Barreiras e resistência dificultam casamento de casal homoafetivo

"O amor é que é essencial. O sexo é só um acidente.“ —  Fernando Pessoa.

O Brasil é um dos poucos países no mundo em que o casamento homoafetivo é permitido, desde 2013. No entanto, essa legalidade ainda está longe de acabar com o preconceito. Em todas as sociedades e ao longo de toda a história da humanidade a relação homoafetiva esteve presente, variando, conforme o nível de aceitação social do ponto de vista da cultura, tornando-se algo público ou não.

É preciso considerar que a homossexualidade sempre existiu, por outro lado nem sempre foi tratada da mesma forma ou seja, como na atualidade.

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Essa introdução é para descrever um pouco da história de um casal homoafetivo de Alegrete que está a caminho de realizar o maior sonho, o casamento. O desafio é em relação ao preconceito que já sofreram ao longo dos anos que estão juntos, mas principalmente, neste momento em que estão buscando organizar uma confraternização para celebrar a união que já é consolidada, inclusive com o filho do casal, de quatro anos.

O PAT entrevistou Rui Richard Ribeiro que tem uma relação com Astério Martins Vargas há seis anos e o casal adotou o filho Alexandre, hoje, com quatro anos.

A conversa com Rui, foi depois dele ter procurado a redação para falar sobre os desafios de algo que deveria ter uma abertura e um espaço igualitário para os casais homoafetivos. Entre várias situações que descreveu, atualmente, realizar a cerimônia do casamento com a recepção para alguns convidados tornou-se um grande desafio, não apenas por questões financeiras, mas pelas barreiras que vem enfrentando ao tentar alugar um salão, entre outras dificuldades.

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Neste momento, o espaço para a cerimônia já foi doado por uma madrinha, mas quando ele tentou alugar, até o momento em que a pessoa não tinha conhecimento que era um casal gay, a agenda estava liberada, depois, as datas estavam todas ocupadas. Ele lamenta que a pessoa tenha sido cruel assim – pontua.

Rui acrescenta que veio de uma família humilde, a avó, que faleceu em 2011, foi sempre a sua grande referência, Elira Maria Dorneles do Rio, uma das pioneira baianas dos Canudos.

Elira Maria Dorneles do Rio

O alegretense que é bailarino e coreógrafo, ressalta que desde pequeno sentiu muito na pele o preconceito de todos os lados, inclusive de algumas pessoas da família quando assumiu que era homossexual. A mãe, que está passando por sérios problemas de saúde e precisa de cuidados em tempo integral, foi uma das pessoas que não aceitou a sua sexualidade no início. – acrescenta.

Rui entrou no ballet por problemas de saúde aos dois anos. Ele foi levado pela avó materna e, desde então, teve na arte e na dança os aliados para seguir vivendo, sendo assim, ao longo dos anos foi dez vezes campeão como baliza masculino em concurso de Bandas e Fanfarras, títulos conquistados participando pelas bandas Canudos Amanhã e Banda Polivalente.

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Por um período também trabalhou como coreógrafo de bandas no IEEOA, Emílio Zuñeda, Ecilda Paim, EMEB Costa Leite, Projeto Canudos Amanhã e Emeb Jose Antonio Vilaverde Moura. Já em 2010, Rui teve uma passagem por Londrina onde fez aulas de ballet contemporâneo.

Mas a história do alegretense que foi desenganado por médicos quando nasceu e teve que passar pela primeira cirurgia cardíaca com 1 ano e dois meses e depois por erros médicos, por mais duas aos seis anos e aos 15 anos, a luta pela sobrevivência sempre foi um desafio. Ele não teve infância, pois não tinha como brincar, passava mais tempo no hospital, nas salas de aulas ou no ballet.

A sua perseverança o fez resistir e ir contra vários laudos médicos que apontavam que ele não iria sobreviver aos problemas de saúde. Rui era gêmeo e o irmão faleceu durante a gestação. Mas todos esses desafios o fizeram um guerreiro e, por esse motivo, acredita que celebrar essa união, que será no dia 5 de novembro é consolidar sua Fé e garra diante de todas as intempéries e mostrar o ápice da sua felicidade.

Em relação ao preconceito que vem sofrendo ele acrescenta que o problema não são eles, mas o casal prefere uma convivência mais tranquila. Por esse motivo, Rui cita que eles não realizam nenhuma demonstração de carinho, mais íntima, em frente a outras pessoas, inclusive do filho. “Tudo isso é cultural, e a cultura não muda com a lei”- pontua.

Rui também falou que é consciente que alguns casais acabam extrapolando e se expondo de forma que ele julga que acaba provocando reações que as pessoas atribuem a todos os casais homoafetivos. “Não preciso sair na rua agarrando e beijando meu companheiro. Não faço isso nem na minha casa quando estamos com mais pessoas ou na frente do nosso filho. Eu vejo o pedido de respeito, por isso, respeito as pessoas, contudo, a maldade em relação a nós, machuca”- comenta.

Rui Richard Ribeiro

O alegretense disse que o companheiro é quem está levando o sustento para casa, ele trabalha no ramo da construção e já sofreu muito preconceito. “Quando, em alguns locais ficaram sabendo que ele tinha um companheiro, foi demitido. Isso é cruel. Hoje, eu cuido da minha mãe em tempo integral e do nosso filho, por isso estamos com algumas dificuldades para realizar nosso sonho que é o casamento. Até o momento, tudo vai depender de mim, a organização, os salgadinhos, bebidas e decoração. Mas para realizar esse sonho, se alguém puder nos auxiliar de qualquer forma, tudo é bem vindo. Apenas queremos fazer uma cerimônia de celebração do casamento na religião, já no salão e depois a confraternização com os convidados. O casamento no Civil, será um dia antes, dia 4 de novembro”- esclarece.

Quem desejar auxiliar o casal pode entrar em contato pelo número 55 9938-8555.

Rui Richard Ribeiro



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