A conversa teve o tom de agradecimento, balanço e também de desabafo diante de uma derrota eleitoral que, desde as primeiras horas após a apuração, provocou manifestações de surpresa e lamentação entre milhares de pessoas que acompanhavam o resultado pelas redes sociais e pelo portal.
Afonso Motta encerrou a eleição de 2026 com 81.960 votos no Rio Grande do Sul, correspondentes a 1,34% dos votos válidos, ficando na condição de suplente. Pompeo de Mattos, também do PDT, foi eleito com 83.934 votos, 1,37%, uma diferença de 1.974 votos em relação a Motta.
Apesar de não ter alcançado uma das cadeiras da Câmara dos Deputados, Afonso Motta terminou a eleição como o deputado federal mais votado de Alegrete. Os dados municipais apontam 19.532 votos, equivalentes a aproximadamente 50,5% dos votos válidos para deputado federal no município. Foi uma votação particularmente expressiva porque, além de ultrapassar a marca de metade dos votos válidos da cidade para o cargo, colocou Motta acima da votação individual dos dois candidatos mais votados para presidente da República em Alegrete: Flavio Bolsonaro recebeu 18.692 votos e Lula, 17.259. A comparação ajuda a dimensionar a força eleitoral que o deputado ainda manteve no município mesmo diante da não reeleição estadual.
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Foi justamente essa relação com Alegrete que ocupou boa parte da entrevista. Motta agradeceu a oportunidade de conversar com os alegretenses por meio do Alegrete Tudo e afirmou que considera a cidade seu “baita chão”, embora sua naturalidade oficial seja Porto Alegre. Aos 76 anos, Afonso Antunes da Motta nasceu na capital gaúcha, formou-se em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1972 e construiu ao longo de décadas uma ligação profissional, empresarial, rural, política e afetiva com Alegrete, onde mantém propriedade rural. A documentação eleitoral de 2026 registra Porto Alegre como sua naturalidade e a declaração de bens apresenta uma área rural de 4.023,63 hectares localizada em Alegrete.
Durante a entrevista, Motta afirmou que lamenta profundamente o resultado, mas que respeita a decisão daqueles que não votaram nele. Ao fazer um balanço de sua trajetória, destacou que teve quatro mandatos na Câmara dos Deputados, embora o primeiro tenha começado de maneira diferente dos três seguintes. Em 2010, concorreu a deputado federal, obteve 71.607 votos e ficou como suplente. Posteriormente, assumiu o mandato em janeiro de 2015 e foi eleito diretamente nas disputas de 2014, 2018 e 2022, quando recebeu respectivamente 90.917, 65.712 e 70.307 votos.
Afonso destacou que considera o primeiro período mais administrativo e que os três mandatos seguintes foram marcados por uma atuação que, segundo ele, procurou concentrar esforços na Fronteira Oeste e especialmente em Alegrete, independentemente das diferenças partidárias. Sua atuação parlamentar também incluiu funções de liderança no PDT e em blocos parlamentares. Em 2024, foi líder da bancada do PDT na Câmara, depois de já ter exercido diversas vezes funções de líder e vice-líder. Também presidiu a Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público e participou de outras estruturas importantes da Câmara.
Antes de chegar ao Congresso Nacional, Motta construiu uma trajetória profissional que passou pela advocacia, pelo agronegócio e pela comunicação. Trabalhou por mais de duas décadas no Grupo RBS, ocupando funções diretivas e participando da concepção do Canal Rural. Deixou o Grupo RBS em 2010 para ingressar na vida política.
Na área da radiodifusão, foi presidente da Associação Gaúcha de Emissoras de Rádio e Televisão, a AGERT, entre 2003 e 2005. Durante sua gestão, foi implantado o Balanço Social da Radiodifusão, iniciativa destinada a registrar e divulgar o espaço cedido gratuitamente por emissoras de rádio e televisão para projetos sociais e comunitários.
Na administração pública estadual, Afonso Motta também teve uma função de destaque. Em 2011, durante o governo de Tarso Genro, assumiu a Secretaria do Gabinete dos Prefeitos e Relações Federativas, estrutura criada para aproximar o governo estadual das prefeituras, acompanhar demandas municipais e auxiliar os municípios na elaboração de projetos e na busca de recursos junto ao Estado, à União e a organismos de financiamento. Permaneceu no cargo até 2014, antes de retomar sua trajetória eleitoral para a Câmara dos Deputados.
Na vida profissional e institucional, Motta também atuou junto à OAB e ao Instituto dos Advogados do Rio Grande do Sul, participou de comissões relacionadas à ética, disciplina, questão da terra, políticas criminais e segurança pública e integrou o Fórum Nacional da Agricultura. Como produtor rural, sua relação com Alegrete também ultrapassou a política, envolvendo a pecuária e a criação de bovinos, ovinos e cavalos crioulos, além de participação em entidades e eventos ligados ao agronegócio e à cultura do campo.
