profissionais responsáveis por levar os produtos até o endereço final. No município, a diversidade das encomendas revela também a mudança no perfil de consumo.

Na Top Log, entre os produtos que aparecem com frequência estão cadeiras de rodas, fogões e areia para gatos, além de calçados, roupas, tênis e carrinhos de bebê.

E há produtos sazonais. Nos últimos meses, por exemplo, as árvores de Natal passaram a ocupar espaço significativo entre as encomendas.

“Antes era os air fryer”, comenta um dos colaboradores, lembrando outro produto que já esteve entre os campeões de pedidos.

Mais trabalho, mais custos

O crescimento da atividade também traz desafios para quem está na ponta da cadeia. Dados citados sobre o mercado de trabalho apontam que o número de entregadores de aplicativos cresceu 18,6% em um ano, sendo uma das ocupações ligadas às plataformas digitais com maior expansão no período. O rendimento mensal bruto de um entregador autônomo é estimado em aproximadamente R$ 3.147. O valor é próximo ao observado no mercado formal, mas há uma diferença importante: para alcançar essa renda, o trabalhador precisa dedicar mais tempo à atividade e assumir custos que, em empregos formais, podem ser pagos pelo empregador.

A jornada pode representar 5,4 horas adicionais por semana, enquanto combustível, manutenção do veículo e alimentação ficam por conta do próprio entregador. Considerados esses fatores, a remuneração efetiva por hora trabalhada pode ser 12% menor. Na prática, portanto, o valor recebido por pacote precisa ser analisado junto com o custo necessário para realizar a entrega.

Um novo público também chegou às plataformas

A expansão das compras online não ocorre apenas entre os consumidores mais jovens. Segundo Luciano Pedroso, nos últimos meses a empresa percebeu um aumento nas compras realizadas por pessoas com idade entre 80 e 90 anos.

O processo costuma começar com a ajuda de familiares. “A primeira compra é feita por parentes e depois eles seguem comprando com a praticidade das plataformas dos sites”, explica Pedroso.

A situação mostra como a digitalização das compras ultrapassou a barreira geracional. O que antes dependia de familiares para ser adquirido pela internet pode, depois de algum aprendizado, tornar-se parte da rotina do próprio consumidor.

Uma rotina que não para

No momento da reportagem, uma camionete carregada e quatro motos com baús estavam mobilizadas para atender às entregas.

O trabalho, entretanto, não termina quando os veículos deixam o centro de distribuição. À medida que as encomendas são entregues, novos volumes chegam. O retorno ao centro para um novo carregamento pode ocorrer poucas horas depois. Como parte das mercadorias já está previamente separada por endereço e rota, o processo de distribuição é contínuo.

É uma rotina marcada por horários apertados, grande quantidade de pacotes, deslocamentos constantes e necessidade de organização. Por trás de cada encomenda recebida na porta de casa existe uma cadeia que começa muito antes do entregador tocar a campainha. Em Alegrete, essa cadeia já movimenta empresas, centros de distribuição e dezenas de trabalhadores.

O avanço do comércio eletrônico criou uma nova realidade para o município. E, enquanto o consumidor acompanha pelo celular o deslocamento do pedido até sua residência, nas ruas da cidade dezenas de entregadores fazem diariamente a parte menos visível — e indispensável — desse percurso: percorrer a última milha.

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