Depois de 16 dias de estrada, chuva, frio, travessias e muitas histórias compartilhadas ao redor do fogo e nos galpões por onde passaram, os cavalarianos da 4ª Região Tradicionalista chegaram a Alegrete no início da tarde desta terça-feira, 1º de setembro. A cavalgada, iniciada em Rio Pardo no dia 16 de agosto, durante a geração e distribuição da Chama Crioula, percorreu parte do Rio Grande do Sul a pata de cavalo até alcançar o CTG Oswaldo Aranha, no Durasnal, onde o grupo foi recebido para mais uma etapa da jornada que tem como destino levar a centelha de um dos maiores símbolos do tradicionalismo gaúcho.
A viagem, porém, está longe de ter sido apenas uma longa caminhada pelo interior do Estado. Ao longo dos 16 dias, os 12 cavalarianos precisaram enfrentar as condições impostas pelo próprio caminho, entre elas a chuva, o frio e a dificuldade de atravessar cursos d’água que, em determinados momentos, apresentavam volume elevado. Um dos episódios mais marcantes ocorreu na região do Saicã, em Rosário do Sul, onde o arroio cheio se transformou em mais um obstáculo para o grupo. A travessia exigiu atenção e cuidado, mas não interrompeu a missão. Afinal, a cada quilômetro percorrido estava também a responsabilidade de conduzir a centelha da Chama Crioula até a região da Fronteira Oeste.
Sob a coordenação de Marcial Junior, a cavalgada reúne representantes de quatro municípios que integram a 4ª Região Tradicionalista: Alegrete, Uruguaiana, Quaraí e Barra do Quaraí. O grupo é formado por 12 cavalarianos que deixaram suas rotinas para assumir, por mais de duas semanas, uma tarefa que mistura tradição, resistência e pertencimento. À frente da 4ª RT está a presidente Ilva Borba Goulart, que acompanha a movimentação de um grupo que representa a região em um dos momentos mais importantes do calendário tradicionalista.
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Se o caminho trouxe dificuldades, também ofereceu aquilo que, para os participantes, talvez seja uma das partes mais importantes da própria cavalgada: a hospitalidade. Em diferentes pontos do trajeto, os cavalarianos encontraram portas abertas, conversa, comida, abrigo e o tradicional aconchego dos galpões gaúchos. Fazendeiros cederam espaços de suas propriedades para que homens e cavalos pudessem descansar, enquanto entidades tradicionalistas também receberam o grupo. Entre esses locais está o CTG Crioulos do Caverá, em Rosário do Sul, e agora o CTG Oswaldo Aranha, no Durasnal, em Alegrete.
A acolhida, nesse contexto, representa mais do que um lugar para passar a noite. Depois de horas sobre os cavalos, muitas vezes enfrentando frio e chuva, encontrar um galpão aquecido, uma refeição e alguém disposto a ouvir e contar uma boa história faz parte da própria cultura da cavalgada. O descanso dos homens também significa o descanso dos cavalos, companheiros indispensáveis de uma jornada em que o ritmo da viagem é determinado pelas patas dos animais e pelas condições do caminho. É nesses momentos de pausa que a viagem ganha outra dimensão: a da convivência entre pessoas que compartilham os mesmos valores e de comunidades que reconhecem na Chama Crioula uma representação de sua própria identidade.
A permanência de tantos dias longe de casa também costuma provocar uma pergunta entre aqueles que observam a movimentação: como é possível deixar o trabalho e passar mais de duas semanas em uma cavalgada? A resposta está na própria organização dos participantes. Alguns dos cavalarianos são aposentados e outros programaram suas férias justamente para este período do ano. Não se trata, portanto, de uma interrupção improvisada da rotina, mas de uma escolha feita com antecedência para que possam participar de uma atividade que, para eles, está diretamente ligada àquilo que gostam e à maneira como vivem o tradicionalismo.
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A jornada, no entanto, ainda terá novos capítulos. Quando a Chama Crioula chegar ao Marco das Três Divisas, outros tradicionalistas deverão se incorporar ao grupo de Alegrete. A previsão é de que esse movimento aconteça no dia 13 de setembro, quando cavalarianos da cidade se juntarão à comitiva para a etapa que seguirá até Alegrete. Muitos desses participantes também programam suas férias para esta época justamente para poder acompanhar a cavalgada e viver a experiência de conduzir a chama a cavalo.
A chegada ao CTG Oswaldo Aranha, nesta terça-feira, marca, assim, mais do que o encerramento de uma etapa de 16 dias. Representa uma parada em uma jornada que começou em Rio Pardo e que continua sendo construída a cada parada, cada travessia e cada encontro. A Chama Crioula segue como elo entre diferentes regiões do Estado, enquanto os cavalarianos carregam consigo uma tradição que, para além dos símbolos, se manifesta na estrada, na parceria entre homem e cavalo, na hospitalidade dos galpões e na disposição de percorrer longas distâncias para manter viva uma história que atravessa gerações.
Mais do que chegar ao destino, para esses homens a cavalgada parece estar justamente naquilo que acontece entre a partida e a chegada: no frio enfrentado, na chuva que não impediu o avanço, no arroio que precisou ser vencido, no cavalo que precisa descansar, no galpão que abre suas portas e, principalmente, na prosa que surge quando a estrada permite uma pausa. É assim, passo a passo, que a Chama Crioula vai sendo conduzida pelo Rio Grande do Sul — e que a tradição continua encontrando novos caminhos para permanecer viva.

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