Foi nessa combinação entre política, comunicação, advocacia e atividade rural que Afonso construiu a identidade que passou a apresentar como uma ligação especial com Alegrete. Na entrevista ao Alegrete Tudo, disse ter um amor pela cidade e pelo seu povo e afirmou que a relação construída ao longo dos anos não se resume ao período eleitoral. “Tenho um amor por Alegrete pelo povo de Alegrete”, resumiu, ao falar sobre o vínculo que estabeleceu com a comunidade.
O resultado das urnas reforça a dimensão dessa relação. Dos 81.960 votos obtidos por Motta em todo o Rio Grande do Sul, 19.532 vieram de Alegrete, o equivalente a mais de 50% dos votos válidos para deputado federal na cidade. O desempenho também superou a votação individual dos dois candidatos que lideraram a disputa presidencial no município, o que permite dimensionar a concentração de votos que o deputado conseguiu manter em sua principal base eleitoral.
Ao falar sobre o que ficará para Alegrete depois de sua saída da Câmara, Motta estimou que o município e a região deixarão de receber aproximadamente R$ 400 milhões em recursos e investimentos que, segundo ele, poderiam ter sido articulados a partir de um novo mandato. O número foi apresentado pelo próprio deputado durante a entrevista e, por isso, deve ser entendido como uma estimativa política sobre recursos que ele pretendia buscar, e não como um valor já empenhado ou garantido nos cofres públicos.
Na avaliação de Motta, a perda do mandato representa também a interrupção de uma representação política que, em sua visão, levou a Brasília demandas específicas da Fronteira Oeste. Alegrete vinha sendo apontado por lideranças locais como um município que havia recuperado representação federal direta depois de décadas. Registros históricos da Câmara e de documentos parlamentares mencionam a importância da representação de Afonso Motta para a região, lembrando que havia mais de 40 anos que Alegrete e seu entorno não elegiam um deputado federal ligado diretamente à comunidade.
A infraestrutura urbana foi um dos principais eixos citados por Motta na entrevista. Segundo o deputado, ao longo de seus mandatos foram indicados recursos para pavimentar aproximadamente 70 ruas de Alegrete, das quais cerca de 43 já foram concluídas, enquanto outras obras deverão avançar mesmo após sua saída da Câmara. Os registros oficiais da Prefeitura confirmam diversos convênios e projetos de pavimentação vinculados a emendas de Motta.
A saúde foi apresentada por Afonso como uma das principais causas de sua atuação em Brasília. Na entrevista, afirmou que mais de R$ 20 milhões foram destinados à área em Alegrete e destacou especialmente os investimentos na Santa Casa de Caridade. Entre os principais investimentos está o Hospital Dia, para o qual o parlamentar destinou R$ 8 milhões. O recurso representa uma das maiores participações de seu mandato em um único projeto na área da saúde e está diretamente ligado à construção da estrutura destinada a ampliar o atendimento hospitalar em Alegrete.
A Santa Casa também recebeu outros recursos destinados por Motta, incluindo valores utilizados na aquisição de veículos, aparelhos de ar-condicionado e equipamentos para a nova UTI. Já no início de seu quarto mandato, em 2023, o deputado havia indicado R$ 1,2 milhão para a Santa Casa, dentro de um pacote de aproximadamente R$ 4,2 milhões anunciado para Alegrete nos primeiros meses daquela legislatura.
Durante a entrevista, Motta afirmou que pretendia continuar contribuindo para o Hospital Dia e buscar recursos para equipar a estrutura, mas reconheceu que não terá mais o mandato para executar essa etapa do projeto. Disse também que ainda possui aproximadamente 60 dias de mandato e que pretende utilizá-lo para encaminhar o máximo possível de demandas, especialmente na área da saúde.
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Outro grande projeto citado foi o Ginásio Municipal de Alegrete. A obra recebeu R$ 12 milhões em emenda parlamentar destinada por Afonso Motta. O projeto arquitetônico foi elaborado com participação da Unipampa e a Prefeitura informou que o custo total estimado da obra é de aproximadamente R$ 23 milhões. A entrega oficial da emenda de R$ 12 milhões foi registrada em maio de 2026.
Na entrevista, Motta afirmou que havia assumido o compromisso de buscar outros R$ 11 milhões para completar sua participação no financiamento do ginásio, mas que isso não será mais possível em razão da não reeleição. Segundo ele, entretanto, os R$ 12 milhões já destinados estão garantidos e caberá ao Executivo municipal dar continuidade ao processo, incluindo a definição do local e a execução da obra.
Além da pavimentação, saúde e esporte, os registros da Prefeitura mostram que recursos associados ao mandato de Afonso Motta foram previstos para aquisição de máquinas e equipamentos, recuperação de estradas vicinais e outras ações de infraestrutura. Em documento de planejamento municipal, uma emenda de Motta aparece vinculada à aquisição de máquinas e equipamentos para apoio à infraestrutura produtiva e estruturação de cadeias produtivas. Outro projeto registra R$ 1,498 milhão para recuperação de estradas vicinais em assentamentos do município, em razão dos danos provocados pela catástrofe climática de maio de 2024.
