Gente que faz: a arte de guardar o que o tempo leva

A cidade, quando bem observada, é um álbum aberto. Cada rua guarda um gesto, cada esquina esconde uma história à espera de quem tenha sensibilidade para revelá-la. Em Alegrete, esse papel encontrou um nome: Décio Gotardo Marini — alguém que não apenas viveu a cidade, mas decidiu preservá-la, quadro a quadro, como quem salva o tempo do esquecimento.

Natural de Erechim, onde nasceu em 9 de abril de 1954, filho de pequenos agricultores e oleiros, Marini carrega desde muito cedo a simplicidade que mais tarde se transformaria em grandeza silenciosa. Chegou ao município em 1973 para servir ao 12º Batalhão de Engenharia de Combate Mecanizado. O que era passagem virou permanência. O que era destino virou escolha.

Formado técnico em contabilidade pelo Colégio Emilio Zuñeda e em Economia pela então Fundação Educacional de Alegrete, hoje Urcamp, encontrou na fotografia uma forma de traduzir aquilo que números não explicam: o valor das memórias.

Em 5 de fevereiro de 1979, ao lado de Elton Linhares, inaugurou a STOP Fotografia. Mais do que um empreendimento, nascia ali um ponto de referência para a cidade — um espaço onde o cotidiano ganhava importância e o instante se tornava eterno.

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Autor do livro “Alegrete Antigo em Fotos”, reuniu cerca de 200 imagens que ajudam a contar a história local com delicadeza e precisão. Antes disso, já havia organizado DVDs e um e-book com o mesmo propósito: preservar o passado para iluminar o presente.

No DVD “Alegrete Imagens e História”, com locução de Jucelino Medeiros, apresentou 32 recortes da cidade contemporânea, combinando pesquisa e sensibilidade. Um trabalho que revela o cuidado de quem não apenas registra — interpreta.

Seu acervo, amplo e valioso, reúne fotografias antigas em preto e branco e registros atuais que percorrem praticamente todos os temas da cidade. Imagens que já colaboraram com jornais, livros e revistas, ajudando a manter viva a identidade alegretense.

Em 2018, deu um passo ainda mais ousado: percorreu 111 quadras centrais e produziu 2.470 fotografias no projeto “Alegrete – Imagens para o Futuro”. Um gesto de responsabilidade com o tempo que virá — como se preparasse, desde já, a memória das próximas gerações.

Também participou de iniciativas que ultrapassam a fotografia, como o Projeto Plantio de Árvores Frutíferas, que levou 490 mudas às escolas do município, ao lado de Pedro Airton de Lima. Um trabalho que, assim como suas imagens, floresce com o passar dos anos.

Com fotos publicadas diversas vezes em Zero Hora, reconhecimentos institucionais e o título de Cidadão Alegretense concedido em 2022, Marini construiu uma trajetória marcada pela dedicação e pelo compromisso com a comunidade.

Casado com Simone, pai de Bolívar e Ruana, ele resume sua história com simplicidade: fez algo por Alegrete, mas recebeu muito mais em troca.

E talvez seja justamente isso que define quem realmente faz: gente que entende que viver uma cidade não basta — é preciso cuidar dela, registrar seus detalhes e garantir que, mesmo com o passar do tempo, ela continue sendo lembrada.

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