Aos 17 anos, um jovem do interior de Alegrete assumiu um dos personagens mais emblemáticos da história do Rio Grande do Sul durante o Desfile Farroupilha de 20 de setembro. Vitório Correia Pereira, estudante do último ano do ensino médio da EMEB Murilo Nogueira de Oliveira – Polo da Conceição, representou Sepé Tiaraju, líder indígena guarani que se tornou símbolo da resistência dos povos missioneiros no século XVIII.
Morador da região da Conceição e filho de trabalhadores rurais, Vitório cresceu entre as atividades do campo. Depois das aulas, participa diariamente das lidas rurais ao lado dos pais, na Fazenda Charrua, na região do Inhanduí. A experiência com os animais e com a vida campeira foi determinante para a apresentação.
Mas, para interpretar Sepé Tiaraju, o jovem foi além da montaria. Estudou a trajetória do líder indígena, pesquisou sua indumentária e confeccionou parte dos elementos utilizados na apresentação, entre eles a lança, o arco e a flecha e as esporas.
“Estudar a história de Sepé Tiaraju e saber da importância dele para a história do Rio Grande do Sul foi muito importante. Ser escolhido para representá-lo foi um orgulho inexplicável”, conta Vitório.

Da Conceição para o desfile
A ligação de Vitório com a história dos povos originários também passa por sua própria família. Segundo ele, seus bisavós tinham origem ligada aos Guaranis e Charruas que habitaram os campos de Alegrete no século XIX. Essa relação com o território e com a vida no campo ajudou a aproximar o jovem do personagem que deveria representar.
Com experiência diária na montaria, Vitório utilizou a própria égua durante as apresentações realizadas na Conceição e posteriormente em Alegrete. Ele desfilou em pelo, caracterizado como indígena, e chegou a ficar em pé sobre o animal durante a encenação. O desafio, segundo ele, era fazer a apresentação em meio ao movimento e ao barulho das ruas.
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“A égua é minha, mas não tive tempo de treinar para ficar em pé sobre o lombo dela. No meio do público é preciso conhecer muito o animal e ele a nós. Com todo o barulho das ruas da cidade, ela poderia se assustar, mas fui abençoado e consegui fazer a encenação direitinho”, relata.

A cena que marcou a apresentação
Caracterizado como um guerreiro indígena, Vitório carregou uma lança semelhante às utilizadas por povos indígenas da região e também utilizou arco e flecha. Um dos momentos mais marcantes ocorreu quando o jovem ficou em pé sobre a égua e reproduziu a frase tradicionalmente associada a Sepé Tiaraju:
“Esta terra tem dono.”
Para Vitório, a frase ganhou um significado relacionado à preservação da cultura e à identidade gaúcha. Na interpretação do jovem, a expressão representa a relação dos gaúchos com o território e a valorização de uma cultura construída ao longo de gerações, incluindo a participação dos povos que habitavam a região antes da formação do Rio Grande do Sul como estado.
Segundo ele, também representa a necessidade de reconhecer a história, a resistência e o trabalho das populações que ajudaram a formar a identidade regional.
Quem foi Sepé Tiaraju?
Sepé Tiaraju foi um líder indígena guarani ligado aos Sete Povos das Missões, no atual território do Rio Grande do Sul. No século XVIII, participou da resistência guarani às determinações decorrentes do Tratado de Madri, que estabelecia a transferência dos territórios missioneiros e provocou a chamada Guerra Guaranítica. A resistência colocou indígenas missioneiros em confronto com forças portuguesas e espanholas. Sepé morreu em combate em 7 de fevereiro de 1756, durante o conflito.
A frase “Esta terra tem dono” é tradicionalmente atribuída a Sepé Tiaraju e tornou-se um dos principais símbolos associados à sua memória. Ao longo do tempo, sua figura passou a ocupar lugar de destaque na memória histórica e cultural do Rio Grande do Sul.
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Uma homenagem construída pelo próprio jovem
A representação apresentada por Vitório não foi apenas uma caracterização preparada para o desfile. O estudante participou diretamente da construção dos elementos utilizados na apresentação.
Ele realizou pesquisas sobre Sepé Tiaraju e procurou reproduzir, dentro das possibilidades, características associadas à indumentária e aos equipamentos utilizados pelos povos indígenas. A lança, o arco e a flecha e as esporas foram confeccionados pelo próprio jovem. A mãe, Luh Correa, acompanhou o processo e destaca o envolvimento do filho.
Segundo ela, Vitório procurou montar toda a vestimenta e os acessórios com o objetivo de tornar a representação o mais fiel possível à imagem que havia estudado.

O “Sepé de Alegrete”
Aos 17 anos, Vitório ainda está concluindo o ensino médio. Entre a escola e as atividades na propriedade rural da família, encontrou na representação de Sepé Tiaraju uma oportunidade de conhecer mais profundamente um personagem que faz parte da história do Rio Grande do Sul. A experiência também mostrou como a tradição pode ser transmitida por meio das novas gerações.
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O jovem que saiu da região da Conceição para representar um dos maiores símbolos da resistência indígena no Rio Grande do Sul levou para a avenida não apenas uma fantasia ou uma personagem, mas o resultado de pesquisa, preparação, experiência no campo e uma ligação familiar com a história dos povos que habitaram os campos de Alegrete.
Por isso, para Vitório, ser Sepé Tiaraju durante os Festejos Farroupilha foi mais do que participar de um desfile. Foi uma forma de conhecer a história e, por alguns minutos, ajudar a mantê-la viva.





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