Determinação e fé operam milagre: com má formação congênita, ele não podia nem falar direito e hoje é cantor profissional
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“Eu sou um milagre de Deus”- essa foi uma das frases que chamou atenção da reportagem ao ler um emocionante desabafo do músico alegretense, Dion Cassio Moraes de Oliveira, hoje com 31 anos, em seu perfil no Facebook.

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Safa Dion como é conhecido no meio musical, o alegretense postou duas fotos ao falar sobre o novo desafio ao assumir a posição de cantor em uma banda. Até parece que não tem nada demais, porém,  uma das fotos ele ainda era criança e deixa muito evidente o lábio leporino.

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Dion aceitou falar com a reportagem e ressaltou que para todos seria impossível um menino que nasceu com lábio leporino (uma separação do lábio superior, normalmente logo abaixo do nariz) e a fenda palatina (uma abertura na parte superior do céu boca (o palato) que causa uma abertura anômala para dentro do nariz), o que provoca uma dificuldade na fala, geralmente as pessoas falam anasaladas ou fanhas.

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Mas ele superou todas essas graves adversidades e até mesmo a rejeição da família quando decidiu ser músico e hoje é o cantor do Grupo Geração. Vamos fazer um relato de algumas passagens e mostrar como para Deus nada é impossível tampouco,  para quem muita fé e firmeza de propósitos.

A infância

Um período muito difícil. Dion recorda que os pais se separaram quando ele tinha apenas dois anos. Até então, eles trabalhavam juntos e realizavam rifas para custear as cirurgias que ele precisava fazer. Tinha uma delas, a principal, que era apenas em Porto Alegre e ele precisava ter peso e outras avaliações.  Com a separação dos pais, a mãe de Dion mudou-se com ele para Porto Alegre para buscar a cirurgia e ele ter toda assistência que precisava à época.  “Minha mãe Eloisa Duarte Moraes é a responsável por tudo, por eu estar aqui hoje. Pois ela sempre comentou que para começo, uma das grandes dificuldades de quem nasce com o lábio leporino e fenda palatina, é se alimentar.  Depois quando se mudaram para Porto Alegre,  ela trabalhava como cozinheira enquanto esperava a vaga no hospital especializado para fazer a cirurgia que ele precisava. Foram dois anos de espera. Dion diz que tem uma vaga lembrança de ir para o hospital e que estava numa maca e quando acordou a mãe estava ao seu lado.

” Minha mãe esteve sempre ao meu lado e não desistiu nunca. Depois da cirurgia em Porto Alegre,  retornamos para Alegrete e, ela me levava sempre, com sol ou chuva na fonoaudióloga. Pois nesta época eu falava anasalado”- comentou.

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O músico acrescenta que a infância foi um período muito difícil devido ao preconceito e hoje chamado bulling. Sentiu na pele na escola. Ele era muito discriminado e recebeu vários apelidos devido à cicatriz no lábio superior onde até hoje identifica que ele nasceu com essa anomalia. Em alguns momentos foi agredido fisicamente.  Foi tudo muito complicado que ele resolveu, com 10 anos, ir morar com uma irmã no interior do Município.

A adolescência

No início da adolescência residindo com a irmã e o cunhado no interior, tinha a certeza que seu amor pelo tradicionalismo seria deu aliado e, ali ele ficou uma temporada onde se realizou como “peão “. Tanto que em 2010 ficou em 1°lugar na vaca parada na campereada.

Música

Em 2014 quando retornou para a cidade e começou a cursar o oitavo ano, Dion teve o primeiro contato com a música. Filho do trovador conhecido por Chairado, ele gostava de acompanhar eventos tradicionalistas e foi até o Piquete Clarêncio da silveira acompanhar a passagem de som de uma banda que iria tocar no local. O alegretense recorda que o cantor se perdeu em uma música e, ele subiu no palco e cantou. Um ano depois recebeu um convite para tocar em uma banda por um dos integrantes do grupo Legião Campeira. O Cerca de pedra foi um dos palcos que ele mais fez eventos naquele período.

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Foi então que, aos 14 anos teve a certeza que queria a música como profissão. “Sabe, sempre pensei que, quando estava no palco as pessoas tem que sentir a energia, tem que sentir que ali tem uma banda. Sempre tive esse pensamento’- comentou.

A partir deste momento, Dion aprendeu a tocar contrabaixo. além do Elio Cabreira e Tiago Gama que o ajudaram muito, o youtube também fez parte de horas de muito treino e estudo. Desta forma, aos 17 anos foi fazer parte da banda gurizada Macanuda, depois em 2010 do Grupo Batidão, em 2013 o desafio foi mais longe, em Santa Catarina no grupo Campesino. Depois dessa experiência fora da cidade natal, retornou para Alegrete em 2014 e passou a atuar no Grupo Yandê. Foi neste momento que ele teve uma oportunidade maior e gravou clip, DVD e o grupo o projetou para o mercado atual. Em todas essas bandas anteriores, algumas participações como cantor, mas a sua função era de baixista.