Na educação, Motta também destinou recursos ao Instituto Federal Farroupilha. Registros do IFFar mostram a atuação do parlamentar junto ao Campus Alegrete desde 2015, quando esteve na instituição para tratar de demandas apresentadas pela direção, incluindo investimentos em infraestrutura. Na entrevista, Motta também citou o montante de R$ 2 milhões destinado à instituição durante sua trajetória parlamentar. O registro oficial do IFFar confirma a participação do deputado na destinação de emendas para o campus.
Em 2023, por exemplo, o pacote de recursos anunciado para Alegrete incluía R$ 162 mil para o Instituto Federal Farroupilha, R$ 100 mil para a APAE e R$ 100 mil para a realização do Carnaval 2024, além dos recursos destinados à infraestrutura e à Santa Casa.
Ao falar sobre o futuro, Motta deixou aberta uma possibilidade que imediatamente desperta atenção no cenário político alegretense: uma eventual candidatura a prefeito. Questionado durante a entrevista se disputar a Prefeitura de Alegrete poderia representar um grande fechamento de sua trajetória política, não respondeu afirmativamente nem descartou a possibilidade. Preferiu colocar a condição da saúde como fator determinante. Disse que encerra, neste momento, seu ciclo como deputado federal e que sua prioridade é continuar tendo saúde para trabalhar em favor da população.
A resposta ganha significado porque Motta afirmou que este seria seu último mandato como deputado federal. Segundo ele, pretendia continuar trabalhando por Alegrete e pela Fronteira Oeste, mas reconhece que a decisão das urnas encerrou esse projeto. Ao mesmo tempo, afirmou que pretende estar mais presente em Alegrete daqui para frente.
“Eu tenho uma vida muito inquieta”, disse ao falar sobre os próximos anos. Motta lembrou que tem dois filhos, ambos advogados, e admitiu que uma possibilidade é trabalhar ao lado deles. Ao mesmo tempo, afirmou que deverá passar mais tempo em Alegrete, cidade onde mantém sua propriedade rural e onde construiu uma relação que, segundo suas próprias palavras, ultrapassou os limites da política.
Na conversa com Jucelino Medeiros, Motta não escondeu a frustração. Falou de recursos que pretendia buscar, de projetos que gostaria de concluir, da saúde, do Hospital Dia, do ginásio, das ruas e de outras demandas que ficaram pelo caminho. Mas também fez questão de reconhecer os votos que recebeu em outros municípios da Fronteira Oeste, citando Manoel Viana, Uruguaiana, Rosário do Sul e São Borja e agradecendo às comunidades que mantiveram sua votação ao longo dos anos.
Afonso Motta deixa a Câmara, pelo menos a partir do resultado das urnas de 4 de outubro, com 81.960 votos, uma votação superior à obtida por ele em 2022 e inferior apenas ao número necessário para conquistar uma das cadeiras destinadas ao PDT e demais partidos no sistema proporcional. Ficou 1.974 votos atrás de Pompeo de Mattos, que garantiu a eleição.
Mas, para Alegrete, o significado da derrota eleitoral é diferente. A cidade não apenas perdeu um deputado federal que tinha como principal base eleitoral, mas encerrou um ciclo de representação construído durante 12 anos de presença parlamentar. O próprio Motta reconheceu isso ao falar sobre o futuro e ao dizer que gostaria de ter feito mais.
Ao final da entrevista, a mensagem de Afonso Motta foi menos a de um político que simplesmente perdeu uma eleição e mais a de alguém que percebe o encerramento de um longo ciclo. Ele agradeceu aos que votaram nele, respeitou os que escolheram outros candidatos, lembrou os projetos que conseguiu encaminhar e os que não conseguirá concluir e afirmou que continuará fazendo, nos cerca de 60 dias restantes de mandato, aquilo que estiver ao seu alcance.
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Foi assim que terminou o primeiro dia seguinte à eleição: não apenas com a constatação de que Afonso Motta não havia conseguido a quinta passagem para a Câmara, mas com a exposição pública de uma relação política e pessoal construída ao longo de décadas, marcada por recursos destinados à saúde, pavimentação, esporte, educação e infraestrutura e, acima de tudo, por uma votação que, em 2026, voltou a transformar Alegrete na principal demonstração eleitoral de força do deputado no Rio Grande do Sul.
Mesmo sem se reeleger, Motta reconheceu e agradeceu os mais 50% dos votos válidos do povo alegretense, prova inequívoca do reconhecimento ao seu trabalho e um feito incomum em todo estado, um candidato à Câmara Federal receber da mais da metade dos votos válidos do seu município.

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