Em 2017 ele retornou para Santa Catarina e passou a fazer parte do BG e, ao retornar no ano seguinte para o Rio Grande do Sul passou a tocar no Grupo Geração. Neste período, Dion recorda que passava a semana em Alegrete e finais de semanas em Canoas cumprindo agenda do Grupo. Foram dois anos assim, até que em 2019 mudou-se para Canoas. Neste ano recebeu o primeiro convite para ser o cantor da banda e por não se achar nos padrões, àquela época recusou. Mas no mesmo ano, atuando como baixista do Grupo Geração participou de um clip com a música “É só oi e tchau” como cantor e baixista. Foi um sucesso.

Com uma agenda de no mínimo 15 shows por mês o grupo estava muito bem, porém, veio a pandemia e tudo mudou radicalmente. “Eu percebi que minha profissão que estudei desde os 14 nos não podia me sustentar. Pois com a pandemia tudo parou e eu fiquei sem ter a opção no ramo da música. Foi por esse motivo que retornei para Alegrete e aqui já fui de tudo um pouco. Alambrador, servente em obras, soldador, entre outras atividades. O que vier é lucro, pois o mais importante é ter o dinheiro de forma digna. Eu nunca tive medo de trabalhar, tanto que quando era criança tinha o desejo de ser peão de estância. Mas o sonho e a paixão pela música me transformaram e eu estudei muito para ser o que sou como profissional na música. Mas com essa situação, cheguei a pensar em desistir e conseguir um outro emprego fixo com carteira assinada, entretanto, recebi o convite para assumir como cantor no grupo Geração pela segunda vez e agora não recusei. Se a oportunidade está batendo em minha porta pela segunda vez, vou encarar esse desafio. Com esse reconhecimento, sempre vem a certeza que eu sou uma pessoa abençoada pois por todos os motivos eu não poderia sequer falar corretamente com o lábio e a fenda, no entanto, hoje sou o cantor de um Grupo musical”- falou.

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Todo o relato do alegretense demonstra o quanto a vida pode ser uma caixinha de surpresas e que a superação, força de vontade, dedicação e perseverança sempre devem ser aliados, pois durante a entrevista, por várias vezes Dion frisou a importância que sua mãe teve na sua vida e o quanto a garra dela que saia sempre muito cedo para trabalhar e retornava à noite e, mesmo assim, não desistiu jamais de buscar o melhor tratamento para que ele pudesse falar e ter o mínimo de sequelas o fizeram o homem que é hoje. Dion citou também que outras duas pessoas tiveram uma influência muito grande na sua história, Claudemir Silveira que o contratou em 2006 para tocar em um piquete durante a Semana Farroupilha e no final dos dias contratados, além do cachê o pagou com o contrabaixo. Este foi o primeiro que teve e significou muito. Da mesma forma Ivone Marques, uma senhora que o aconselhou muito no período em que a mãe saia para trabalhar e, ao invés de levantar no horário pegar o ônibus para escola, ficava dormindo. Como sempre residiu no bairro Nossa Senhora da Conceição era imprescindível acordar cedo. “Lembro que ela conversou muito comigo e isso com certeza me ajudou a mudar o pensamento naquela época” – comentou.

Para concluir, Dion destacou que prefere aprender com os erros do que não tentar. Ele frisou que não tem medo dos desafios, de trabalhar e encara muito bem todas as batalhas, como agora neste período de pandemia, onde exerceu e continua trabalhando em várias frentes para garantir o sustento de forma digna até que tudo passe e os eventos retornem para que possa desenvolver esse desafio a pleno como cantor principal do grupo Geração. Sempre dei 100% de mim em todos os trabalhos e assim vou continuar. É um desafio enorme para um menino que sofreu muito, principalmente por ser filho de pais separados e por ter uma má formação no lábio que por muito tempo tinha uma cicatriz mais evidente e tinha que aguentar muitos deboches e piadas, além de ser agredido diversas vezes pois era sozinho e discriminado, assim, quando os “valentões” resolviam bater, mesmo que tentasse me defender eu apanhava mesmo.

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“Olho para minha foto, aquela criança com muitos medos, incertezas, com uma má formação, com traumas e, hoje, um homem, um profissional, um cantor, isso me intriga. Por isso, usei por muitos anos a frase:eu sou sonho de Deus”- finalizou.

 

Flaviane Antolini Favero


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